Há dez anos, quase um em cada dez alunos do primeiro ano do ensino médio simplesmente desaparecia das salas de aula brasileiras. Em 2015, a taxa de abandono nessa etapa era de 8,7%, atingindo justamente os filhos da classe trabalhadora, empurrados pela necessidade de renda e por uma escola que não lhes dizia nada. Os dados da segunda etapa do Censo Escolar 2025, divulgados pelo Inep nesta sexta-feira (26), mostram que esse número desabou para 2,2%, o menor da série histórica. De 2024 para 2025, a queda foi de 40%.
O que os números revelam é o resultado concreto de um conjunto articulado de políticas públicas que voltaram a tratar a educação como prioridade orçamentária e estratégica. O carro-chefe é o Pé-de-Meia, programa de poupança e incentivo financeiro que já alcançou 7,2 milhões de jovens de baixa renda e alterou a equação perversa que obrigava o adolescente a escolher entre estudar e ajudar no sustento da casa.
Pé-de-Meia
A mecânica do programa é simples na forma e transformadora no efeito: R$ 200 na matrícula, R$ 1.800 anuais condicionados a 80% de frequência e R$ 1.000 por série concluída, depositados em poupança cujo saque só ocorre ao fim do ensino médio. Ao todo, até R$ 9.200 por estudante. “É o programa educacional mais importante da última década e um dos mais relevantes das últimas duas décadas por enfrentar a desigualdade de oportunidades”, define o ministro da Educação, Leonardo Barchini, ao comentar os resultados. “O jovem mais vulnerável precisa ter as mesmas chances de concluir os estudos que qualquer outro estudante. O Pé-de-Meia não é apenas uma transferência de renda. É uma política educacional para melhorar a permanência e o desempenho.”
A distinção é central. O programa não é assistencialismo compensatório — é intervenção estrutural sobre um dos mecanismos mais eficazes de reprodução da desigualdade brasileira: a evasão escolar precoce dos mais pobres. Ao criar um colchão financeiro que permite ao jovem permanecer na escola, o Estado ataca a raiz material do problema, não apenas seus sintomas.
Resultados que formam um sistema
O abandono escolar é a face mais visível de uma transformação mais ampla. Entre 2022 e 2025, a reprovação no ensino médio público caiu 62%, a distorção idade-série recuou 28% e a taxa de aprovação subiu 11%. No mesmo período, as inscrições no Enem feitas por concluintes da rede pública cresceram 46%. A taxa de não retorno ao ensino médio — indicador inédito calculado pelo Inep — caiu 28%. “Se esse indicador tivesse permanecido no nível de 2022, o Brasil teria, em 2025, quase 250 mil estudantes a menos no ensino médio”, explica Manuel Palacios, presidente do Inep.
A Pnad Contínua Educação 2025, do IBGE, confirma a tendência: a frequência escolar líquida entre jovens de 15 a 17 anos saltou de 76,8% para 80,6% em um ano, recorde da série iniciada em 2016. A proporção de jovens dessa faixa fora do ensino médio caiu de 23,2% para 19,4%. Para efeito de comparação, entre 2019 e 2022 a queda havia sido de apenas 2,7 pontos percentuais em quatro anos — agora, foram 3,8 pontos em um ano só.
Esses avanços não se explicam por uma única política, mas por uma arquitetura integrada que articulou diferentes frentes. A educação em tempo integral, que parecia uma meta inalcançável do Plano Nacional de Educação, atingiu 25,8% das matrículas da rede pública em 2025 — eram 15,1% em 2021. São 8,8 milhões de estudantes com jornada estendida, mais tempo de aprendizagem, mais proteção social, mais vínculo com a comunidade escolar.
A Estratégia Nacional de Escolas Conectadas levou internet pedagógica a 100 mil escolas, 43,7% a mais que em 2023, alcançando 24 milhões de alunos. O Compromisso Nacional Criança Alfabetizada elevou a alfabetização infantil de 36% para 66% entre 2021 e 2025, construindo alicerces mais sólidos para toda a trajetória escolar futura.
(Com informações do MEC)