O acordo entre Estados Unidos e Irã pode ser o estopim de um boom econômico da República Islâmica, devido a dois dos pontos principais da negociação: o fim das sanções econômicas à República Islâmica e a devolução de seus ativos congelados em instituições do Ocidente. Quem levanta essa hipótese é o cientista político e professor de Relações Internacionais Bruno Lima Rocha.
Segundo Lima Rocha, “sem as sanções, o país consegue ter um comércio direto, sem ter que triangular com diversos países que quiserem comprar, por exemplo, fertilizantes iranianos”.
“Com esse boom das commodities agrícolas e a necessidade de fertilidade de terras muito produtivas, o polo petroquímico iraniano é uma potência que pode atingir o planeta inteiro”, acrescentou o acadêmico e jornalista do canal HispanTV Brasil.
Lima Rocha afirma que o acordo, “em geral, é muito favorável aos termos do Irã”. No entanto, acredita que seu pleno cumprimento é bastante difícil, tanto pelo interesse de Israel em manter seus ataques ao Líbano – uma das condições iranianas para o acordo é o respeito ao território libanês –, como pelo fato de que Tel Aviv tampouco aceitaria um cenário favorável economicamente à República Islâmica.
“A economia iraniana estando bem é uma garantia de que o sionismo nunca vai ter sossego. Essa é uma máxima que sabem Tel Aviv, Washington e até as oliveiras milenares e os cedros do Líbano que ainda resistem à ocupação sionista”, afirma o cientista político.
Leia a entrevista completa com o cientista político Bruno Lima Rocha:
Opera Mundi: Como você avalia o acordo de 14 pontos entre Irã e Estados Unidos? Quem ganhou e quem perdeu?
Bruno Lima Rocha: Em geral, o acordo é muito favorável aos termos do Irã. A leitura de que o país perderia com as restrições à produção de armas nucleares é equivocada, porque nunca houve uma tentativa iraniana de produção de tais armamentos. Há inclusive uma fátua sobre isso, ou seja, uma jurisprudência com termos vinculantes.
O Irã não vai abrir mão da sua capacidade de produzir mísseis, que garantem a defesa do país, não perde nenhuma riqueza estratégica, nenhum ativo, nenhuma cadeia de valor.
A questão do Estreito (de Ormuz) vai ser disputada também no direito internacional. Além disso, o país terá uma compensação pelos crimes de guerra cometidos por Estados Unidos e Israel, que incluem a destruição de pontes, usinas de dessalinização, represas hidrelétricas, etc.
Finalmente, há um compromisso de Washington de liberação dos ativos iranianos. Podemos dizer que o Irã conseguiu colocar no acordo todos os seus interesses mais importantes, incluindo a questão do Líbano, ainda que esse ponto está na dependência de que o governo de Netanyahu (em Israel) cumpra com o que está escrito, o que acho difícil.
As concessões feitas pela Casa Branca neste acordo podem ser vistas internamente no país como sinal de fraqueza do governo Trump? Isso pode ter consequências eleitorais?
Creio que sim. Trump entrou numa aventura, estimulado por seu genro, Jared Kushner, que é muito próximo do gabinete de Netanyahu. A decisão teria sido tomada no final de janeiro deste ano, e ele achava que teria um pré-acordo assinado em março, o que não aconteceu.
O governo dos Estados Unidos é muito mal avaliado e a guerra tem avaliação ainda pior avaliada que a do governo. Segundo a opinião pública norte-americana, é uma guerra insensata, feita por interesses israelenses diretos, e demonstra uma fraqueza do governo Trump. Nem seu secretário de Estado, Marco Rubio, dá tanta ênfase ao conflito.
Rubio é como um pró-cônsul romano, quer um grande protetorado na América Latina, e não alguém que entende o grande jogo que está sendo jogado na Eurásia. Não entende que para conter o avanço da integração econômica eurasiática e da aliança sino-russa, o Irã é um fator-chave. Nesse sentido, os Estados Unidos perderam tudo. Se derrotassem o Irã, estariam muito próximos de atingir uma conexão chave entre Rússia e China, e também a economia iraniana, a economia do petróleo, mas nada disso aconteceu.
O fim das sanções e o fundo de reconstrução são as principais vitórias do Irã com este acordo? Como você analisa estes aspectos específicos?
O fundo de reconstrução é um reconhecimento de que foi uma guerra de agressão contra o Irã, e o cometimento de crimes de guerra, porque atingiram a infraestrutura civil, tentando criar uma situação de não-governo, ou do governo chegar aos limites da sua capacidade de tomar decisões, e de adesão popular.
Sobre o fim das sanções, é curioso que se o acordo com o governo Obama, em 2015, tivesse ido adiante, talvez a economia iraniana não estivesse tão forte hoje, devido a que sua fortaleza, sem a integração eurasiática, é ter 50% do comércio por terra, graças a um sistema de trocas muito efetivo a partir quase de um mercado de bolsa comum de commodities no mar Cáspio, com uma complementariedade econômica desdolarizada com Rússia e China.
Se as sanções tivessem sido levantadas em 2015, como quis Obama, como predicava o professor (Zbigniew) Brzezinski, um dos grandes falcões civis do Partido Democrata, nada disso estaria acontecendo.
Para o Irã, o retorno dos ativos é muito importante. Sem as sanções, o país consegue ter um comércio direto, sem ter que triangular com diversos países que quiserem comprar, por exemplo, fertilizantes iranianos. O Brasil é um mercado potencial enorme para isso.
Com esse boom das commodities agrícolas e a necessidade de fertilidade de terras muito produtivas, o polo petroquímico iraniano é uma potência que pode atingir o planeta inteiro. Nesse sentido, o fim das sanções é muito positivo. A internacionalização dos produtos exportáveis do Irã é outro ativo importante, porque o país pode constituir joint ventures sem passar por danos ou punições aos países que receberam essas propostas e esse ingresso de capital.
Pode fazê-lo? Com moeda chinesa, pode. Mas aí, alguns governos periclitantes podem ficar preocupados em desagradar Washington. Se as sanções acabarem, e culminar na reconexão do Irã ao Swift, se criaria o cenário idela para o país.

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Como você vê a questão das garantias ao Líbano? Teerã tem esperanças de que Tel Aviv vai aderir e cumprir a cláusula de não agressão a Beirute? E, se não, qual é a estratégia iraniana nesse sentido?
Infelizmente, não vejo Israel disposto a respeitar o parágrafo sobre o respeito ao território do Líbano. Cedo ou tarde, Trump irá fazer vista grossa à insistência de Israel e o Irã responderá com uma nova carga de mísseis hipersônicos sobre alvos sionistas. Espero estar equivocado, mas que essa tende a ser a resposta desses países a esse ponto.
Há também a questão da capacidade de defesa da resistência libanesa, que é um conjunto de sete forças políticos-militares lideradas pelo Hezbollah, e que é muito significativa.
Acho que o Teerã não tem ilusão nenhuma que Tel Aviv vai cumprir (a cláusula), e aí é botar no cálculo do acordo se, nas entrelinhas, o que o Trump está dizendo é “resolvam entre vocês”. Nesse caso, há duas possibilidades: ou Teerã pode fazer uma forma de pressão sobre Netanyahu, ou o lobby sionista pode fazer uma aliança, manter a aliança com o próprio Trump de modo a sabotar os esforços iranianos para ter uma economia plena.
É preciso entender isso. Com a economia iraniana a pleno vapor, com a sua enorme capacidade tecnológica sem nenhuma punição para quem quer fazer negócios com o Irã, esse país vai ter uma ascensão absurda, maior do que aquilo que já tem e proporcional à sua projeção militar hoje.
A economia iraniana estando bem é uma garantia de que o sionismo nunca vai ter sossego. Essa é uma máxima que sabem Tel Aviv, Washington e até as oliveiras milenares e os cedros do Líbano que ainda resistem à ocupação sionista.
Eu acredito sinceramente que Tel Aviv nunca vai cumprir um pleno acordo com os territórios limítrofes da colônia sionista, e que alguma solução vai ter que ser dada e breve.
Certamente, a equipe de negociação iraniana já está “precificando” para a Casa Branca a necessidade de colocar Netanyahu nos eixos, ou pelo menos de conter os seus arroubos contra o Líbano.
O post Acordo é vitória do Irã, e fim das sanções pode gerar boom econômico ao país, afirma especialista apareceu primeiro em Opera Mundi.