Que o brasileiro ama futebol, a gente já sabe. Mas de quatro em quatro anos muitos de nós nos tornamos, por um breve período de tempo, anti-colonialistas e inegavelmente latino-americanos. É uma curiosidade imensa para mim que essas novas identidades sejam somente acionadas por períodos de tempo tão distantes um do outro, mas é como o ditado que se tornou popular já diz: “nunca foi só sobre futebol”. Nossa torcida e nossos corações, ao menos no que diz respeito ao futebol, sempre pendem para o elo mais fraco, e gols de países africanos e/ou latino americanos nos fazem vibrar (menos da Argentina, é claro).
O fenômeno mais recente tem o nome do goleiro da seleção de Cabo Verde: Vozinha, natural das ilhas que também são a casa de Amílcar Cabral, o pai da nação cabo-verdiana, eterno líder do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde), país de Cesária Évora, Mayra Andrade, e tantos outros nomes importantes mundialmente, que se libertou na luta e que pela luta vem sobrevivendo e produzindo cultura, que além de dividir conosco o idioma, também se liga ao Brasil numa série de elementos culturais que demonstram uma irmandade que ultrapassa o Atlântico.

(Foto: Celso FLORES / Wikimedia Commons)
Cabo Verde, que chegou a receber Paulo Freire em meio ao processo de libertação do colonialismo português, ao desenvolver estratégias de emancipação que passavam pela alfabetização de seu povo. O projeto foi responsável por fazer com que Freire reconhecesse Amílcar Cabral como um “pedagogo da revolução”. Mas quantos dos torcedores e seguidores de Vozinha sabem também dessas coisas?
Além de Cabo Verde, a República Democrática do Congo também virou notícia na Copa do Mundo, em grande parte por conta de um ilustre torcedor, Michel Nkuka Mboladinga, um sósia de Patrice Lumumba, líder da revolução contra a Bélgica e primeiro-ministro do país após a libertação, assassinado num complô que envolveu a CIA e a própria Bélgica. Mboladinga era figurinha carimbada em todos os jogos da RDC e se fazia de homem-estátua: subia num banco e ficava parado em posição de saudação o jogo inteiro. Um lembrete ativo do preço da liberdade. Mboladinga seria levado aos jogos como convidado da própria seleção, mas sua autorização de entrada foi negada pelos EUA, obrigando o torcedor a assistir apenas aos jogos realizados no México.
As notícias da mídia tradicional falaram sobre Mboladinga e seu visto negado, mas não falaram da guerra no Leste da RDC que já dura 30 anos e foi responsável pelo deslocamento forçado de mais de 8 milhões de pessoas e deixou outras 4 milhões (a maioria delas crianças, inclusive), em insegurança alimentar, vivendo de migalhas em campos de refugiados em Kinshasa, a capital do país. Em grande parte, essa guerra é financiada pelo ocidente, já que o país fornece boa parte do coltan, do cobalto, do cobre e do ouro que serve de combustível para a indústria tecnológica moderna.
Num vídeo recente, um torcedor inglês responde da seguinte maneira a uma pergunta de um jovem influenciador, sobre o jogo contra a RDC: “Nós os colonizamos uma vez, vamos colonizá-los de novo”.
A colonização nunca sai da cabeça do colonizador; seria incrível que a contra-colonização não fosse separada do futebol na cabeça daqueles que um dia também foram (ou ainda são) colonizados. Aproveitemos a Copa do Mundo, portanto, para conhecer mais sobre o continente africano.
(*) João Raphael (Afroliterato) é escritor, professor e mestre em educação pela UFRJ. É apresentador do programa “E aí, professor?” do Canal Futura.
O post A Copa do Mundo é uma oportunidade para conhecer mais sobre a África apareceu primeiro em Opera Mundi.