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Guia da ONU ensina famílias a enfrentar a influência da machosfera

“Você não precisa ter todas as respostas. Você só precisa começar a conversa.” É com essa proposta que a ONU Mulheres e Unicef apresentam o guia “No Mesmo Time”, lançado nesta terça-feira (22) para ajudar pais e responsáveis a reconhecer os primeiros sinais de contato de crianças e adolescentes com conteúdos misóginos na internet.

A publicação parte de um diagnóstico cada vez mais urgente: discursos que antes circulavam em nichos da chamada machosfera hoje alcançam milhões de jovens pelas redes sociais e exigem das famílias novas formas de diálogo.

O documento chega em um momento em que o debate sobre a machosfera voltou ao centro das atenções internacionais após a nova prisão do influenciador Andrew Tate, um dos principais expoentes do movimento. No Brasil, pesquisas também apontam o crescimento de comunidades misóginas nas plataformas digitais e o avanço de ideias machistas entre adolescentes.

Levantamento do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou 123 canais brasileiros com conteúdos misóginos ativos no YouTube, que somam mais de 23 milhões de inscritos. Outro estudo, realizado pelo Ipsos em parceria com o King’s College London, mostrou que quase um terço dos homens da Geração Z acredita que a esposa deve obedecer ao marido.

Saiba mais: Estudos mostram avanço de conteúdos misóginos e apoio a ideias machistas

É diante desse cenário que o guia propõe uma mudança de perspectiva: em vez de tratar apenas das consequências da misoginia online, busca explicar como ela chega aos jovens e o que pais e responsáveis podem fazer antes que esses discursos se tornem parte de sua visão de mundo.

A internet como espaço de formação

O documento começa lembrando que os adolescentes de hoje crescem em uma realidade muito diferente da vivida por gerações anteriores. Segundo dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, mais de 98% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos acessam a internet pelo celular, e cerca de 40% entram em plataformas de vídeo diversas vezes ao dia.

Para ONU Mulheres e Unicef, esse ambiente deixou de ser apenas espaço de entretenimento. É também onde jovens procuram respostas sobre identidade, amizades, namoro, autoestima e pertencimento. Essa transformação explica por que a preocupação com a machosfera deixou de ser um tema restrito à segurança digital. Segundo o guia, compreender como esses espaços funcionam tornou-se parte da própria tarefa de educar crianças e adolescentes para uma convivência saudável.

Afinal, o que é a machosfera?

Um dos primeiros objetivos da publicação é esclarecer um conceito frequentemente tratado de forma simplificada. O documento explica que a machosfera não é uma organização única nem um movimento centralizado. Trata-se de um conjunto de fóruns, canais de vídeo, grupos em redes sociais e outras comunidades digitais, formadas majoritariamente por homens, que discutem temas como masculinidade, relacionamentos e desenvolvimento pessoal, mas compartilham uma característica comum: a hostilidade em relação às mulheres e aos seus direitos.

Quem compõe esse universo

Para facilitar a identificação desse ecossistema, o guia apresenta os principais grupos que costumam integrar a machosfera. Os chamados incels (“celibatários involuntários”) acreditam estar condenados à rejeição feminina e responsabilizam as mulheres por sua infelicidade. Já os Pick-Up Artists (PUAs) prometem ensinar técnicas para conquistar mulheres, frequentemente baseadas em manipulação emocional e controle psicológico.

Outro grupo é o Men Going Their Own Way (MGTOW), que incentiva homens a abandonarem qualquer tipo de relacionamento com mulheres, alegando que isso evitaria exploração ou sofrimento. Por fim, aparecem os Men’s Rights Activists (MRAs).

O guia observa que esses grupos raramente se apresentam como integrantes de um mesmo movimento e muitas vezes até discordam entre si. Ainda assim, compartilham uma visão de mundo baseada na ideia de que as frustrações masculinas seriam consequência dos avanços conquistados pelas mulheres.

O discurso nem sempre parece extremista

Um dos alertas mais relevantes da publicação é que o contato dos adolescentes com a machosfera dificilmente começa por conteúdos explicitamente misóginos. Muitos influenciadores falam inicialmente sobre exercícios físicos, disciplina, empreendedorismo, sucesso financeiro e desenvolvimento pessoal. No entanto, gradualmente passam a defender conceitos como “homem alfa”, superioridade masculina, autossuficiência extrema, controle sobre mulheres e relações afetivas tratadas como jogos de poder.

Como essas mensagens costumam ser apresentadas como simples conselhos de autodesenvolvimento, elas podem parecer inofensivas tanto para adolescentes quanto para seus responsáveis, dificultando a identificação dos elementos misóginos presentes no discurso.

É justamente esse mecanismo que ajuda a explicar o alcance de figuras como Andrew Tate, cuja imagem pública combina ostentação financeira, motivação pessoal e defesa explícita da submissão feminina.

Leia também: Guru red pill, Andrew Tate é preso após novas acusações

Como adolescentes chegam à machosfera

Um dos capítulos mais importantes do documento procura responder a uma pergunta frequente entre famílias: afinal, os jovens procuram esse tipo de conteúdo ou acabam sendo levados até ele? A resposta passa pelo funcionamento das próprias plataformas digitais. A publicação explica que ideias misóginas deixaram de circular apenas em fóruns obscuros da internet e hoje aparecem em redes sociais amplamente utilizadas por essa faixa etária como TikTok, YouTube e Instagram. Como os algoritmos priorizam conteúdos capazes de provocar forte engajamento, mensagens extremistas ou preconceituosas acabam sendo impulsionadas para um número cada vez maior de usuários.

O guia cita uma investigação realizada pela Revista AzMina e pelo Núcleo Jornalismo, que monitorou o TikTok durante dois meses utilizando perfis fictícios de adolescentes. O estudo concluiu que a misoginia costuma chegar de forma gradual e disfarçada.

Em vez de serem expostos imediatamente a conteúdos red pill, os perfis começaram recebendo vídeos sobre motivação, desenvolvimento pessoal, religião e autoajuda. Apenas depois de sucessivas recomendações passaram a visualizar conteúdos sobre o chamado “valor do homem”, submissão feminina e desprezo pelas mulheres.

Para ONU Mulheres e Unicef, esse percurso ajuda a explicar por que muitos adolescentes entram em contato com discursos misóginos sem buscá-los deliberadamente. A publicação observa que muitos meninos chegam à adolescência inseguros sobre relacionamentos, autoestima e masculinidade. Diante da ausência de espaços de diálogo em casa ou na escola, acabam encontrando respostas em influenciadores que legitimam comportamentos discriminatórios e apresentam a dominação masculina como sinônimo de sucesso.

Sinais de alerta para as famílias

Em um dos trechos, o documento também chama atenção para comentários depreciativos direcionados a professoras, figuras públicas ou colegas, muitas vezes apresentados como humor.

Além das mudanças de comportamento, o guia recomenda atenção à linguagem utilizada pelos jovens. Expressões como “redpillado”, “alfa”, “beta”, “Chad”, “cuck”, “AWALT”, “hipergamia” e “femoids” aparecem como parte do vocabulário recorrente da machosfera e costumam servir para desumanizar mulheres ou estabelecer hierarquias rígidas entre os homens.

Segundo ONU Mulheres e Unicef, muitos adolescentes repetem esses termos sem compreender completamente seu significado. Por isso, a orientação é perguntar onde ouviram determinada expressão, o que acreditam que ela significa e explicar por que esse tipo de linguagem reforça preconceitos e violência.

A proposta central é fortalecer vínculos e criar espaços permanentes de diálogo. Entre as orientações estão adaptar a conversa ao perfil do adolescente, aproveitar temas presentes no cotidiano (como notícias, séries ou tendências das redes sociais).

Em um momento em que a machosfera amplia sua influência global e encontra espaço também no Brasil, o guia aposta menos em respostas repressivas e mais na construção de diálogo entre famílias e jovens. A mensagem final retoma o lema que abre a publicação: os adultos não precisam conhecer todas as respostas sobre o universo digital para proteger seus filhos. Precisam, antes de tudo, estar dispostos a conversar.

Confira a íntegra da publicação neste link.

Educação é parte da resposta, não a única

O guia reforça que o diálogo dentro de casa é uma das principais ferramentas para prevenir a influência da machosfera. Mas o enfrentamento à misoginia no ambiente digital não depende apenas das famílias.

Nos primeiros 100 dias do Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, o governo federal anunciou um conjunto de medidas voltadas ao enfrentamento da violência de gênero também nas plataformas digitais. Entre elas, um decreto que altera a regulamentação do Marco Civil da Internet, estabelece deveres para as empresas de tecnologia e cria mecanismos de responsabilização, além de outra norma específica para prevenir e combater a violência contra mulheres na internet.

A iniciativa se soma a ações como o monitoramento eletrônico de agressores, campanhas de conscientização e a ampliação da proteção às vítimas, reforçando que o combate à misoginia exige uma atuação articulada entre famílias, escolas, Estado e plataformas digitais.

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