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“A desigualdade não está diminuindo”, diz Lula em reunião ampliada do G7

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, em Évian (França), da reunião ampliada do G7 sobre o tema “Firmar novas parcerias e reconstruir a solidariedade internacional” e usou sua intervenção para defender reformas no financiamento ao desenvolvimento e na cooperação internacional. No discurso divulgado pelo Planalto, Lula afirmou que, apesar de crises recorrentes desde 2003, “em nenhuma [cúpula] conseguimos construir respostas coletivas e duradouras” e criticou a combinação de “dogmas” de austeridade com o ressurgimento do protecionismo e do unilateralismo como “respostas falaciosas”.

Ao destacar a assimetria entre países ricos e o Sul Global, Lula apontou que “a distância que separa a prosperidade de Évian da realidade enfrentada por bilhões de pessoas no Sul Global não está diminuindo” e citou dados de concentração de renda e de insuficiência de recursos para metas globais: segundo o presidente, faltam US$ 4 trilhões por ano para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e, para acelerar o Acordo de Paris, seria necessário elevar o financiamento climático para ao menos US$ 1,3 trilhão.

O presidente também chamou atenção para a retração da cooperação financeira internacional, citando uma queda de 23% na Ajuda Oficial ao Desenvolvimento, além de cortes no financiamento de organismos e programas humanitários. “Os desafios se multiplicam, mas a solidariedade internacional encolhe”, afirmou, ao mencionar impactos diretos sobre alimentação, educação, proteção social e prevenção de doenças. Lula ainda contrapôs o volume de recursos destinados a conflitos à cifra de investimentos em desenvolvimento, lembrando que os gastos militares anuais somam quase US$ 3 trilhões.

O presidente destacou que países em desenvolvimento transferem US$ 1,4 trilhão por ano em serviço da dívida — valor que, segundo ele, é sete vezes superior à ajuda recebida — e defendeu mecanismos inovadores, como a troca de dívida por ações climáticas e por investimentos sociais, para ampliar o espaço fiscal de países vulneráveis. “O primeiro trilionário do mundo é mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial”, salientou Lula.

Entre iniciativas brasileiras, citou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, a Aliança Global contra a Fome e o apoio à proposta, no G20, de um Painel Internacional sobre Desigualdade. 

Além disso, Lula incluiu o combate a crimes transnacionais na agenda de desenvolvimento, defendendo que o enfrentamento ao narcotráfico seja articulado com o combate à lavagem de dinheiro e ao tráfico de armas, e mencionou a importância da cooperação institucional,  ao afirmar que “valorizar o diálogo e a cooperação institucional, inclusive por meio da INTERPOL, contribuirá para a localização de ativos e indivíduos vinculados a essas atividades criminosas”. 

Ao final, o presidente destacou o acesso a tecnologias de ponta, como a Inteligência Artificial, como um tema que não pode ficar fora das parcerias para o desenvolvimento. Para Lula, as transições energética e digital “não podem reproduzir padrões históricos que concentram benefícios econômicos em poucos atores”, e os países detentores de minerais críticos devem participar das etapas de maior valor agregado por meio da industrialização, da transferência de tecnologia e da formação de capacidades.

O que dizem os textos apresentados pelos líderes

Após as reuniões de trabalho dos líderes do G7 em Evian, foram divulgados documentos que dialogam com o eixo de “solidariedade internacional” e com temas mencionados por Lula. Na Declaração sobre Parcerias Internacionais Mutuamente Benéficas, o grupo defende atualizar a arquitetura de financiamento ao desenvolvimento, ampliar a mobilização de recursos domésticos, enfrentar vulnerabilidades de dívida (com mais previsibilidade e transparência) e mobilizar capital privado por meio de garantias e instrumentos de redução de risco, além de ressaltar a importância de cadeias de valor de minerais críticos com padrões elevados, transparência e criação de valor local.

Em paralelo, o G7 divulgou um chamado para uma resposta coordenada ao surto de Ebola (Bundibugyo) na RDC e em Uganda, defendendo a contenção por meio de rastreamento de contatos, testagem, vigilância e coordenação internacional para acelerar a disponibilidade de vacinas, diagnósticos e tratamentos — além de apelos para evitar a duplicação de esforços e reforçar a coerência das medidas de viagem, quarentena e isolamento.

Já no chamado sobre a luta contra o câncer, os líderes enfatizam cooperação científica, ampliação do acesso e interoperabilidade de dados (com foco em cânceres pediátricos e de jovens), aceleração de triagens e diagnóstico precoce, e uso responsável de tecnologias digitais e inteligência artificial para melhorar detecção, decisão clínica e alcance do cuidado.