Novamente a corrupção ocupa o centro do debate político brasileiro. A eleição de 2026 segue empurrada para a pergunta mais pobre da vida pública: quem é o mais corrupto. A disputa sobre o país desaparece atrás da contabilidade da sujeira. Distribuição de renda e desenvolvimento ficam em segundo plano, junto com a discussão sobre quem se apropria do orçamento e com que aparência de lei. O debate sobre os rumos do país segue engolido pela barulheira moral.
O caso Master oferece a cena pronta. Um banco bandoleiro liquidado pelo Banco Central, um banqueiro convertido em peça de inquérito, governo e oposição disputando quem tem menos a esconder. STF, PF e mídia de novo dando as cartas. Lembram da Lava Jato?

(Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)
E o tratamento não foi o mesmo para os dois lados. De um lado, Flávio Bolsonaro, gravado pedindo dinheiro a Vorcaro para o filme sobre o pai e chamando o banqueiro de irmão de vida na própria gravação. Do outro, Jaques Wagner, alcançado pela fase mais recente da operação. Contra Wagner veio o aparato inteiro, busca autorizada na própria casa, operação com nome, a coreografia que se conhece desde a Lava Jato, a imagem pronta para circular. Contra Flávio, com a gravação que o The Intercept divulgou no colo, não veio operação nenhuma, e o caso nem teria vindo à tona sem o site. Não há simetria aqui, e é isso que interessa. Num caso o Estado entra em casa e arruma a cena para a foto, no outro deixa o escândalo correr por fora sem investigação. Qual o critério?
Sempre convém olhar quem segura a bandeira antes de aceitar a bandeira. A gritaria anticorrupção nunca quis acabar com a corrupção. Antes de tudo, é um método para administrar a acusação. A corrupção vira arma eleitoral porque permite falar em limpeza sem tocar no que produz a sujeira. O acusador se dispensa de projeto e de programa, basta apontar o dedo. O acusado responde apontando outro, e a eleição encolhe a um confronto de ficha corrida enquanto o orçamento segue nas mesmas mãos de sempre.
Deixo aqui uma pergunta incômoda, e ela não é para a direita. A esquerda sempre perde quando entra nesse jogo, e perde mais do que a direita, porque tem o que entregar. A esquerda apresenta projeto de país, governa, recompôs renda, retirou o país do buraco em que o bolsonarismo o deixou e tenta fazer caber política social numa moldura fiscal estreita. Esse é o seu terreno. Quando corre para provar que o adversário é mais sujo, abandona a vantagem que possui e aceita ser medida pela régua de quem vive da acusação.
Mas existe um passado. Durante vinte anos, o PT fez da ética na política um capital próprio. Ergueu a honestidade em bandeira, denunciou o fisiologismo alheio como marca de origem e ajudou a montar a régua que mede caráter público pela exposição da sujeira. Forjou a arma e a entregou a quem sempre soube usá-la melhor. A direita domina essa gramática há muito tempo. Da Itália da Mani Pulite ao Leste europeu pós-socialista, a corrupção existia, e existia de modo profundo, mas a bandeira anticorrupção serviu também para destruir sistemas partidários, legitimar privatizações, vender ajuste como limpeza moral e transformar crise política em reorganização conservadora do Estado.
Retomando, quando essa régua se voltou contra o próprio PT, primeiro no Mensalão, depois na Lava Jato, a defesa ficou bloqueada, porque recusar a régua parecia confessar o crime. Diante de algo como o escândalo Master, parte da esquerda correu de novo para o moralismo e batizou o escândalo com o sobrenome do adversário. A intenção legítima era ferir Bolsonaro. O efeito foi rearmar a máquina que um dia triturou o próprio campo popular. Uma força com projeto que se rebaixa à régua de quem só tem pilhagem comete o erro maior, troca disputa de país por disputa de prontuário.
Veja, o ponto aqui não é tratar corrupção como assunto menor. Que se investigue tudo, Flávio, Wagner, Ciro, qualquer nome arrastado pelo Master, e que se condene o que houver de condenável. Se Wagner recebeu vantagem indevida, que responda por isso. A questão central é outra. A corrupção que a operação persegue é sempre a do flagrante, a do sujeito apanhado no ato. Mas sabemos que essa é só uma parte do que sai dos cofres públicos, e certamente não é a maior.
Novamente faço um recuo para lembrar d’Ornitorrinco (Crítica à razão dualista; O ornitorrinco). O texto do saudoso sociólogo Francisco de Oliveira puxou a conversa para o fundo público, o lugar onde a apropriação de fato acontece, à vista, na montagem do orçamento, nas renúncias que todos tratam como normais, na dívida que rende e nos contratos sob medida. É assim que o dinheiro de todos vira posse de poucos sem sair da lei.
Juntemos Chico a Marx, no 18 Brumário de Luís Bonaparte, e assistimos ao outro lado do mesmo movimento: como o interesse privado retorna vestido de Estado, se transforma em cargo, norma, orçamento, e se faz passar por interesse geral. Um diz onde a captura mora no Brasil, o outro diz como ela se disfarça de coisa pública. A lei separa o dinheiro sujo do limpo. O país vive na zona cínica onde o que mais corrói circula tranquilo e dentro da regra.
A modernização brasileira deu método à rapina. Fez dela renúncia concedida no Diário Oficial, contrato homologado por quem de direito, e o dinheiro saiu do Estado com cara de política responsável. O Estado que devia arbitrar entre as classes opera como passagem de mão única, do dinheiro de todos para o bolso de poucos. O flagrante só pega o afobado que cortou pelo atalho ilegal de uma vantagem que os espertos recebem pela porta da frente. A corrupção que vira manchete é a fração que escapou da forma. O discurso que persegue uma segura a outra. Funciona como freio, trava o que poderia desfazer a captura e deixa o país onde está.
A pergunta sobre quem está por trás não termina nunca. Atrás do banqueiro preso há sempre um sócio mais discreto, atrás dele um nome mais protegido, e a investigação desce degrau por degrau sem encostar no fundo. O que captura o país é a porta legal entre o capital privado e o dinheiro público, e a fila de quem espera a vez de atravessar. O banqueiro do Master atravessou correndo e tropeçou. Quem atravessa com calma quase nunca aparece na operação, não comete crime nenhum, ocupa um lugar que a própria lei oferece e ainda posa de limpo.
Recusar a corrupção como tema único é mudar de terreno sem abandonar a briga. A pergunta que desloca a disputa já existe e tem resposta. Quanto o Estado paga de juro a quem carrega a dívida? Que setores vivem de incentivo eterno e ainda chamam escola e posto de saúde de gasto? Nesse terreno, a esquerda joga em casa, tem o que propor, enquanto o outro lado tem o que esconder. Cada hora gasta provando quem é mais honesto é uma hora roubada desse debate, e roubar esse debate é o serviço que o moralismo presta.
A classe média entra nisso com gosto. É a torcida organizada da limpeza alheia, bate panela contra o corrupto e sai na foto como quem salva a república, defende a ordem que a sustenta e jura que está limpando o país. Limpa nada. Segura de pé o arranjo que lhe garante um lugar ao sol e empurra a conta para baixo, para quem fica sem a escola que não foi construída e o hospital que não abriu. A raiva dela tem endereço fixo, o ladrão de gravata fácil de odiar, e nunca chega no que embolsa a renúncia bilionária com cara de empresário sério.
A eleição de 2026 caminha para virar isso, mais uma rodada de quem rouba mais. O caso Master podia abrir a conversa sobre banco, Estado e dinheiro público, e vai acabar como espetáculo moral, cada lado apontando o dedo para o outro. Se a esquerda entrar no jogo, perde duas vezes; julgada pela régua que ela mesma forjou e ainda servindo de lenha para manter o país parado.
A pergunta que decide a eleição não é quem roubou mais. É por que o Brasil continua arrumado para que poucos fiquem, dentro da lei, com o que devia sustentar todos.
(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é Diretor de Relações de Trabalho do Sindserv – SBC, bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.
O post A corrupção como álibi apareceu primeiro em Opera Mundi.