A guerra de agressão imperialista dos Estados Unidos contra o Irã pode estar abrindo uma nova frente no Oriente Médio.
Após meses de confrontos concentrados entre Washington e Teerã e da disputa pelo controle do Estreito de Ormuz, os houthis do Iêmen anunciaram nesta segunda-feira (20) um bloqueio naval contra a Arábia Saudita, ampliando o risco de que o conflito se espalhe para outro dos principais corredores marítimos do mundo.
O grupo xiita apoiado pelo Irã, afirmam que a medida responde ao cerco imposto ao país desde 2015 e aos recentes ataques contra Sanaá.
O anúncio ocorre em meio à intensificação da guerra entre Estados Unidos e Irã, com novos bombardeios norte-americanos contra cidades e instalações iranianas e uma forte resposta de Teerã contra bases e ativos dos EUA no Bahrein, no Kuwait e na Jordânia.
Os houthis afirmam que a decisão entrou em vigor imediatamente e faz parte da lógica de “olho por olho”, em resposta ao bloqueio imposto ao Iêmen e aos recentes ataques contra o Aeroporto Internacional de Sanaá.
Mapa destaca a localização dos estreitos de Ormuz e de Bab el-Mandeb, dois dos principais corredores marítimos do comércio mundial de petróleo e foco da escalada militar no Oriente Médio. Foto: Reprodução
Segundo a organização, embarcações sauditas com destino aos portos do Mar Vermelho passarão a ser consideradas alvos militares.
A atual escalada entre houthis e Arábia Saudita teve início após um ataque ao Aeroporto Internacional de Sanaá, em 13 de julho. A ofensiva buscou impedir o pouso de uma aeronave iraniana que transportava uma delegação houthi de volta do funeral do líder supremo iraniano, Ali Khamenei.
O episódio chamou atenção porque a própria Arábia Saudita enviou uma delegação de alto nível à cerimônia, sinalizando que, apesar da histórica rivalidade geopolítica e religiosa entre Riad e Teerã, os dois países vinham mantendo um processo de reaproximação diplomática desde a retomada de suas relações em 2023.
O governo internacionalmente reconhecido do Iêmen reivindicou a ação, embora analistas apontem que a operação tenha contado com apoio direto da Arábia Saudita.
Em resposta, os houthis lançaram mísseis contra o Aeroporto Internacional de Abha, no sul saudita, ameaçaram companhias aéreas que utilizassem o espaço aéreo do reino e, agora, anunciaram um bloqueio naval contra embarcações sauditas no Mar Vermelho.
Um país dividido pela guerra
O Iêmen é um país que fica no sul da península arábica e está dividido por uma guerra que já dura mais de uma década.
Os houthis, também conhecidos como Ansar Allah, controlam a capital, Sanaá, e grande parte do norte e do oeste do país, onde vive a maioria da população. O movimento tomou a capital em 2014 e, no ano seguinte, passou a enfrentar uma intervenção militar liderada pela Arábia Saudita e apoiada pelos Estados Unidos.
Em oposição aos houthis está o Conselho de Liderança Presidencial, que dirige o governo iemenita reconhecido pela Organização das Nações Unidas e por países ocidentais.
Instalado em 2022 e sediado principalmente em Áden, no sul, o conselho reúne diferentes forças contrárias ao Ansar Allah e depende do apoio político, financeiro e militar de Riad. Longe de formar um bloco homogêneo, porém, essa coalizão é marcada por disputas internas pelo controle de territórios, recursos e instituições.
Combatentes houthis participam de mobilização no Iêmen. O grupo anunciou um bloqueio naval contra a Arábia Saudita em resposta ao apoio de Riad às operações militares dos Estados Unidos. Foto: Reprodução
Entre essas forças estava o Conselho de Transição do Sul, movimento separatista apoiado pelos Emirados Árabes Unidos (único país do golfo arábico que possui relações amistosas com Israel) e que defendia a restauração de um Estado independente no território do antigo Iêmen do Sul.
Embora tenha integrado o Conselho de Liderança Presidencial, o grupo manteve forças armadas próprias e entrou repetidamente em choque com aliados sustentados pela Arábia Saudita, revelando a competição entre Riad e Abu Dhabi no interior do campo anti-houthi.
Essa terceira força, entretanto, saiu enfraquecida de uma ofensiva lançada no fim de 2025.
É nesse tabuleiro fragmentado que se encontra o Estreito de Bab el-Mandeb, passagem de apenas 29 quilômetros em seu ponto mais estreito entre o Iêmen e o Chifre da África.
O corredor liga o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e constitui a porta de entrada para o Canal de Suez, formando a rota marítima mais direta entre o Oceano Índico, a Ásia e a Europa.
Petróleo, derivados, gás e mercadorias transportados entre essas regiões dependem dessa passagem ou precisam contornar todo o continente africano.
A importância do estreito aumentou ainda mais com a redução do tráfego por Ormuz. A Arábia Saudita passou a enviar volumes crescentes de petróleo por oleoduto até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, transformando Bab el-Mandeb em uma saída decisiva para suas exportações.
Dados de transporte marítimo já apontam mudanças de rota após a ameaça houthi, enquanto os custos de seguro para embarcações que cruzam o Mar Vermelho subiram.
Assim, mesmo sem anunciar o fechamento do estreito, o Ansar Allah dispõe de meios para pressionar Riad, elevar os custos do comércio e projetar a guerra para além das fronteiras do Iêmen.
Houthis dizem agir para romper o cerco ao Iêmen
Os houthis afirmam que o bloqueio representa uma resposta ao cerco econômico imposto ao Iêmen desde o início da intervenção militar liderada pela Arábia Saudita, em 2015.
Em entrevista à emissora Al Masirah, o vice-diretor do Departamento de Orientação Moral das Forças Armadas iemenitas, brigadeiro-general Abdullah Bin Amer, classificou a medida como uma “mudança radical” na condução da guerra e afirmou que o objetivo é pressionar Riad a suspender as restrições impostas aos aeroportos, portos e à economia do país.
Segundo Bin Amer, “a principal motivação é acabar com o sofrimento humanitário do povo iemenita”.
O dirigente afirmou que o bloqueio saudita ao Iêmen afeta toda a população, desde comerciantes até instituições públicas, e disse que a liderança houthi decidiu passar “da paciência prolongada para a implementação prática de seus direitos legítimos” após anos de negociações sem resultados.
O comandante também acusou a Arábia Saudita de descumprir os entendimentos firmados em abril de 2022, especialmente os relacionados ao funcionamento de aeroportos e portos, ao pagamento de salários e à entrada de bens essenciais no país.
Abdullah bin Amer, brigadeiro do movimento houthi, tem defendido a expansão das operações militares e a manutenção do bloqueio às rotas marítimas da região. Foto: Reprodução
Segundo ele, o ataque ao Aeroporto Internacional de Sanaá marcou o rompimento definitivo desse processo e precipitou a decisão de impor o bloqueio marítimo.
Os houthis sustentam ainda que a medida não pretende fechar o Estreito de Bab el-Mandeb nem interromper toda a navegação internacional.
“Não estamos falando em fechar Bab el-Mandeb, mas em impor um bloqueio ao inimigo saudita”, declarou.
O dirigente afirmou ainda que as Forças Armadas iemenitas dispõem de capacidade para implementar a medida graças à experiência acumulada durante os confrontos no Mar Vermelho contra navios de guerra dos Estados Unidos, do Reino Unido e de Israel.
Segundo ele, essa experiência alterou as “regras da guerra naval” e demonstra que o Iêmen possui condições de sustentar uma campanha prolongada contra interesses sauditas na região.
Bab el-Mandeb ganha peso com bloqueio de Ormuz
O anúncio dos houthis ocorre no momento em que o Estreito de Bab el-Mandeb se tornou uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta.
Com o fechamento parcial de Ormuz em razão da guerra entre Estados Unidos e Irã, a passagem no sul do Mar Vermelho passou a absorver parte do fluxo de petróleo que antes deixava o Golfo em direção à Ásia e à Europa.
A Arábia Saudita foi uma das principais beneficiadas por essa mudança. Nas últimas semanas, Riad ampliou o uso do oleoduto Petroline, que cruza o território saudita até o porto de Yanbu, na costa do Mar Vermelho.
A partir dali, petroleiros seguem pelo Bab el-Mandeb rumo ao Canal de Suez ou ao Oceano Índico.
Segundo dados da Kpler, os embarques a partir de Yanbu chegaram a cerca de 4 milhões de barris por dia, mais de quatro vezes o volume registrado no mesmo período do ano passado.
Esse desvio fez crescer rapidamente a importância da rota. Ainda de acordo com a Kpler, cerca de 7,4 milhões de barris de petróleo por dia cruzaram o Bab el-Mandeb em junho, o equivalente a aproximadamente 7% da produção mundial.
O estreito passou a funcionar como uma válvula de escape para o mercado internacional de energia, amenizando parte do impacto provocado pelas restrições em Ormuz.
Caso os houthis consigam interromper de forma significativa a navegação na região, o mercado passará a conviver com dificuldades simultâneas nas duas principais rotas de exportação de petróleo do Oriente Médio.
Além do risco de redução da oferta, especialistas apontam que um bloqueio prolongado tende a elevar os custos de seguro marítimo, obrigar navios a percorrer rotas mais longas contornando o continente africano e pressionar os preços internacionais do petróleo e do frete.