
Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) mostram que o Brasil reduziu de 360 mil para cerca de 50 mil o número de crianças que não receberam sequer a primeira dose da vacina pentavalente entre 2023 e 2025. A queda de quase 90% retirou o país da lista das 20 nações com maior número de crianças “zero-dose” e colocou o Brasil entre os principais destaques mundiais na recuperação da cobertura vacinal infantil.
O reconhecimento internacional vai além dos indicadores. Quatro anos separam dois diagnósticos opostos sobre a vacinação infantil no país. Em novembro de 2022, a equipe de transição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmava que o Programa Nacional de Imunizações (PNI), referência internacional construída ao longo de quase cinco décadas, havia sido “praticamente destruído” após sucessivas quedas na cobertura vacinal, falta de planejamento e avanço do negacionismo científico. Agora, a avaliação mundial sobre imunização aponta o Brasil como um dos países que mais conseguiram recuperar sua política de vacinação.
O diagnóstico de um programa desmontado
Ao apresentar o relatório do Grupo de Trabalho da Saúde, os ex-ministros da pasta Arthur Chioro, Humberto Costa e José Gomes Temporão descreveram um cenário de profundo enfraquecimento da política nacional de imunização. Segundo eles, nenhuma vacina do calendário infantil destinada a crianças de até um ano alcançava a cobertura mínima recomendada. O grupo também alertou para o risco de reintrodução de doenças já controladas, como a poliomielite, denunciou a ausência de planejamento para campanhas de vacinação e apontou que o Ministério da Saúde sequer havia programado a produção de imunizantes junto ao Instituto Butantan para o ano seguinte.
Arthur Chioro resumiu o quadro ao afirmar que o governo Bolsonaro havia “praticamente destruído um esforço de quatro décadas e meia” que transformou o Programa Nacional de Imunizações em referência internacional.
Criado em 1973, antes mesmo da instituição do Sistema Único de Saúde (SUS), o PNI tornou o Brasil referência mundial em vacinação gratuita e universal. Graças a ele, doenças como poliomielite, sarampo e rubéola foram eliminadas ou controladas por décadas. Até 2015, praticamente todas as vacinas do calendário infantil mantinham cobertura superior a 95%. Nos anos seguintes os índices passaram a cair, movimento agravado durante a pandemia de Covid-19, quando o negacionismo científico passou a influenciar a condução das políticas públicas de saúde.
Da reconstrução ao reconhecimento internacional
Os dados da OMS e Unicef mostram que esse cenário começou a ser revertido. Além da redução de quase 90% no número de crianças zero-dose, o Brasil registrou o segundo maior crescimento do mundo na cobertura da primeira dose da vacina contra difteria, tétano e coqueluche (DTP) entre 2019 e 2025, atrás apenas da Líbia.
Segundo as entidades, a recuperação foi impulsionada pela retomada das campanhas nacionais de vacinação, pela vacinação nas escolas, pela busca ativa de crianças com esquemas vacinais incompletos, pelo fortalecimento da rede de salas de vacina e pelo aprimoramento dos sistemas de informação do Programa Nacional de Imunizações.
O resultado ganha ainda mais relevância diante do cenário internacional. Entre os 195 países avaliados, apenas 30 conseguiram ampliar suas coberturas vacinais desde 2019, enquanto 65 permaneceram estagnados ou registraram retrocessos. O Brasil está entre os 17 países que elevaram em mais de cinco pontos percentuais a cobertura da primeira dose da vacina DTP no período e apresentou o segundo maior avanço do mundo.
O legado do negacionismo
O reconhecimento da OMS ocorre poucos meses após o lançamento do documentário Anatomia do Caos, que revisita a condução da pandemia de Covid-19 no Brasil e mostra como o negacionismo deixou de ser apenas um discurso político para influenciar decisões de governo. Ao reconstruir episódios como o atraso na compra de vacinas, a promoção de medicamentos sem eficácia comprovada e os ataques à comunidade científica, o filme evidencia como a desinformação corroeu a confiança em uma das políticas públicas mais bem-sucedidas do país.
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O contraste também aparece no cenário internacional. Enquanto o Brasil volta a ser reconhecido pelos principais organismos multilaterais pela recuperação da vacinação infantil, os Estados Unidos caminham em direção oposta. Sob Donald Trump e o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., o governo norte-americano promoveu mudanças no calendário vacinal infantil criticadas por entidades médicas e especialistas, fortalecendo uma agenda alinhada ao movimento antivacina.
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Um patrimônio reconstruído
Os dados divulgados pela OMS e pelo Unicef representam mais do que uma melhora estatística. Eles indicam a recuperação de uma política pública que se tornou patrimônio do SUS e referência internacional ao longo de décadas. Quatro anos depois de especialistas alertarem para o risco de colapso do Programa Nacional de Imunizações, o Brasil volta a ser citado entre os países que mais avançaram na proteção da infância por meio da vacinação.
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