*Por Talita Galli, em Ningxia, China
No noroeste da China, onde as curvas do Rio Amarelo encontram a imensidão do deserto, fica a Região Autônoma de Ningxia Hui.
O território chama a atenção pela organização política e demográfica: trata-se de uma província autônoma habitada pela minoria muçulmana Hui, que soma uma população de pouco mais de 7 milhões de habitantes ao lado da maioria Han.
Longe de ser apenas um ponto isolado no mapa, a região vive hoje uma das transformações mais profundas de sua história. Leia em TVT News.
Um Mosaico de Culturas e Resiliência
A história de Ningxia está ligada à própria sobrevivência humana diante de uma geografia árida. Por ser uma área seca e de cultivo difícil, a agricultura local depende, há mais de dois milênios, de canais de irrigação criados para desviar as águas do rio e transformar terras secas em um oásis produtivo.
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Essa vulnerabilidade geográfica cobrou um preço alto em dezembro de 1920, quando o devastador terremoto de Haiyuan fez montanhas inteiras deslizarem, soterrando vilas no condado de Xiji e deixando os sobreviventes sem alimentos e sem aquecimento em um inverno de frio extremo.
Esse desastre destruiu a infraestrutura rudimentar da época e soterrou as casas escavadas na terra, empurrando a população para um ciclo profundo de miséria que se arrastou por gerações. Após décadas de investimentos estruturais direcionados a áreas castigadas, a província alcançou uma virada histórica: em 2020, Ningxia eliminou oficialmente a extrema pobreza e a fome que antes pareciam permanentes em zonas rurais.
Hoje, quem viaja por aqui percebe que o isolamento ficou no passado. Para sustentar essa nova fase, Ningxia modernizou sua economia longe das indústrias poluentes: transformou o vento e o sol do deserto inóspito em energia limpa, instalou grandes centros de dados e IA, e aproveitou o solo na base das Montanhas Helan para produzir vinhos que hoje acumulam prêmios internacionais.
Turismo Vermelho em Jiangtaibu
É nesse cenário de superação que o condado de Xiji guarda um de seus capítulos mais fascinantes. O Parque Memorial da Longa Marcha do Exército Vermelho em Jiangtaibu faz parte do chamado “turismo vermelho” no país — as rotas históricas que relembram os passos da revolução chinesa.
O local tornou-se histórico por ser o ponto de encontro de três forças do Exército Vermelho, um marco que selou a vitória e o fim da Longa Marcha poucos dias depois.
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Longe dos efeitos digitais e das telas interativas, o museu de Jiangtaibu é daqueles tradicionais. Ali, a imersão se faz pelo peso das fotos, dos objetos e das ricas histórias de conexão humana entre os soldados Han do Exército Vermelho e a comunidade muçulmana Hui.



Dois momentos desse acervo merecem destaque especial e mostram a sensibilidade desse encontro:
- A conexão através do macarrão de batata: Um dos quadros do museu traz o cotidiano e a troca cultural entre os soldados e os moradores locais. Até a chegada das tropas, os Hui comiam a batata cultivada na região apenas cozida ou amassada de forma simples. Foram os soldados que os ensinaram a transformar o tubérculo em macarrão, uma técnica culinária que mudou a alimentação da região e é mantida viva pelas famílias até hoje.
- A história registrada em versos: O museu chama a atenção por revelar um lado sensível e inesperado dos combatentes. O acervo preserva poemas escritos pelos próprios militares para registrar os momentos cruciais e as dores da longa caminhada. Esses manuscritos foram guardados com cuidado e hoje dividem espaço com as armas e uniformes da época. Entre os textos expostos, destacam-se os versos de autoria do próprio Mao Zedong: “Nós não somos os heróis, mas somos os homens que pararam a guerra”.
O peso histórico e simbólico de Jiangtaibu é tão grande para o país que o presidente Xi Jinping escolheu o memorial como a primeiríssima parada de sua viagem oficial de inspeção por Ningxia em 2016.
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*Talita Galli está na China a convite do Departamento Internacional do Partido Comunista da China
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