A política externa dos Estados Unidos sempre oscilou entre o pragmatismo de Estado e as idiossincrasias de quem ocupa a Casa Branca. No atual mandato de Donald Trump, contudo, essa oscilação transformou-se em um vetor de instabilidade crônica, com reflexos particularmente preocupantes para a América Latina e, mais especificamente, para o Brasil. O presidente Trump, movido por um perfil personalista, errático e profundamente influenciado por facções da extrema direita, tem adotado um conjunto de medidas que, sob a aparência de retaliações técnicas ou legítimas defesas do interesse americano, visam, além de interesses econômicos indisfarçáveis, a um objetivo político claro: enfraquecer os governos de esquerda no continente e, em especial, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não é à toa nem coincidência que todas as medidas anunciadas contra o país ocorrem logo após pedidos da oposição brasileira e/ou visita de filhos do ex-presidente Bolsonaro à Casa Branca.
É necessário compreender, desde o início, que não se trata de uma animosidade pessoal de Trump em relação a Lula. Relatos e declarações públicas indicam que o presidente americano, em seus próprios termos, respeita e até admira a figura de Lula – talvez por enxergar nele um líder carismático, de origem sindical, que construiu pontes com o mercado. Contudo, no xadrez geopolítico trumpista, a simpatia pessoal não resiste à primazia da ideologia. A opção preferencial de Trump sempre recairá sobre um aliado situado em seu campo político e ideológico: a extrema direita nacionalista, antiglobalista e abertamente hostil ao socialismo democrático. Daí decorre uma inequação perigosa: para Trump, o Brasil ideal não é necessariamente aquele que respeita os compromissos multilaterais ou protege a Amazônia, mas aquele governado por um correligionário.
Essa lógica explica a abordagem contraditória e beligerante que o governo Trump tem dirigido ao Brasil. O presidente americano sabe que seu mandato coincidirá com o de um presidente brasileiro – após as eleições de outubro – por pelo menos dois anos (considerando que seu mandato vai até 2028 e do presidente brasileiro eleito ou reeleito vai de janeiro de 2027 a janeiro de 2031). Por isso, Trump tem agido para assegurar que o ocupante do Planalto nos anos seguintes seja um aliado seu. Para tanto, não hesita em minar as bases de sustentação do governo atual, adotando medidas que, embora pareçam isoladas, compõem um desenho coordenado de desgaste e constrangimento internacional, submisso aos interesses dos Estados Unidos.
A classificação do PCC e do CV como organizações terroristas: um ato de ingerência sem precedentes
O primeiro movimento inequívoco nessa direção foi a decisão do Departamento de Estado de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas globais. A medida, anunciada com estardalhaço, soa para qualquer analista minimamente informado como um despropósito jurídico e político. O terrorismo, no direito internacional, caracteriza-se por atos de violência sistemática contra civis ou instituições com fins políticos, religiosos ou ideológicos. O PCC e o CV, embora extremamente violentos e envolvidos com narcotráfico e milícias, são organizações criminosas de caráter predominantemente econômico, atuando no controle de territórios para o tráfico de drogas e outros mercados ilegais. Não possuem projeto de tomar o Estado, nem promovem ataques contra símbolos nacionais ou populações com motivação ideológica estrangeira.
Ao rotulá-los como terroristas, o governo Trump não combate o crime organizado – tarefa que cabe exclusivamente ao Brasil –, mas cria um pretexto para futuras intervenções. A classificação permite, por exemplo, que o Tesouro americano bloqueie ativos de supostos financiadores, e, mais grave, que se autorize operações de inteligência ou mesmo ações paramilitares contra esses grupos em território estrangeiro, sob a justificativa do combate ao terrorismo global. Na prática, Washington arma-se com um instrumento de pressão extraterritorial sobre o Brasil: se os Estados Unidos consideram que o governo brasileiro não está “cooperando” adequadamente, podem alegar ameaça terrorista para tomar medidas unilaterais, violando nossa soberania. É uma faca no Judiciário e do Executivo brasileiros, disfarçada de cooperação.
O embaixador de extrema direita: uma provocação ao protocolo
Outro sinal inequívoco da estratégia de Trump foi a indicação de um aliado de extrema direita, sem tradição diplomática, para a embaixada dos Estados Unidos em Brasília. A escolha de um entusiasta do movimento Make America Great Again (Maga), presidente da Câmara dos Deputados do Estado da Flórida, e que mantém laços com setores golpistas brasileiros não é um lapso de avaliação. É uma mensagem deliberada: Trump quer no Brasil um interlocutor ideológico, e não um representante técnico do Departamento de Estado. Esse embaixador funcionará como uma antena política do trumpismo dentro do país, dialogando prioritariamente com a oposição de direita, desprezando os canais oficiais do governo Lula e semeando cisões internas. Em momentos de crise, servirá de porta-voz não oficial das denúncias contra o atual governo – como já se viu em episódios anteriores, quando embaixadores americanos se reuniram com juízes e procuradores em Brasília. Trata-se de uma diplomacia às avessas, que menos representa os Estados Unidos e mais atua como uma ONG política em favor da derrota eleitoral do campo progressista.
As tarifas punitivas: protecionismo com verniz moral
O movimento mais recente e potencialmente danoso, contudo, é a decisão de impor tarifas punitivas sobre produtos brasileiros. O anúncio de uma sobretaxa de 25% para diversos itens, sob a alegação genérica de “desequilíbrio de variadas ordens”, e uma adicional de 12,5% com o fundamento de que o Brasil seria negligente no combate ao trabalho escravo e na proteção ambiental, favorecendo, ainda, o comércio com países que adotam tais práticas, configura um caso clássico de protecionismo travestido de justificativa moral. E a afirmação de que, ao fazer comércio com o Brasil, os Estados Unidos estariam prejudicando suas próprias empresas – e isso, num país onde direitos trabalhistas são exceção – é risível, quando comparado o grau de adesão de cada país às normas internacionais de proteção ao trabalho.
É preciso ser claro: o governo Lula fez do combate ao trabalho análogo à escravidão uma das bandeiras centrais de sua gestão. Nos últimos dois anos, foram resgatados milhares de trabalhadores em condições degradantes, criou-se o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, e o Brasil voltou a coordenar ações da OIT sobre o tema. A alegação de “negligência” é, para usar um termo técnico, uma impostura. Quanto ao meio ambiente, os números falam por si: o desmatamento na Amazônia caiu mais de 60% nos últimos 24 meses, o Brasil retomou o Fundo Amazônia com aportes internacionais, recriou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) e reassumiu protagonismo nas negociações climáticas globais, inclusive com a proposta de uma tributação internacional sobre os super-ricos para financiar a transição ecológica. Há, sim, enormes desafios – garimpo ilegal, queimadas criminosas e ausência de fiscalização em vastas áreas –, mas nenhum observador sério pode afirmar que o Brasil é “negligente” sob Lula. Se o fosse, o desmatamento estaria crescendo, como ocorreu no governo anterior, quando Trump e Jair Bolsonaro trocavam elogios. Naquela ocasião, porém, não houve tarifas ambientais.
Embora fatores comerciais e eleitorais domésticos possam explicar parte da decisão, a seletividade das justificativas adotadas, como as de que as tarifas têm relação com trabalho escravo ou desmatamento da Amazônia, e o contexto político, de eleição presidencial no Brasil e parlamentar nos Estados Unidos, sugerem que considerações ideológicas também podem ter desempenhado papel relevante. Indiscutivelmente, as medidas tem relação política. Trump quer impor custos ao governo brasileiro para alimentar a narrativa doméstica de que “o Brasil está isolado”, “os Estados Unidos estão punindo as más políticas de Lula” e, assim, influenciar o eleitorado brasileiro de 2026. Ao mesmo tempo, cria incentivos para que setores do agronegócio e da indústria nacional comecem a pressionar o Planalto por uma “aproximação com Washington” – o que, no código trumpista, significa um alinhamento político, não comercial.
Os limites da estratégia e a resposta brasileira
Essa estratégia, porém, tem riscos para os próprios Estados Unidos. Ao politizar a relação bilateral, Trump desgasta canais históricos de cooperação em temas sensíveis como combate ao tráfico de drogas, migração, energia limpa e estabilidade financeira. O Brasil é um dos maiores mercados para produtos americanos (fertilizantes, aeronaves, máquinas) e um parceiro indispensável em cadeias globais de alimentos e minérios. Tarifas punitivas provocarão retaliações inevitáveis – taxação sobre produtos americanos, como etanol, algodão e componentes eletrônicos, além de um afastamento estratégico de Brasília em direção a parceiros como China, União Europeia e países do Brics. O que Trump ganha com isso? Um teatro de confronto ideológico que agrada sua base, mas que isola Washington na própria região que considera seu quintal e aumenta um sentimento antiamericano no subcontinente.
Para o Brasil, o caminho é claro: não se deixar provocar, manter a serenidade institucional e responder no plano técnico e diplomático. O governo Lula pode acionar a Organização Mundial do Comércio contra as tarifas ambientais, demonstrando que há meios legais para contestar a proteção arbitrária, assim como utilizar a lei de reciprocidade na área comercial. Ao mesmo tempo, deve reforçar a comunicação sobre os avanços ambientais e trabalhistas, contrastando com a retórica trumpista. E, acima de tudo, não cair na armadilha de transformar a relação bilateral num ringue político. O Brasil é maior do que as idiossincrasias de um presidente americano e tem muito a oferecer ao mundo – inclusive como contraponto estável e democrático ao populismo autoritário que hoje ocupa a Casa Branca.
Conclusão
Donald Trump, com seu perfil instável e errático, e cercado por assessores de extrema direita, não esconde seu desejo de ver o Brasil governado por um aliado ideológico. Para tanto, tem agido de forma consistente: classifica facções criminosas como terroristas para criar instrumentos de intervenção, nomeia um embaixador militante para desrespeitar o governo constituído e impõe tarifas punitivas sob pretextos falsos de negligência ambiental e trabalhista. Os efeitos políticos dessas medidas acabam desgastando a atual gestão, o que mostra que o alvo não é a economia brasileira, mas a legitimidade do governo Lula. Cabe ao Brasil demonstrar maturidade: reconhecer o jogo, mas recusar-se a jogá-lo nos termos do adversário. O tempo, os fatos e os resultados sustentáveis da política ambiental e social brasileira serão os argumentos mais eloquentes. E, no fim do mandato de Trump, talvez sobreviva apenas a constatação de que tentar enfraquecer o Brasil por capricho ideológico é um erro estratégico que Washington pagará caro.
Jornalista, analista e consultor político, mestre em Políticas Públicas e Governo pela FGV. Sócio-diretor das empresas “Consillium Soluções Institucionais e Governamentais” e “Diálogo Institucional Assessoria e Análise de Políticas Públicas”, foi diretor de Documentação do Diap. É membro do Cdess (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável) da Presidência da República – Conselhão