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“O sistema é muito mais frágil do que pensamos”, defende Clara Mattei, economista italiana

Professora de Economia na The University of Tulsa, nos Estados Unidos, e presidente do FREE, Forum for Real Economic Emancipation, a economista italiana Clara E. Mattei lê o capitalismo a partir de suas engrenagens mais concretas.

Dívida, juros altos, trabalho, austeridade, privatização dos serviços e perda de autonomia aparecem, em sua análise, como partes de uma mesma arquitetura econômica. “Ele não está quebrado. Ele foi feito para nos quebrar”, afirma, ao falar de um sistema que, segundo ela, transforma necessidades básicas em mercadorias e empurra trabalhadores para uma dependência cada vez maior do mercado.

Autora de A Ordem do Capital: Como Economistas Inventaram a Austeridade e Pavimentaram o Caminho para o Fascismo, publicado no Brasil pela Boitempo, Mattei prepara o lançamento brasileiro de Como Escapar do Capitalismo.

No novo livro, ela trata dos lucros extremos do capital, da dívida, dos juros, da jornada de trabalho e das formas possíveis de emancipação econômica. A conversa com a Focus Brasil, conduzida por Fernanda Otero, parte dessa discussão, mas encontra no Brasil um de seus pontos mais vivos. Para Mattei, o país oferece experiências concretas de organização popular, economia solidária e disputa democrática que ajudam a pensar saídas para além da lógica da austeridade.

O MST ocupa lugar central nessa leitura. A economista cita o movimento como exemplo de invenção coletiva diante da miséria, da desigualdade e da mercantilização da vida. “O MST é realmente inspirador”, diz.

Ao falar de famílias camponesas pobres que criam “formas criativas de garantir uma vida digna e muito mais ecológica”, Mattei aproxima teoria econômica, território, trabalho e organização popular. O Brasil, afirma, tem “uma tradição muito, muito longa de movimentos muito corajosos”, radicais no sentido de enfrentar a raiz dos problemas.

A entrevista também passa pelos juros altos, pelo endividamento das famílias, pela redução da jornada de trabalho, pela ascensão da extrema direita, pelo Sul Global, pela crítica aos termos “Terceiro Mundo” e “subdesenvolvimento”, pela experiência do Fórum pela Emancipação Econômica Real e pela necessidade de construir instituições de base.

Para Mattei, enfrentar a austeridade exige pressão popular organizada, porque nem mesmo governos de esquerda escapam, por vontade própria, das amarras de uma economia estruturada para proteger o capital.

Leia abaixo a entrevista completa.

Qual é o argumento central do seu último livro, Como Escapar do Capitalismo?

O argumento central é revelar do que o capitalismo realmente se trata: dizer que o que estamos presenciando hoje, uma violência política e econômica extrema, claro, desde a eliminação em curso de toda uma população em Gaza, no Líbano, todas as guerras e os genocídios, os desastres, a desigualdade gritante, nunca tão alta na história da humanidade. Tudo isso não é uma exceção. Quero mostrar como isso se manifesta como tendência e característica intrínseca da nossa economia capitalista. Ou seja, isso não é corrupção, não é uma ruptura causada por alguma forma excepcional de má gestão do capitalismo. Quero dizer o contrário: é assim que o capitalismo é, e, atualmente, estamos apenas vendo a sua natureza crua.

Em uma citação de seu livro, podemos ler: “Nossa maquinaria econômica está estruturada não para atender às necessidades das pessoas comuns, mas para aumentar os lucros dos detentores de capital. As políticas econômicas servem a essas prioridades”. Seu livro coloca o rentismo no centro do capitalismo contemporâneo. O que é esse rentismo, especialmente diante do que aconteceu recentemente, com Elon Musk se o tornando trilionário e, na semana seguinte, perdendo essa posição?

Sim, temos o primeiro trilionário do planeta, mas o fato é que temos 500 pessoas que acumularam mais de US$ 2 trilhões nos últimos anos, enquanto temos, literalmente, mais de 2 bilhões de pessoas em insegurança alimentar e quase 1 bilhão passando fome de verdade. Então, isso é, mais uma vez, uma manifestação muito visível de que esse sistema econômico é irracional.

Mas quero enfatizar: é irracional à lógica da necessidade, a lógica que nos interessa para satisfazer o nosso bem-estar enquanto pessoas, mas é muito lógico, muito racional à lógica do lucro. E essa é toda a questão: não nos perdermos, porque é possível entender o capitalismo como um instrumento; nosso sistema econômico, os mercados, são instrumentos de acumulação de capital, e isso é muito importante.

Então, no meu trabalho, eu realmente tento conectar o que são, hoje, os lucros extremos do capital financeiro, que, na verdade, têm a ver, sobretudo, com a extração de renda. Ou seja: você possui alguns ativos e lucra literalmente colocando outras pessoas em dívida. Essa é a armadilha da dívida, muito característica da economia de hoje. Acabei de fazer uma entrevista muito boa no canal do YouTube do nosso Fórum pela Emancipação Econômica com a Lena Lavinas, que é brasileira e discute exatamente esse ponto. Hoje, 80% das famílias brasileiras estão endividadas. E isso é ruim para as pessoas, mas é vital. É o combustível vital desse capital financeiro e dessa renda. Por quê? Porque, se não houver ninguém disposto a tomar dinheiro emprestado, não haverá dinheiro a ser emprestado.

E essas taxas de juros muito altas são basicamente o que os donos desses ativos obtêm ao emprestar seu dinheiro. Eles não conseguiriam continuar extraindo renda. Agora, o que é importante é o fato de que essa financeirização excessiva hoje toma conta de todos os aspectos do nosso sistema econômico: moradia, escolas, transporte. À medida que o Estado aplica austeridade no mundo todo, trata-se de privatizar esses serviços, que então se tornam ativos através dos quais se pode extrair mais renda. Basicamente, você se beneficia ao acumular bens de que as pessoas precisam e fazer com que elas paguem por eles, em vez de permitir que as pessoas tenham acesso a eles para sua subsistência. Por isso, é muito importante perceber que o endividamento das pessoas, o endividamento da classe trabalhadora, decorre do fato de que as pessoas ganham salários muito baixos e os serviços são muito caros. Assim, a única forma de acessar serviços básicos hoje é aumentar a dívida pessoal.

Então a dívida privada, que vem disparando ultimamente, está muito ligada à dívida pública, que também está crescendo. E o que quero enfatizar é que a dívida pública e a dívida privada estão entrelaçadas, porque o Estado constantemente reduz o risco do capital privado. Isso é muito importante: sob o regime de austeridade, não há recuo do Estado. O Estado não se retira nem deixa o mercado por conta própria, não existe mercado sem o Estado. O papel do Estado é, na verdade, subsidiar, proteger e efetivamente reduzir o risco do capital privado, especialmente o financeiro e dos grandes sistemas bancários. Hoje temos 30 milhões de dólares por hora sendo retirados do Sul Global para financiar investidores internacionais.

Então existe esse aspecto. Mas quero enfatizar, na sua pergunta, que o que eu realmente quero mostrar é que o capital financeiro não é separável do capital de forma mais ampla, nem do chamado capital produtivo. Meu livro não pretende dizer que o capital financeiro é ruim e que, se apenas voltássemos a um capital mais produtivo, tudo estaria bem. O que quero enfatizar é como o chamado capital industrial, produtivo, esteve, desde o seu início, conectado ao capital financeiro, como os dois cresceram juntos, portanto, a busca por renda é parte integrante da própria acumulação de capital; não é um desvio, eles andam juntos. Estamos agora em uma fase muito extrema de financeirização, mas essa é uma tendência que é, na verdade, constitutiva do próprio capitalismo.

Então, o que precisamos entender é que essa busca por renda se baseia na exploração, isso é muito importante, porque não é apenas uma questão do capital financeiro. O capital financeiro se apoia na acumulação de capital de forma mais ampla, que se baseia na exploração do trabalho, e, quando digo exploração do trabalho, refiro-me ao fato de que todos os trabalhadores, por definição, produzem mais valor para seus empregadores; mesmo aqueles que têm um bom emprego (que têm muita sorte e que já são muito poucos hoje), mesmo os que ganham bem ainda estão produzindo mais valor para seus empregadores do que o valor que levam para casa no contracheque no fim do mês. Por isso, é muito importante não nos deixarmos hipnotizar pela ideia de que “é a maçã podre”.

Não é que a financeirização, sozinha, seja o problema. A financeirização é, sem dúvida, um problema, mas precisa ser entendida como conectada, primeiro, à constante intervenção do Estado e, segundo, ao chamado capital produtivo, bem como à própria forma como a nossa economia cresce. Nossa economia cresce por causa dessa relação profundamente injusta entre os trabalhadores e os donos do capital, que agora, claro, em vez de investir, recompram suas próprias ações. Mas são esses capitalistas que vêm explorando o trabalho, e é esse valor excedente que está em circulação, esse é o dinheiro. No fim das contas, o dinheiro nas mãos dos grandes bancos vem da exploração do trabalho.

Usando a sua explicação, você poderia nos dar três breves prioridades de política pública que você recomendaria para o Brasil nos próximos dois a quatro anos?

Essa é grande. É muito importante deixar claro que o que estamos vendo hoje, também no Brasil — níveis muito altos de desigualdade, desemprego elevado e juros elevados. Vocês têm as taxas de juros mais altas do mundo; estavam em torno de 15%.

E em um momento em que o desemprego está muito baixo. É um recorde; no nosso caso, estamos vivendo o menor nível de desemprego.

Isso é exatamente, de certo modo, o que a minha pesquisa tenta abordar. No meu livro Como Escapar do Capitalismo, há um capítulo sobre a relação entre a inflação e o emprego. Dizem que o que está acontecendo é a meta de inflação, mas o mais importante para a nossa economia capitalista é a meta de taxa de exploração. Deixe-me tentar explicar: quando os juros sobem, o que isso significa para o mercado de trabalho é que o mercado de trabalho perde, certo?

As pessoas encontram menos empregos, há menos investimento e, portanto, menos oportunidades de trabalho, e como as pessoas são dependentes do mercado – e este é um ponto muito importante ao qual gostaria de voltar, a dependência do mercado é a verdadeira armadilha do capitalismo: é aí que o meu livro Como Escapar do Capitalismo se apoia na tradição marxista, que escreveu muito sobre isso. O que torna o capitalismo único em relação a outros sistemas é essa dependência do mercado. O que isso significa? Significa que você precisa de dinheiro no bolso para comprar as coisas que lhe permitem existir. É o que as economistas feministas chamam de reprodução social. A reprodução social do trabalho depende de termos dinheiro para, de fato, comprar os nossos meios de sobrevivência.

Ora, isso significa a perda da autossuficiência. E é essa perda da autossuficiência que garante a exploração sob o capitalismo, porque ficamos sem alternativas. Uma vez que se privatizam os nossos meios de subsistência, as pessoas são forçadas a trabalhar, e é isso que importa: é a compulsão econômica. É diferente do que acontecia nos tempos feudais, quando era muito óbvio que você estava sendo explorado, porque era algo muito político. Pense nas sociedades escravistas — inclusive no Brasil. Era óbvio que o escravizado estava sendo explorado pelo senhor de escravos; se o escravizado tentasse fugir, se metia em apuros. Sob o capitalismo, isso já não é óbvio, porque existe uma fachada e uma aparência de igualdade e liberdade no nível do mercado, já que você pode escolher para quem trabalhar.

Mas, se você olha mais a fundo, percebe que, na verdade, tem ainda menos escolha, porque, se você não trabalha, você morre, e essa é a dependência do mercado que está constantemente em ação. O que o aumento dos juros faz é nos manter mais dependentes do mercado, e se você pensar no fato de que as pessoas agora se endividam — como discuti com a Lena na nossa entrevista —, isso é ainda melhor para o sistema, porque nos torna trabalhadores ainda mais disciplinados. Porque, se não trabalhamos, não conseguimos nem pagar a nossa dívida, damos calote, podemos ir para a prisão, é um verdadeiro desastre. Então, toda a questão é que o aumento dos juros mantém muito alta a nossa precariedade — a nossa sensação de incerteza e a nossa disposição para aceitar qualquer emprego —, porque o desemprego sobe. E assim ficamos em competição com outros trabalhadores e somos substituíveis.

E essa substituibilidade é exatamente a chave para manter a dominação de classe sob o capitalismo: somos substituíveis. Assim, quanto maior a taxa de desemprego, melhor para o capitalismo, isso é muito importante, porque eu mostro que a austeridade monetária — que vem, sobretudo, do aumento dos juros, tornando o dinheiro mais caro — é, claro, ótima para os bancos, ótima para os credores, que ficam obscenamente ricos sem fazer nada (extraindo renda), enquanto todos os demais têm que aceitar taxas mais altas de exploração se quiserem sobreviver.

Além disso, os juros altos afetam os gastos sociais, pois tomar empréstimos também fica caro para os governos. Assim, os governos têm que limitar seus gastos e, com isso, abrir as portas para a privatização. E o ciclo continua em favor da acumulação de capital. Então, o que eu gostaria de enfatizar, em termos de políticas, é que a coragem dos governos, hoje, está em dizer: precisamos operar contra a lógica da acumulação de capital, reproduzindo as pessoas em espaços de maior independência em relação ao mercado.

E como isso acontece? Fazendo o oposto das medidas de austeridade. Por exemplo, de fato, oferecer alguns serviços, isso é importante: com a Lena, novamente, estávamos discutindo como as transferências de renda — em muitos dos programas de combate à pobreza, também no Brasil — chegam às pessoas em forma de dinheiro. Acho que mais de dois terços das medidas de bem-estar social no Brasil são, na verdade, dinheiro que os pobres recebem. Isso soa bem, mas o que realmente acontece aqui é que você aumenta o número de clientes para os bancos, porque as pessoas então abrem contas. E esse dinheiro não é suficiente, então elas se endividam, ou seja, isso reforça a dependência do mercado. O que precisamos fazer não é apenas dar dinheiro às pessoas; são serviços sociais — ou seja, moradia, escola e transporte não podem ser mercadorias.

E isso significa, de fato, abrir espaços de autonomia em relação ao mercado, o que significa menos disciplina e mais criatividade para formas de produção que não sejam exploratórias. Essa, acho, é uma questão muito importante. Mas quero enfatizar que isso não vai acontecer do nada. Só vai acontecer por meio de pressão vinda de baixo, porque o Estado capitalista — inclusive a esquerda — vem impondo austeridade, pois é isso que o capitalismo exige.

Então vou encerrar dizendo o que realmente tento dizer no livro Como Escapar do Capitalismo: a austeridade não é apenas uma má política, a austeridade não é irracional. Esse é um ponto de vista muito ingênuo e simplista, pois nos engana, levando-nos a pensar que é possível ter capitalismo sem austeridade. Quero provar, por meio da minha pesquisa, que, se você quer capitalismo, tem que ter austeridade.

ESe os governos querem ir além da austeridade e realmente começar a oferecer serviços, em vez de cortar, privatizar, reduzir salários e aumentar os juros, eles precisam confrontar a forma como a produção acontece e repensar as próprias dinâmicas de poder que sustentam a nossa economia. E isso exige pressão vinda de baixo, não vai acontecer nem mesmo com a esquerda no governo. Também no Brasil, como sabemos, temos visto muita austeridade ultimamente. E isso não se deve apenas ao fato de que as pessoas no governo, como o Lula, sejam ruins; não, não se trata de serem pessoas boas ou ruins, trata-se da lógica da nossa economia capitalista. Então, para que os governos possam de fato ser corajosos e enfrentá-la, é preciso que haja pressão vinda das pessoas comuns, das associações, dos movimentos que empurram esses governos a serem um pouco mais corajosos.

Você acabou de mencionar o confronto e os movimentos de base. Do seu livro, temos a citação: “Queremos entender o papel desempenhado pelas diferentes classes na construção do sistema do qual elas são, ao mesmo tempo, autoras e prisioneiras.” Estamos em um momento, no Brasil, em que lutamos para reduzir a jornada de trabalho para 40 horas semanais. Essa é a luta do momento no Brasil. E, de acordo com essa citação sobre as diferentes classes, você diz que elas são as duas coisas. Onde devemos olhar para ver essa dinâmica em ação, para além dos líderes individuais? Porque as pessoas estão meio que hipnotizadas pela ideia de serem empreendedoras e de não precisarem lutar por seus direitos. E também há o debate sobre os mercados livres e sobre não regulá-los de jeito nenhum, para que todos possam trabalhar, como está acontecendo na Argentina. Então, como podemos ter esse debate de forma profunda na sociedade?

Esse é realmente o ponto central: aceitamos o nosso papel de consumidores passivos e, eu diria, de supostos empreendedores. Existe a ideia de que todos nós queremos ser empreendedores, e isso acontece porque as ideias que vêm dos economistas são muito poderosas — poderosas, basicamente, para esconder o que importa: o fato de que o valor não vem apenas das virtudes de poupar e investir dos empreendedores individuais. O valor vem dos trabalhadores e da exploração, e, portanto, toda essa ideia de que não existem classes, apenas indivíduos, é, claro, a melhor forma de manter a nossa ordem econômica sem contestação. O que precisa acontecer, acho eu, é uma solidariedade real na base, que compreenda que as lutas econômicas — como reduzir a jornada de trabalho — são, no fim das contas, lutas políticas, porque a exploração se baseia justamente em nos tirar o nosso tempo.

Roubar o nosso tempo, o tempo de trabalho não pago, é o núcleo da nossa economia capitalista, então, roubar o nosso tempo é, na verdade, aquilo em que toda a economia se assenta. Por isso, precisamos entender que essa não é apenas uma questão econômica; ela vai, na verdade, à raiz da relação política de produção: quem decide por nós o que fazemos e como fazemos, e isso vale também para trabalhadores bem pagos que, por exemplo, trabalham hoje no Google. Sabemos que o Google subsidia o exército israelense com toda a IA, e é responsável por, e parte da extração ecológica que está devastando sociedades indígenas, está tudo conectado, por isso precisamos retomar a soberania.

E acho importante começar por uma campanha como a que você sugere, porque é muito tangível, muito concreta, mas também muito profunda — porque, se você quer mesmo enfrentar o problema da jornada de trabalho, precisa dizer: não queremos, como horizonte da nossa sociedade, mais trabalho produtivo nem mais excedente. Não, não nos importamos com o valor. Não nos importamos com a nossa submissão ao valor como uma entidade abstrata que só beneficia poucos. Queremos retomar os nossos meios de vida. Então é algo muito, muito concreto. Por isso, acho que o importante é tentar conectar esses movimentos para além dos sindicatos. Os sindicatos não são suficientes neste momento, precisamos ser capazes de nos conectar com as bases.

E, sabe, em Tulsa, nós criamos esse Fórum pela Emancipação Econômica, que é, na verdade, um modelo baseado em assembleias. Eu me inspirei a criá-lo, junto com muitos outros cidadãos em Tulsa, também por causa das lutas que estudei e que vêm acontecendo no Brasil. O Brasil é um espaço e um terreno extremamente fértil para movimentos horizontais, baseados em assembleias, que alcançaram muito sucesso. A questão é como fortalecer todos esses movimentos de base, o Movimento Contra as Barragens, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra — todos os grandes movimentos no Brasil compartilham uma compreensão comum de que se trata de retomar a humanidade sobre a economia. Por isso, precisamos unir esses grupos e deixar claro que você pode tentar mediar com o capital, mas, no fim das contas, o capital será o seu inimigo.

Precisamos repensar as prioridades da nossa economia, e isso você pode fazer de forma muito concreta. Para dar um exemplo, Tulsa fica no sul dos Estados Unidos, é um lugar muito, muito desigual, fortemente segregado racialmente, o centro de toda a extração nos EUA por muitos e muitos anos. Então todas as contradições estão ali, inclusive as terras de reserva. Aquela era, na verdade, terra que supostamente pertence aos povos originários e que continua privatizada por empresas privadas. Diante de tudo isso, conseguimos ajudar com uma campanha de orçamento participativo que agora está, de fato, se espalhando. O orçamento participativo foi inventado no Brasil, então o Brasil tem uma tradição muito, muito longa de movimentos muito corajosos, que foram radicais no sentido verdadeiro da palavra.

O que eu quero dizer é: vamos tentar unir o maior número possível de pessoas em uma causa comum, porque, neste momento, não há mais tempo a perder. Sabemos que as pessoas se distraem, e sabemos que a América Latina está agora sendo tomada pela extrema direita, e isso prova o quão espertos e inteligentes são os protetores do capitalismo. Mas quero encerrar dizendo: o sistema é muito mais frágil do que pensamos. O que eu provo no meu trabalho — o meu trabalho histórico sobre as origens da austeridade e do fascismo — é que não há nada de espontâneo no sistema, nada de natural. Eles querem nos fazer pensar que o capitalismo é natural, que é simplesmente quem nós somos. Não. O que se vê é que há um esforço permanente por parte das elites governantes, dos Estados, das instituições econômicas, dos bancos centrais, para proteger a ordem do capital. E você precisa se esforçar nisso constantemente, porque as pessoas, naturalmente, se levantam e querem mudar as coisas. Então a questão é que a construção está do lado daqueles que querem preservar o sistema. Isso significa que há muito mais força se nos unirmos, porque um sistema pode ser desmontado, desde que haja um contrapoder organizado.

Professora, você pode nos contar um pouco sobre o seu Fórum pela Emancipação Econômica Real? Do que se trata e qual é a intenção dessa iniciativa?

Com certeza, também temos um canal no YouTube. O que tentamos fazer é unir a educação pública, a política e a cultura. Então, claro, com inspiração em Antonio Gramsci e em muitos outros, para dizer que o conhecimento pode ser libertador. O conhecimento que circula, em sua maior parte, não é — é, em grande medida, propaganda para nos tirar poder —, mas o conhecimento é a semente do empoderamento, da emancipação e da reconquista da nossa humanidade. Então o conhecimento precisa andar junto com a experimentação concreta de novas instituições. Sabemos que o Estado capitalista é estruturalmente cooptado pela economia capitalista, e que a economia precisa do Estado para protegê-la, por isso não podemos pensar que, se elegermos pessoas, essas pessoas farão o que precisa ser feito para mudar as coisas. Precisamos repensar as instituições que nos governam.

As constituições liberais, as constituições que estruturam os Estados modernos, como os Estados Unidos, têm o propósito de proteger a propriedade e a elite. Elas se basearam na exclusão, na proteção das elites e em um distanciamento estrutural entre os que são eleitos e o suposto povo que deveriam representar. O Fórum também está construindo uma instituição horizontal inédita, capaz de dialogar com o governo e dizer: vocês precisam fazer mais, vocês precisam fazer mais. Existe esse elemento de tentar dizer aos governos de fato, por meio de um grupo constituinte organizado, que eles precisam fazer mais. Eu disse que, com o orçamento participativo, o prefeito de Tulsa, que nunca tinha ouvido falar do termo antes, está agora, de fato, iniciando um processo, depois que realizamos um evento bastante sério e, em seguida, uma campanha.

Vamos ver no que vai dar, mas é por meio de um grupo organizado que esse tipo de coisa pode continuar. E então, claro, há todas essas formas pelas quais podemos romper com a dependência do mercado. É claro que temos que pedir ao Estado que oferte bens, mas também podemos fazer isso do nosso próprio lado — podemos ser criativos para encontrar caminhos. E isso é o que se aprende com o MST. O MST é realmente inspirador, porque são famílias camponesas pobres, que estavam na miséria, e que inventam suas próprias formas criativas de garantir uma vida digna e muito mais ecológica. Nesse sentido, quero mencionar essa maravilhosa Terra Vista, que fica perto de São Paulo e tem sido uma fonte de inspiração muito interessante para mim, pois é um espaço que foi um lixão, é um espaço ao lado de onde a água foi privatizada e está sendo vendida como mercadoria — enquanto as pessoas não têm dinheiro para comprar água. Eles reocuparam a terra e ainda não estão regularizados, mas, como acampamento, regeneraram o próprio bem-estar e o bem-estar da natureza: as duas coisas andam juntas, por isso é importante que consideremos esse projeto.

Eu sei que você também quer me perguntar sobre uma instituição que tenho em mente, já que me encontrei com o organizador de um grupo chamado Antropofagia. É uma companhia de teatro autogerida, também baseada na democracia horizontal, que trabalha com a Terra Vista para promover, de modo semelhante ao Fórum, um conhecimento capaz de impulsionar a nossa consciência e a nossa percepção do quão poderosos somos, fazendo isso também por meio da arte, do teatro e de formas de comunicação que vão além dos livros. E isso, eu acho, é muito importante.

Tenho uma pergunta que não tem relação com o seu livro, mas que vem da sua experiência, porque me incomoda muito quando vejo economistas e pessoas usando a expressão “países de Terceiro Mundo” ou “países subdesenvolvidos”. Existe alguma perspectiva, no futuro, de os economistas pararem de usar isso? Porque acho que ainda é tão agressivo. Se temos esses termos, onde está o segundo mundo? Onde está o primeiro? Como você vê essa forma acadêmica de repetir a história para fazê-la se tornar verdade? Existe alguma maneira de mudar essa mentalidade por dentro? Esse é, claro, o trabalho que você está fazendo, mas o que você pensa sobre essas expressões, professora?

Uma nota histórica: “Terceiro Mundo” foi, originalmente, uma expressão usada pelos países do Sul Global para dizer que não estávamos alinhados nem com os EUA nem com o bloco soviético. Então, originalmente, ela carregava, na verdade, uma ideia muito potente: a de que somos autônomos e queremos construir o nosso próprio futuro, independentemente do colonialismo, do imperialismo e da extração. Isso está, claro, bem no centro de como o crescimento econômico funciona sob o capitalismo, então, esse é um ponto. Agora, a questão é que os economistas, em vez disso, analisam o subdesenvolvimento do Sul Global através de uma lente que é, por assim dizer, extremamente racista e enviesada. Meu livro realmente tenta mostrar o quão terrivelmente classista e equivocada é essa perspectiva, pois eles tentam dizer que os países do Sul Global só terão sucesso se adotarem as políticas “corretas” do Norte Global, como a austeridade.

Bastaria que desregulassem mais, deixassem o capital financeiro crescer mais, tornassem o trabalho mais precário e cortassem salários, e estariam no caminho do desenvolvimento. E esse seria, supostamente, um caminho linear que todos podem percorrer, e, se ainda não chegaram lá, é porque são deficientes, é muito assustador. Eu até tive uma conversa com o famoso Nobel James Robinson, em um programa nos Estados Unidos chamado The Jon Stewart Show. Robinson tem o Prêmio Nobel, e toda a história dele é, na verdade, que as instituições em países como a Colômbia, ou seja lá qual for — Sudão, qualquer um — são deficientes e corruptas, e que essa corrupção, de algum modo, não existe porque a corrupção é aquilo de que o capital precisa, mas porque é o problema daquelas sociedades. E que, bastaria que se conformassem, bastaria que aceitassem o Estado de direito, e se sairiam muito melhor.

É claro que isso é um absurdo. Hoje sabemos que não existe isso de Estado de direito — nunca existiu. E com Trump no poder, sequestrando Maduro e matando centenas de milhares de pessoas no Oriente Médio, sabemos que é tudo uma farsa, mas os economistas ainda estão convencidos de que essa é a história. Ora, o que mostro no livro é o oposto. Ou seja: temos crescimento e riqueza nos EUA e na Europa — para muito poucas pessoas, aliás, porque os EUA e a Europa também são muito desiguais. Nos EUA, o 1% do topo possui mais do que os 90% da base da população, ou seja, ainda muito desigual. Essa riqueza vem do subdesenvolvimento ativo do Sul Global. Logo, não haveria desenvolvimento sem subdesenvolvimento, percebe?

Ou seja, você não teria a riqueza que acumulamos em poucas mãos se não tivesse havido, desde as origens do sistema, o colonialismo — que agora se transformou em neocolonialismo e, neste momento, em um imperialismo ainda mais explícito e na extração de todas as terras raras e minerais ligados à IA, e assim por diante. Não haveria pobreza sem riqueza, nem riqueza sem pobreza — a pobreza tal como a conhecemos: miséria, dependência do mercado. Literalmente no Afeganistão, onde, aliás, agora, os refugiados afegãos serão proibidos de permanecer nos Estados Unidos, com pais tendo que vender os próprios filhos para alimentar os outros filhos. É assim que o capitalismo é: desespero, miséria, indigência, e é essa toda a questão. O que eu faço é mostrar como a relação entre Israel e a Palestina espelha exatamente isso: os territórios palestinos são apenas uma versão em miniatura — como uma lente de aumento — do que acontece, de forma mais ampla, entre o Sul e o Norte. Os territórios palestinos são tornados dependentes da economia israelense, e essa dependência é aprofundada cada vez mais, à medida que a elite corporativa em Israel se beneficia, é claro, do subdesenvolvimento deles.

Por isso precisamos mudar completamente a nossa perspectiva. O que a China fez é muito inspirador. A China foi colonizada; era do Sul Global. Agora, a China afirmou o seu poder econômico — claro, com todos os limites de ter que competir em uma economia capitalista global. Estive na China há algumas semanas, e é impressionante como eles conseguiram colocar certas necessidades à frente do lucro, de um modo que, para mim, foi inesperado.

Temos a tendência de ver os economistas como pessoas capazes de prever o futuro, como se tivessem algum poder especial para enxergar o que vem a seguir. Sob essa ótica, o que você espera do futuro? Você é otimista? Como você se sente em relação ao futuro?

A famosa formulação “pessimismo da inteligência, otimismo da vontade” é muito importante. A ideia de que não podemos idealizar o sistema, nem nos esconder atrás da ideologia, mas temos que analisar a realidade, e a realidade é terrível. Não acho que alguma vez tenha sido tão ruim na história da humanidade, e precisamos reconhecer isso e explicá-lo indo às raízes mais profundas. E é isso que o meu trabalho tenta contribuir: essa explicação pelas raízes mais profundas é, na verdade, muito libertadora, porque o que se vê é que, se entendemos profundamente o que está acontecendo, também entendemos como o sistema foi feito para nos quebrar. Ele não está quebrado — ele foi feito para nos quebrar. E, portanto, o que precisamos fazer é, na verdade, quebrar o sistema.

E isso pode ser feito unindo-nos a pessoas que têm exatamente as mesmas necessidades que nós, e essa é a maioria da população. Então, as pessoas que votam no Bolsonaro, que votam em toda a direita, têm uma necessidade desesperada de uma perspectiva emancipatória que nós temos que levar até elas. Não podemos deixar apenas para os cristãos evangélicos e para a extrema direita falar com as pessoas, precisamos ir e construir instituições alternativas na base. E é isso que o Fórum está tentando fazer. O Fórum também está abrindo núcleos em diferentes partes do mundo, começamos em Tulsa. Agora temos uma assembleia que começou em Turim, onde Gramsci costumava atuar, e outra em Zurique. Estamos esperançosos, talvez, por alianças com movimentos que já existem no Brasil.

A questão é: vamos construir as nossas contra-instituições. É só dessa forma que podemos, de fato, evitar o colapso da sociedade. Então temos que agir agora. E é por isso que o genocídio na Palestina realmente acionou o alarme de forma muito, muito alta: porque, se continuarmos assim, é nisso que todos nós vamos acabar nos tornando. Não temos mais tempo e, por isso, precisamos nos organizar. E estou muito esperançosa, porque recebo muitas mensagens muito inspiradas de pessoas que ouvem entrevistas, leem livros e querem se organizar. Há um número enorme de pessoas que querem mudar as coisas, mas precisamos ser capazes de nos organizar de forma mais estruturada. Então, se você quiser ajudar na causa global, entre em contato.