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‘Criadas’ chega aos cinemas com reflexão sobre heranças coloniais no Brasil

Após uma trajetória de reconhecimento em festivais nacionais e internacionais, chega aos cinemas o longa-metragem brasileiro Criadas, com reflexões sobre colorismo, memória, heranças coloniais e suas influências nas relações entre mulheres negras no país.

O filme narra o reencontro entre duas primas que cresceram juntas na mesma casa, mas ocupando lugares radicalmente diferentes. Embora literalmente da família, a mãe de Sandra (Mawusi Tulani), negra retinta, era empregada da irmã, mãe de Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), negra de pele clara. Já adultas, as primas se reencontram na casa onde moraram, o que desperta memórias, reabre feridas e as aproxima dos fantasmas da infância.

Mariana e Sandra crianças. <br> (Foto: Divulgação)
Mariana e Sandra crianças.
(Foto: Divulgação)

“Em Criadas, a gente costuma dizer que a casa é um outro personagem, porque ela está viva, ela se transforma, conversa com os personagens, os influencia e influencia seus desejos. E inclusive ela materializa uma disputa de território que é muito importante nessa tensão entre as duas primas, nessa disputa entre o quarto maior e o menor”, expõe a diretora Carol Rodrigues em entrevista exclusiva para Opera Mundi.

Mariana (Ana Flavia Cavalcanti) e Sandra (Mawusi Tulani) se reencontram adultas na casa. <br> (Foto: Divulgação)
Mariana (Ana Flavia Cavalcanti) e Sandra (Mawusi Tulani) se reencontram adultas na casa.
(Foto: Divulgação)

“Com o tempo, a gente percebe como o óbvio precisa ser dito. Porque o óbvio, de alguma forma, é uma armadilha da naturalização da violência. Ele é uma armadilha para gente muitas vezes não evidenciar questões que são tão caras pra gente. Então era importante trazer à tona essas questões”, acrescenta.

As desigualdades no mercado de trabalho é um tema recorrente no filme e as barreiras impostas pelo racismo, ainda que de formas diferentes, são enfrentadas pelas duas protagonistas. Carol Rodrigues, que também é responsável pelo roteiro e ideia original da obra, conta que ao longo de toda a realização do filme buscaram alinhar as escolhas de produção com as reflexões propostas na narrativa. Segundo ela, era fundamental construir um espaço de trabalho saudável, com uma política salarial horizontal e jornada 5×2, contornando a 6×1, tão comum no cinema.

Mariana (Ana Flavia Cavalcanti) e Sandra (Mawusi Tulani) em 'Criadas', de Carol Rodrigues. (Foto: Divulgação)
Mariana (Ana Flavia Cavalcanti) e Sandra (Mawusi Tulani) em ‘Criadas’, de Carol Rodrigues.
(Foto: Divulgação)

Essas ponderações também se estenderam para a escolha da equipe, composta por 80% de pessoas negras. “Para a gente, o mais importante era ter maioria negra, obviamente. Também era importante ter muitos LGBTs, não só gays e lésbicas, mas pessoas não binárias e pessoas trans. Porque quando falamos de diversidade, estamos falando de como trazer todas as pessoas para dentro do fazer, para nunca alijar a prática da própria narrativa, não ser incoerente nesse lugar. Então isso enriquece, traz outras perspectivas, ajuda a gente a contar as histórias. Essa busca por outros pontos de vista foi algo que sempre aconteceu, desde o desenvolvimento do roteiro até a finalização.”

Primeiro longa-metragem da diretora, o filme dá sequência a investigações que vinham sendo criadas desde seus curtas, A boneca e o silêncio (2015), disponível no Youtube, e A felicidade delas (2019), disponível gratuitamente no Itaú Cultural Play.

Cartaz de 'Criadas'. <br> (Foto: Divulgação)
Cartaz de ‘Criadas’.
(Foto: Divulgação)

Confira abaixo a entrevista completa com Carol Rodrigues:

No seu curta A felicidade delas (2019), você já começa a construir uma relação bem forte das personagens com o espaço, que é aprofundada em Criadas. Nos dois filmes, a relação das personagens com o espaço altera a relação entre as próprias personagens. Como foi a construção dessas relações tanto no roteiro, como na preparação do elenco?

Em Criadas, a gente costuma dizer que a casa é um outro personagem, porque ela está viva, ela se transforma, conversa com os personagens, os influencia e influencia seus desejos. E inclusive ela materializa uma disputa de território que é muito importante nessa tensão entre as duas primas, nessa disputa entre o quarto maior e o menor.

A gente olhou mais de 200 casas para encontrar essa e isso foi muito importante, porque precisávamos de uma casa em que tivesse dois quartos muito diferentes. Era muito importante que a diferença de tamanho dos quartos fosse muito evidente e que quase soassem como se fossem extraídos de casas distintas. Então, a escolha da casa tinha essa singularidade.

Você mencionou A felicidade delas e essa relação com o espaço, que, nesse filme, de alguma forma também é o tatear do próprio desejo. Há o espaço do prédio abandonado, que se torna a materialização desse desejo a ser conquistado e desbravado. E há a própria cidade, que empurra as personagens para esse lugar.

Já no Criadas, a gente não vê o mundo externo. O mundo externo entra pelas frestas, seja pela iluminação, pela paisagem das janelas, pelas pessoas que chegam de fora e entram na casa… Mas a gente só tem o espaço externo no final, no último plano.

O modo como as personagens dialogam com o espaço que ocupam para entender quem elas são no mundo é fundamental para mim, nas histórias que eu quero construir.

Principalmente quando a gente está falando de identidades oprimidas, de pessoas negras, pessoas LGBTs, mulheres de forma geral, estamos falando de uma descoberta da própria identidade no tensionamento entre o íntimo e o externo. E no tensionamento entre aquilo que a gente transborda para o espaço que a gente percorre e o que a gente reestrutura e ressignifica nessa vivência.

E no Criadas tem a literalidade dessa casa como abrigo para essas mulheres, mas também a casa como própria metáfora da sociedade brasileira. A casa é um personagem vivo que respira, se transforma, influencia na dinâmica dessas personagens, materializa seres, cria fissuras. Cria fissuras inclusive para o próximo mundo. O espaço pare alguém vindo do mundo dos mortos.

Eu acompanho seu Instagram e lembro de ver as imagens dos bastidores e notei uma maioria de pessoas negras, de mulheres, de pessoas LGBTs. Você pode comentar sobre a escolha da equipe?

Para a gente, o mais importante era ter maioria negra, obviamente. Também era importante ter muitos LGBTs, não só gays e lésbicas, mas pessoas não binárias e pessoas trans. Porque quando falamos de diversidade, estamos falando de como trazer todas as pessoas para dentro do fazer, para nunca alijar a prática da própria narrativa, não ser incoerente nesse lugar. Então isso enriquece, traz outras perspectivas, ajuda a gente a contar as histórias. Então essa busca por outros pontos de vista foi algo que sempre aconteceu, desde o desenvolvimento do roteiro até a finalização.

Isso é muito rico, porque quanto mais pessoas com pontos de vista diferentes, melhor vai ser o filme, mais interessante, mais complexo. Pelo menos vai ser menos óbvio. Porque se a gente só tem uma caixa de ressonância dos pontos de vista das mesmas pessoas, o que esse filme pode nos ajudar em termos de abrir novas conversas?

Eu lembro quando vocês ganharam o prêmio Cabíria de roteiro e eu achei que o filme já estava pronto. Fiquei doida para assistir, mas ainda tive que esperar muitos anos. Foi emocionante ver o filme depois de toda uma expectativa criada. Qual a importância dos prêmios que vocês receberam?

Pois é, as pessoas me escreveram perguntando onde podiam ver o filme, mas ele ainda não estava pronto. No Cabíria, ainda foi mais fácil, porque ganhamos em agosto de 2023, filmamos em novembro e o filme saiu no finalzinho do ano passado no Festival do Rio e agora vai para o circuito comercial. Então foi menos tempo. Imagina no BrLab que foi em 2017! Demorou nove anos para ficar pronto.

Mas foi massa, porque a gente estava prestes a filmar. E ajudou no fôlego final de financiamento, porque a gente foi ousado, fomos filmar com 700 mil reais, então deu o último fôlego para a gente conseguir a complementação, para ter uma produção um pouco melhor. A gente conseguiu mais dois dias de filmagem e outras coisas.

Esses prêmios são fundamentais principalmente quando a gente está falando sobre cinema independente. O holofote se vira para os projetos, as pessoas já ficam mais predispostas a querer saber sobre eles. Quando você ganha um prêmio, as pessoas buscam saber que filme é esse. Os prêmios e os editais, ao longo da produção do filme, foram muito importantes de forma geral.

A gente agora está num momento de discussão de políticas públicas para o cinema e passa também por isso, por a gente ter condições para conseguir criar ambientes saudáveis de filmagem. A gente não pode alijar o fazer da própria narrativa que a gente está construindo.

Mesmo com todas as questões, mesmo com muitos problemas financeiros, tiveram alguns princípios que nos nortearam. Foi fundamental, por exemplo, a jornada 5×2 [ao invés da 6×1 muito comum no cinema], não poupar dinheiro em termos de alimentação da equipe, todas as cabeças de equipe ganharem os mesmos valores. Não teve aquela situação da equipe de fotografia ganhar mais que a de som.

Desde o início, o mais importante era que em nenhum momento o que estávamos propondo  na narrativa contradissesse a forma como estávamos construindo aquela linguagem. Essa equidade não é menor para mim.

As próprias equipes eram responsáveis por gestar o próprio orçamento. Não tínhamos um orçamento super grande, mas a gente sempre foi muito transparente em relação a tudo, então não tinha aquilo que muitas vezes é uma prática da produtora dizer que não tem dinheiro e na verdade está pegando uma parte para si. Não. A gente era transparente, colocamos as notas para todo mundo ver. Então todas as equipes sabiam seus tetos de gastos.

Todos os parceiros foram muito importantes para a gente conseguir criar um ambiente saudável para as pessoas que estavam fazendo o filme. Nada é perfeito, mas o processo de fazer foi muito fundamental, foi pensado com muito cuidado e muito carinho para garantir que as pessoas tivessem as condições para poderem filmar da melhor maneira possível.

(*) Nayla Guerra é Mestranda em História Econômica (FFLCH-USP), especialista em Gestão Cultural (Senac-SP) e graduada em Audiovisual (ECA-USP). É produtora cultural na Cinemateca Brasileira e organizadora do Cine Sapatão. É autora do livro “Entre apagamentos e resistências” e diretora do filme “Ferro’s Bar”.

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