
Investigação da Polícia Federal (PF) aponta que o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro de Jair Bolsonaro (PL) e aliado de primeira hora da extrema direita, recebeu ao menos R$ 6 milhões em mesadas, entre outros “mimos” do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O empresário se valia de fraudes para amealhar recursos ilicitamente de seus clientes e os usava também para obter benefícios políticos e financeiros.
As informações constam de relatório e material colhido pela PF ao longo das investigações e cujo sigilo foi suspenso pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, relator do caso Master.
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O avanço das investigações mostra uma relação bastante íntima e ao mesmo tempo “funcional e instrumental”, conforme a PF, entre os dois, inclusive com fotos de ambos se divertindo em alguns dos destinos mais caros da Europa, além de indícios de diversas negociações suspeitas. Segundo a PF, Vorcaro dava “tratamento privilegiado” e “diferenciado” a Ciro Nogueira.
O senador foi um dos que tentou salvar o banqueiro com a chamada “emenda Master”, que pretendia aumentar o valor máximo pago pelo Fundo Garantidor de Crédito, matéria sob medida para os interesses do banqueiro.
Mesada milionária
No material colhido, há trocas de mensagens via celular, com Vorcaro e comparsas, mostrando como se deram as tratativas relativas às mesadas e a outras negociações.
De acordo com a PF, “os diálogos analisados demonstram ciência, anuência e prioridade atribuída por Vorcaro à manutenção desses repasses, os quais, no intervalo temporal identificado, totalizam montante mínimo estimado em R$ 6 milhões”. O valor citado diz respeito a pagamentos mensais (alguns de R$ 500 mil) feitos por Vorcaro a Ciro entre 2024 e 2025.
Nas conversas, o primo do banqueiro, Felipe Vorcaro — que o ajudava em suas operações — questiona Daniel se era para continuar na “parceria BRGD/CNLF” e menciona o valor de R$ 300 mil por mês. Vorcaro concorda. Segundo as apurações, a BRGD é uma empresa controlada pela família Vorcaro, enquanto a CNFL é uma empreiteira da família do senador.
Em 2025, em outra conversa, Felipe questiona novamente se deve “continuar enviando o recurso pro parceiro BRGD”. Vorcaro confirma e ainda enfatiza que o pagamento é “muito importante”.
Há, ainda, mensagem em que Vorcaro reclama com o primo: “Cara, eu no meio dessa guerra atrasou dois meses Ciro?”. Para os investigadores, trata-se de uma referência ao senador, no contexto da crise do Master.Na sequência, Felipe diz que vai dar um jeito para fazer o pagamento e pergunta: “vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?”. “K”, no caso, equivale a “mil”.
“Daniel Vorcaro realizou repasses mensais à empresa do Senador, totalizando no mínimo R$ 6 milhões”, aponta o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, em referência ao período de junho de 2024 a agosto de 2025, quando os pagamentos foram feitos.
Vantagens indevidas
A PF também levantou que Ciro Nogueira obteve outras “vantagens indevidas” do banqueiro: uma das empresas ligadas ao senador comprou uma participação na Green Investimentos S.A. por R$ 1 milhão, quando o valor estimado seria em torno de R$ 12,9 milhões.
Em planilhas de operadores financeiros de Vorcaro, aparecem entradas como “Espécie Ciro 350K”, em referência a um pagamento em dinheiro vivo ao senador, além do relato de um piloto a respeito do transporte de uma sacola com valores em espécie em um voo privado para Brasília.
“Em relação aos indícios de lavagem de capitais, a leitura integrada dos diversos indexadores revelou a existência de estruturas recorrentes e interligadas, utilizadas, em tese, para a ocultação, dissimulação e reinserção de recursos de origem incompatível com a capacidade econômico-financeira formal dos envolvidos, tendo como possível beneficiário final o senador Ciro Nogueira”, afirma relatório da PF.
Além disso, o banqueiro custeava viagens internacionais, hospedagens em hotéis e despesas em restaurantes internacionais luxuosos. Dentre estas estão, por exemplo, o pagamento de seis diárias no Hotel Park Hyatt New York, em maio de 2024, no valor de US$ 4,8 mil (R$ 24,5 mil) cada, totalizando US$ 47,7 mil (R$ 245 mil). Em Courchevel, nos Alpes franceses, foram pagas despesas de mais de R$ 122 mil em restaurantes, em apenas dois dias, em janeiro do ano passado.
“Conclui‑se que o benefício econômico direto atribuído a Ciro Nogueira, decorrente das viagens internacionais, perfaz o montante de R$ 468.721,78, sem considerar os gastos com voos privados, realizados em ao menos três oportunidades em deslocamentos internacionais de entrada e saída do Brasil, bem como em duas ocasiões em voos internos nos Estados Unidos”, afirma a PF.
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