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“Quando as paredes já não sustentam, a solidariedade é a coluna que fica”!

Foto: TeleSUR

Por Maria Silva*
Da Página do MST

O título deste texto é uma frase que tem ecoado nas nossas cabeças nesses últimos dias, a pouco mais de uma semana, desde que a Venezuela tremeu vigorosamente sob o peso de dois terremotos devastadores. O primeiro de 7.2 de magnitude e o segundo – 39 segundos depois – de 7.5, além das mais de 782 réplicas que o país vem suportando desde a última quarta-feira (24), segundo atualização de dados fornecida nesta quarta-feira (1), pelo presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez.

Sim, ainda há réplicas e elas seguem atravessando a terra e o corpo. A cada novo tremor, ou a cada notícia de novo tremor, por mais “leve” que seja, gela a espinha daqueles que experimentaram a “terra firme”, como diziam os navegadores marítimos, desaparecer por alguns segundos sob seus pés. Leio em alguns status de Instagram: “meu Deus, não mais réplicas, por favor, cuida do seu povo!”. É a súplica de quem precisa se fortalecer para fortalecer outros, é o pedido de quem passou momentos de horror junto aos seus.

Isso talvez seja uma coisa difícil de compreender para quem nunca vivenciou um terremoto. A maior parte dos brasileiros(as) não sabe o que é isso, nem nunca sentiu. É difícil explicar como aquilo em que você sempre confiou como firme, já pode não ser tanto assim. Difícil saber o que fazer quando a memória transforma qualquer vibração em ameaça e medo.

Foto: TeleSUR

Os números crescem a cada atualização: mortos, feridos, hospitalizados, desaparecidos, famílias inteiras desalojadas. Até o momento da escrita deste texto os números são de 2.295 mortos, 11.267 feridos, 17.026 pacientes que receberam atenção médica (dos quais, 13.942 já receberam alta) e mais de 12.841 pessoas desabrigadas.

Tragicamente, são números que seguirão crescendo à medida que as horas passam e as chances de sobreviventes parecem diminuir, mas não diminui a esperança de ainda encontrar vida. Não pode diminuir, nem a esperança e nem o trabalho. Ao contrário, reaviva quando vemos resgates como o da última segunda-feira (29), do jovem Aaron, de 21 anos, que ficou cerca de 106 horas numa profundidade de 17 metros embaixo dos escombros. Ou do menino Klieber, de 3 anos, resgatado na terça-feira (30), depois de seis dias embaixo dos escombros, ou ainda de Hernan, de 47 anos, um vigilante resgatado na manhã desta quinta-feira (02), depois de oito dias.

Ainda há vida em meio ao caos e ao luto.”

Bloqueios, sanções e o ataque do 3 de janeiro

Os terremotos encontraram uma Venezuela que enfrenta, há anos, dificuldades econômicas, políticas e sociais, fruto das inúmeras sanções e bloqueios unilaterais impostos ao país e que influencia na queda das receitas petrolíferas, com o limite na exportação e diminuição dos preços de venda do petróleo. Essas sanções também contribuem para um êxodo migratório de milhares de cidadãos venezuelanos, provocando uma disputa permanente da soberania do país pelos “de fora”, como se escuta algumas vezes por aqui, mas com a ajuda de alguns “de dentro”, o que impede a importação de insumos e peças-chaves para a manutenção de equipamentos e espaços fundamentais para o desenvolvimento do país.

E é justo nesse ponto que afeta diretamente a pronta resposta frente a desastres de tamanha proporção, já que alguns desses impedimentos de importação são as peças fundamentais de reposição para consertar equipamentos pesados de resgate, que simplesmente não podem chegar ao país.

Foto: TeleSUR

Não é surpresa que um dos países que impõe quase a totalidade das sanções e bloqueios contra a Venezuela é os Estados Unidos da América. Depois de anos de inúmeros assédios e ameaças, intensificados em 2025, com a chegada provocativa de porta-aviões estadunidenses próximos da costa marítima venezuelana e os assassinatos de pescadores em ataques a lanchas em águas internacionais do Mar do Caribe – com acusação não comprovada de transporte de narcóticos por estes pescadores –; o governo dos EUA invadiu e atacou letalmente o país latino-americano.

Na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026, a população venezuelana acordou ao som de mísseis, helicópteros e sirenes. Um verdadeiro cenário de guerra em alguns dos lugares atingidos pelo ataque, com muita fumaça, fogo e cheiro de pólvora. Numa operação militar que matou mais de cem pessoas, entres civis e militares, e deixou outras centenas de feridos, e com diversos traumas, os EUA entrou e sequestrou o presidente constitucionalmente eleito, Nicolás Maduro, e a deputada e primeira-dama, Cilia Flores.

O governo bolivariano conseguiu se manter no poder através da designação da então vice-presidente Delcy Rodríguez, como presidente encarregada da Venezuela. Mas se viu obrigado a introduzir algumas reformas na legislação do país sobre seus recursos naturais, como o petróleo, permitindo a entrada de investidores privados na indústria, por exemplo, entre outras mudanças.

Após os terremotos da última semana, o Departamento de Guerra dos EUA anunciou o envio dos Marines (os Fuzileiros Navais) e outras equipes como aporte de ajuda dos EUA. Uma luz de alerta se acendeu ao pensar no tratamento dado por esse país à Venezuela e relembrar um outro episódio que ocorreu no Haiti, após o também devastador terremoto de 2010, em que a chegada disfarçada de “ajuda humanitária” dos Estados Unidos se transformou em uma ocupação permanente ao país.

No texto: Haiti, antes e depois da tragédia anunciada, escrito pelo militante do MST, José Luis Patrola, à época coordenador do programa de cooperação entre a Via Campesina e organizações camponesas do Haiti, ele explica sobre a tática usada pelo governo estadunidense naquele momento: “No dia 12 de janeiro do ano de 2010, um terrível terremoto afeta duramente o empobrecido e desestruturado país. De imediato, os Estados Unidos decidem, unicamente por sua ‘boa vontade’ enviar 20 mil marines, porta-aviões, helicópteros e outros instrumentos de guerra. Nessa ocasião se efetiva a quinta e maior ocupação militar norte-americana. Esta por sua vez, estendida a todo o continente sul-americano”, relata Parola no artigo.

A pergunta chave é: existe mesmo verdadeira intenção humanitária na “ajuda” dos Estados Unidos à Venezuela, depois que tornou mais que evidente o seu interesse apenas pelo controle dos recursos naturais abundantes no país caribenho, expresso por nada menos do que o próprio presidente estadunidense nas declarações realizadas após o ataque à Venezuela?

Resposta à tragédia

Desde as primeiras horas, o governo da Presidente encarregada da Venezuela, Delcy Rodríguez, mobilizou a estrutura nacional de resposta a emergências e todos os meios aos seus serviços, articulou a Força Armada Nacional Bolivariana (FANB), a Proteção Civil, Bombeiros, órgãos de saúde, governos locais nas operações de busca, resgate e assistência.

Fotos: TeleSUR

Foram instalados abrigos temporários, hospitais de campanha, centros de distribuição de alimentos, água, medicamentos e outros insumos básicos no atendimento às primeiras necessidades e resgate das vítimas (parte dessa mobilização de coleta de insumos, roupas, medicamentos, aconteceu de forma oficial e de forma espontânea, com a organização de grupos de apoio da sociedade civil).

A Presidente informou que o Executivo Nacional mantém uma mobilização territorial permanente para avaliar as condições das moradias afetadas e determinar quais estão aptas para o retorno de seus habitantes. Para além do emergencial, o governo anunciou medidas para a recuperação das áreas atingidas, como o fundo de investimento para reconstrução de moradias, espaços e infraestrutura pública, além do atendimento em saúde física e mental, articulando essas ações com as organizações comunitárias, as comunas, conselhos comunais.

O processo de Revolução Bolivariana construiu essas diversas formas de organização popular direta, que em momentos como esse demonstram sua força e sua importância; coordenam processos, direcionam ajudas, identificam as maiores necessidades e organizam a ação, os abrigos, o cuidado cotidiano de comunidades e pessoas atingidas.

Uma mobilização que evidencia a importância da organização diretamente nos territórios, que têm contribuído na emergência, mas também na sustentação da reconstrução coletiva em momentos de profunda adversidade e que permanece quando o mundo já não fala mais no assunto.

São as Comunas, os conselhos comunais e as organizações populares que ajudam a construir a solidariedade organizada dos trabalhadores e trabalhadoras nas mais diferentes trincheiras e postos de trabalho em seus próprios territórios ou onde seja necessário.”

Solidariedade imediata

Em meio a destruição vem a mobilização oficial, mas vem também a mobilização espontânea e imediata de solidariedade: todos buscando fazer o que podem para ajudar de alguma maneira. Motos, carros, caminhonetes carregadas de insumos, água, alimentos, roupas, máscaras, medicamentos encheram as ruas, rodovias e espaços momentos depois do ocorrido.

Foram tantas as movimentações que a rodovia para La Guaira, região litorânea e uma das zonas mais afetadas pelos terremotos, ficou congestionada. O governo precisou intervir e criar um mecanismo de cadastramento para que as pessoas, veículos, imprensa, equipamentos de socorro e resgate pudessem descer de modo organizado para ajudarem da maneira que permitissem suas habilidades e conhecimentos. A intenção foi desafogar as estradas para socorrer as pessoas afetadas e resgatadas[1]. Até o momento foram inscritos mais de 17.000 voluntários.

Foto: TeleSUR

De outro lado, e simultaneamente, as fronteiras também se abriam para dar passagem à ajuda humanitária vinda de todos os cantos da Venezuela e do mundo, com mais de 50 delegações de países da América, Europa e Asia, como Cuba, Palestina, México, Brasil, Colômbia, Espanha e outros.

No total, se somaram nas buscas e salvamentos 4.099 resgatistas internacionais – alguns dos quais com equipamentos especiais que ajudam na identificação de sinais de vida embaixo dos escombros – que trabalham conjuntamente com 26.127 efetivos venezuelanos deslocados e 153 cães farejadores, especializados na busca em situações de desastre. Trabalho conjunto que permitiu o resgate de 6.461 pessoas até o momento da atualização de dados.

Reconstrução

Reconstruir nunca será só reerguer paredes, será preciso cuidar também das feridas que não estão visíveis aos olhos, aquelas que permanecerão quando os noticiários pararem de transmitir sobre essa tragédia na Venezuela; semelhante ao que sentem as crianças ao se afastarem dos pais por minutos, com medo de perdê-los ou por medo de passarem por isso novamente. Será preciso toda a empatia, preciso sentir o povo e suas necessidades, na tentativa de amenizar o trauma que fica.

Escrevo desde o Estado Barinas, localizado na região dos Llanos, interior do país, onde moro atualmente com mais três integrantes da Brigada Internacionalista Apolônio de Carvalho (BIAC), no IALA, o Instituto Universitário Latino-Americano de Agroecologia Paulo Freire.

Longe de onde ocorreram os epicentros, nos custou um pouco entender a gravidade do que tinha acabado de acontecer no momento dos acontecimentos. Depois da angústia de tantas imagens de destruição e não poder participar diretamente nas ações mais urgentes e necessárias de ajuda às pessoas afetadas, relembramos que a solidariedade não possuí uma única forma, ela se concretiza onde a pessoa ou o coletivo possa organizar a capacidade de agir em algo concreto.

Quando o noticiário deixar de transmitir, milhares de pessoas ainda estarão tentando reconstruir suas casas, sua comunidade, suas vidas e seus afetos na Venezuela. Aí é que a solidariedade será tanto quanto ou mais necessária do que agora. E este país precisa demais que a solidariedade continue sendo mais forte que os escombros, mais forte que as diferenças, que seja humana e viva.”

Referência:

[1] Essa foi uma das ações que alguns veículos de imprensa noticiaram falsamente e de maneira mal-intencionada como um impedimento do governo aos locais do desastre. A medida foi tomada devido ao fato de que equipes, equipamentos e veículos de resgate não conseguiam chegar aos locais afetados pelos enormes congestionamentos causados pelo número excessivo de veículos e pediram espaço, ao qual o governo respondeu criando um centro de cadastramento em alguns pontos da cidade de Caracas.

*Militante do setor de Comunicação do MST e integrante da Brigada Internacionalista do MST Apolônio de Carvalho na Venezuela.

**Editado por Solange Engelmann



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