Há 38 anos, em 3 de julho de 1988, um Airbus operado por uma companhia aérea iraniana era abatido por mísseis disparados pela Marinha dos Estados Unidos, explodindo sobre o Estreito de Ormuz. O ataque matou todos os 290 passageiros da aeronave, incluindo 66 crianças.
O ataque foi perpetrado pela tripulação do cruzador USS Vincennes, que alegou ter confundido o avião da Iran Air com um caça F-14. O governo iraniano classificou o episódio como um massacre deliberado e pediu a condenação dos Estados Unidos junto ao Conselho de Segurança da ONU, mas foi ignorado.
As investigações demonstraram que o navio de guerra dos Estados Unidos havia invadido as águas territoriais iranianas, violando o direito internacional. Apesar disso, nenhum dos militares envolvidos na ação foi punido. Os tripulantes do USS Vincennes foram tratados como heróis e o capitão que ordenou o disparo dos mísseis foi condecorado com a Legião do Mérito.
A Revolução Iraniana e a Guerra Irã-Iraque
A vitória dos insurgentes na Revolução Iraniana de 1979 resultou em mudanças profundas no cenário geopolítico do Oriente Médio. Com a queda do xá Mohammad Reza Pahlavi e a abolição do regime monárquico pró-Ocidente, o Irã se tornou uma república islâmica liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini.
O novo governo nacionalizou as reservas de petróleo e adotou uma postura veementemente anti-imperialista, afastando-se dos Estados Unidos e das potências ocidentais. Além do impacto econômico na produção petrolífera, a revolução causou enorme descontentamento na Casa Branca, que se ressentia da perda de uma de suas principais bases de controle e influência na região do Golfo Pérsico.
Sob controle do clero islâmico xiita, o novo governo iraniano também causava preocupação às nações vizinhas, que temiam a “exportação” dos ideais revolucionários. Era o caso do Iraque, governado por um regime secular sunita comandado por Saddam Hussein e pelo Partido Baath.
Além de temer que a revolução no Irã incentivasse uma rebelião interna dos xiitas iraquianos, Saddam também intencionava retomar o controle sobre o rio Shatt al-Arab, estratégico para o domínio das rotas comerciais, e anexar a província iraniana do Cuzistão, muito rica em reservas petrolíferas. Enxergando na instabilidade pós-revolucionária do Irã uma oportunidade de vitória rápida, Saddam Hussein ordenou a invasão do país em setembro de 1980, dando início à Guerra Irã-Iraque.
A crença do líder iraquiano no sucesso de uma campanha militar fulminante provou-se ilusória. O Irã logo conseguiu recompor suas defesas e neutralizou o avanço iraquiano. A guerra se transformaria em um conflito sangrento que se prolongou por oito anos e ceifou centenas de milhares de vidas.
Ansiando pela derrubada do governo do Irã, os Estados Unidos deram forte apoio financeiro, logístico e militar ao regime de Saddam Hussein. Washington cedeu técnicos militares ao Iraque e gastou bilhões de dólares fornecendo créditos agrícolas e armas, além de compartilhar inteligência de satélites e radares sobre as posições iranianas.
A “Guerra dos Petroleiros”
Em meados da década de 1980, os combates entre Irã e Iraque ultrapassaram as fronteiras terrestres e atingiram intensamente o Golfo Pérsico. Navios mercantes, petroleiros e embarcações comerciais tornaram-se alvos frequentes dos dois países, dando origem à fase do conflito que ficou conhecida como “Guerra dos Petroleiros”.
Os embates se concentraram na região do Estreito de Ormuz, passagem marítima por onde transitava parcela substancial do petróleo produzido no Oriente Médio. O conflito elevou exponencialmente os custos do transporte marítimo e ameaçou a interrupção do fluxo de petróleo, gerando grande preocupação entre as potências ocidentais.
Alegando a necessidade de proteger as embarcações que navegavam pelo Estreito de Ormuz, os Estados Unidos intensificaram sua participação na guerra. Em 1987, a Casa Branca anunciou o início da “Operação Earnest Will”, passando a escoltar petroleiros kuwaitianos que estavam registrados sob bandeira norte-americana.
A tensão entre Irã e Estados Unidos se agravou ainda mais no ano seguinte, após a destruição do navio USS Samuel B. Roberts por uma mina naval iraniana. Os norte-americanos retaliaram lançando a “Operação Praying Mantis”, que destruiu parte significativa da marinha iraniana e matou 56 pessoas.
Em abril de 1988, visando reforçar sua presença militar no Golfo Pérsico, os Estados Unidos enviaram o cruzador de mísseis guiados USS Vincennes para o Estreito de Ormuz. Comandado pelo capitão William Rogers III, o navio era uma das embarcações mais modernas da marinha norte-americana. Era equipado com o sofisticado sistema de combate Aegis, possuindo radares capazes de rastrear centenas de alvos simultaneamente e de coordenar ataques de alta precisão.
O ataque ao voo Iran Air 655
O capitão William Rogers era conhecido por sua postura extremamente agressiva — um fato que lhe rendeu críticas dos próprios oficiais norte-americanos. Logo após sua chegada ao Golfo Pérsico, Rogers conduziu o USS Vincennes a uma série de enfrentamentos contra as embarcações iranianas.
O mais desastroso desses enfrentamentos ocorreria no dia 3 de julho de 1988, quando o cruzador norte-americano invadiu as águas territoriais do Irã. Inicialmente, os alvos do USS Vincennes eram as canhoneiras da Guarda Revolucionária, mas, durante a perseguição, os radares da embarcação detectaram a decolagem de uma aeronave.
O avião detectado pelo USS Vincennes era uma aeronave comum — um Airbus A300 operado pela Iran Air, a companhia aérea estatal do Irã. O avião realizava o voo 655, uma rota comercial que ligava Teerã a Dubai, com uma escala em Bandar Abbas. No comando da aeronave estavam o capitão Mohsen Rezaian (um piloto experiente, com mais de 7.000 horas de voo), o primeiro oficial Kamran Teymouri e o engenheiro de voo Mohammad Reza Amini.
O Airbus havia decolado do aeroporto de Bandar Abbas às 10h47 da manhã no horário local. A aeronave transportava 290 passageiros e deveria concluir o voo em menos de 30 minutos. Voava por uma rota internacional utilizada regularmente em voos comerciais e seu transponder transmitia corretamente o código civil, permitindo sua identificação pelos radares.
Não havia quaisquer dados que indicassem que o voo 655 não era um voo comercial comum. Ainda assim, a tripulação do USS Vincennes teria identificado incorretamente a aeronave como um caça iraniano F-14 Tomcat. E mesmo com o sistema Aegis registrando que o Airbus estava subindo continuamente, os militares norte-americanos teriam interpretado que a aeronave estaria descendo e acelerando, assumindo perfil de ataque.
Conforme os relatórios da marinha norte-americana, o USS Vincennes emitiu 10 avisos em frequência militar e civil, mas o Airbus não tinha equipamentos para sintonizar a frequência militar de emergência.
Às 10h54 da manhã, o cruzador norte-americano disparou dois mísseis SM-2MR contra a aeronave iraniana. O avião foi atingido alguns segundos depois, desintegrando-se no ar e derrubando seus destroços sobre o Golfo Pérsico. Todos os 290 ocupantes morreram no ataque. Desses, 66 eram crianças. As vítimas eram iranianas em sua maioria (254 pessoas), mas a ação também matou cidadãos da Índia, Emirados Árabes Unidos, Paquistão, Iugoslávia e Itália.

Via Wikimedia Commons
Reações
Após a derrubada da aeronave, o Pentágono divulgou um comunicado afirmando que o USS Vincennes havia abatido um caça F-14 iraniano. Algumas horas depois, o governo norte-americano emitiu uma retratação reconhecendo que havia derrubado um avião comercial. O presidente Ronald Reagan expressou “profundo pesar” pelo ocorrido, mas enquadrou o ataque como um “acidente compreensível”, derivado de uma “ação defensiva apropriada”.
Tanto o governo quanto a imprensa norte-americana tentaram responsabilizar os próprios iranianos pelo ocorrido. Reportagens do período afirmavam erroneamente que o avião estava fora do corredor. Também diziam que o Airbus se comportava de “forma suspeita” e que sua tripulação teria ignorado deliberadamente todos os avisos.
As investigações posteriores desmentiram as narrativas norte-americanas, comprovando que o Airbus seguia em rota conhecida, transmitindo corretamente seu código de identificação civil, e que estava em ascensão no momento em que foi atacado. Comprovaram também que o cruzador USS Vincennes invadira as águas territoriais do Irã, em flagrante violação ao direito internacional.
O Irã classificou o ataque como um crime deliberado e levou o caso ao Conselho de Segurança da ONU. O vice-presidente norte-americano George H. W Bush respondeu classificando o episódio como um “incidente de guerra” e afirmou que a tripulação do USS Vincennes havia agido “de maneira adequada” para lidar com a situação.
A ONU chegou a emitir uma resolução sobre o ataque, mas não condenou os militares norte-americanos, limitando-se a lamentar a perda de vidas e a expressar o desejo pelo fim da guerra. Alguns governos manifestaram consternação pela morte dos civis, mas, no geral, a resposta diplomática da comunidade internacional foi marcada pela condescendência ou indiferença.
Em 1996, a Casa Branca concordou em pagar 61,8 milhões de dólares em indenização às famílias das vítimas, como parte de um acordo firmado perante o Tribunal Internacional de Justiça. O governo norte-americano, no entanto, não admitiu responsabilidade legal e jamais se desculpou formalmente pelo episódio.
Nenhum dos militares envolvidos no ataque foi indiciado ou punido. Ao contrário: a tripulação do USS Vincennes recebeu condecorações por sua atuação na guerra e o capitão William Rogers foi laureado com a Legião do Mérito por sua “conduta excepcional”.
O post Terror nos céus: quando EUA abateram avião civil do Irã e mataram 290 pessoas apareceu primeiro em Opera Mundi.