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Quando o Brasil vira arquibancada

Uma Copa do Mundo começa muito antes do apito. Ela tem início quando alguém do bairro surge com um rolo de barbante, cinquenta metros de bandeirinhas e uma escada emprestada. Em menos de duas horas, a rua inteira já foi sequestrada por uma quermesse organizada por patriotas fanáticos.

As fachadas ficam verdes e amarelas num tom que jamais existiu na natureza. Crianças pintam o asfalto enquanto um adulto desesperado grita “NÃO PISA AÍ!” (bem quando ele mesmo pisa em tudo). Surgem desenhos de bolas, taças, jogadores tortos e um Neymar que parece o Einstein.

Os edifícios entram numa competição silenciosa para decidir qual hall consegue atingir o maior nível de cafonice. Enquanto isso, cachorros desfilam usando capa da Seleção, e bebês vestidos de Vini Júnior observam o mundo sem entender por que colocaram chuteiras em alguém que ainda nem sabe engatinhar.

A economia nacional entra em êxtase. Pessoas compram TV nova “porque essa Copa merece”. O crediário parcela sonhos em 48 parcelas de arrependimento. Supermercados vivem cenas de cinema-catástrofe: falta gelo, some carvão, desaparece cerveja e surge promoção de picanha até em farmácia. 

No trabalho, a produtividade tira férias. Reuniões evaporam. Chefes fingem tolerância enquanto também escondem o celular acompanhando a escalação. O home office vira home torcida, e professores tentam explicar equações para alunos que estão trocando figurinhas da Copa debaixo das carteiras.

Então chega o primeiro jogo.

A cidade entra em suspensão temporal. Academia vazia. Cinema sem ninguém. Shopping parecendo cenário pós-apocalíptico. Só existem dois lugares funcionando: bar e churrasco em salões de festa.

No botequim lotado, às dez da manhã de uma terça-feira, um sujeito que nunca viu uma partida inteira na vida explica, com autoridade científica, o problema do 4-2-4. Outro debate impedimento sem nunca ter entendido a regra. O vizinho grita gol três segundos antes da TV dos outros no condomínio, transformando cada ataque em spoiler.

Quando o Brasil marca, explode uma sequência de eventos digna de uma hecatombe geológica: copos voam, mesas viram tambor, fogos estouram, desconhecidos se abraçam como irmãos separados pela guerra. Durante noventa minutos, o país inteiro acredita que a felicidade depende da trajetória de uma bola. E depende mesmo.

Porque quando o Brasil perde, instala-se um silêncio tão profundo que dá pra ouvir um adulto chorando escondido no banheiro enquanto apaga o post: “VEM NI MIM, HEXAAAAA!”

Mas três dias depois, a mesma pessoa já está novamente de camisa amarela, segurando a mesma vuvuzela de 2010, dizendo:

— Agora vai!

E vai mesmo. Vai acabar tudo de novo em arrebatamento coletivo ou em trauma nacional.

Por isso, cruzemos os dedos e torçamos pela primeira opção. Porque não ganhar a Copa é triste. Mas, doloroso mesmo, é lavar as louças do churrasco em silêncio depois.