
A notícia mais sensacionalista do que polêmica, publicada por jornais como Extra, O Tempo e Metrópole, no dia 16 de março de 2026, apontando que o novo aiatolá Mojtaba Khamenei pode ser gay, segundo a inteligência de espionagem e segurança estadunidense. Essa manchete fez políticos como Trump e Eduardo Bolsonaro rirem e caçoarem desse possível levantamento.
Acontece que, esse comportamento sintomático de rir da sexualidade do novo líder do Irã aponta uma estratégia velha na extrema direita e, essa discussão é que precisa de uma análise mais detalhada, do que a possível orientação sexual da liderança do Irã.
Ao longo da história, desde o levante do movimento na luta pelos direitos civis de mulheres lésbicas, homens gays, pessoas bissexuais, travestis, transexuais, intersexo, assexuais, queergender, pansexuais, polissexuais e com outras identidades de gênero e/ou orientações sexuais não-cisheteronormativas (LGBTI+), que aconteceu em 28 de junho de 1969 e, no Brasil passou a se organizar a partir do final da década de 70, em plena ditadura militar; a extrema-direita sempre usou diversas estratégias para defender o moralismo como régua social para produção de políticas públicas e de Estado que validem a desigualdade. Quero, neste artigo de opinião, trazer esse histórico, para termos elementos concretos e conscientes para rebater esse tipo de discurso, sem que caiamos na jogada de tratar como jocoso e, ao mesmo tempo, termos o posicionamento coerente com uma proposta que de fato seja emancipacionista para a população LGBTI+ no Brasil e no mundo.
A estratégia religiosa: sexualidade como pecado
Essa estratégia é a mais antiga e, ainda uma das mais utilizadas. A compreensão de que pessoas LGBTI+ desviam-se do plano de Deus e, portanto, devem ser exterminadas ainda é uma das mais utilizadas.
A criminalização da homossexualidade e transexualidade ainda persiste em 64 países, em 10 é com pena de morte. O Irã é um dos países que criminaliza a homossexualidade com pena de morte; é importante lembrar que os países em que há esse tipo de penalidade contra pessoas LGBTI+ seguem um modelo de governo em que há um conselho religioso islâmico que coordena as ações políticas de alguma liderança política suprema, como é o caso dos aiatolás. Além do Irã, é penalizado com morte países como Mauritânia, Nigéria, Somália, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Iêmen, Afeganistão e Paquistão.
No Brasil e no Estados Unidos, bem como em toda o continente americano, apesar da maioria dos países não criminalizar as identidades LGBTI+, as bancadas ligadas à setores cristãos, como a bancada evangélica no parlamento brasileiro, buscam dificultar o avanço de políticas para a população LGBTI+ e, até chegam a demonizar a comunidade LGBTI+, mesmo com declarações infundadas, como houve com a atual senadora Damares Alves (Republicanos/DF), que em 2018, em uma reunião com pais, em uma igreja apontou que “o cão [diabo] é bem articulado” ao sugerir que personagens de desenho infantis fossem lésbicas e estariam influenciando meninas a serem também”.
É importante ressaltar, ainda, que até o Código Penal do Império brasileiro, em 1830, era crime de “sodomia”, ser LGBTI+ e, a inquisição, enquanto aparato religiosos católico e imperial português matou pessoas na, então, colônia brasileira, acusadas de bruxaria, satanismo e sodomia, como houve com o indígena Tibira, em 1613. O principal motivo de morte de pessoas LGBTI+ no Brasil segue sendo por motivos religiosos, pois assassinos de pessoas LGBTI+ acreditam estar “salvando o Brasil da decadência humana”, quando um dos principais mandamentos das religiões abraâmicas (cristianismo, judaísmo e islamismo) é de não matar.
O eugenismo científico: a anti-naturalidade, segundo a “ciência”:
A chamada Revolução Científica, que acontece por volta do século XVII tenta superar o discurso religioso, como uma tentativa de superar o pensamento feudal; o que vai culminar em um acúmulo de conhecimentos e epistemologias que vão ser chamadas de iluministas, no século XVIII e, que por sua vez, vão inspirar as ideias das revoluções burguesas do século XIX, como a Revolução Francesa.
A compreensão científica desse período, que se estende do século XVII e que ainda permeia diversos centros de pesquisa, é uma lógica biomédica, na qual o sujeito é explicado apenas seu funcionamento biológico; essa lógica fundamentou teorias como o darwinismo social, a eugenia, os manicômios e a compreensão de que a sexualidade LGBTI+ não era natural, pois não era capaz de reproduzir-se, como medida, inicia-se outro comportamento em nossa sociedade, como as terapias de reorientação sexual – a chamada “cura gay”. Programas como esse ainda acontecem em muitos países no mundo, inclusive são ofertados por médicos e psicólogos em países europeus e no Estados Unidos.
A estratégia que gira em torno do jocoso e do absurdo:
A leitura hetero-cisnormativa, por anos, continua por apresentar duas leituras sobre a cultura e a socialização de pessoas LGBTI+: por hora nos vê como algo jocoso, caricato e sem uma história enquanto indivíduos, por vezes, esse discurso é alimentado por pessoas que fazem parte dessa população, numa busca por aceitação ou validação para estar em alguns espaços, como foi o caso do maquiador de Michelle Bolsonaro, ou até do movimento Gays com Bolsonaro.
Do outro lado, o discurso que perpetua é o de medo e pânico moral, que se utiliza de narrativas religiosas e pseudocientíficas, para explicar um suposto mal que existe no movimento LGBTI+, como foi o caso do “kit gay”, nas eleições de 2018; ou até mesmo a narrativa de que gays transmitiam HIV/AIDS, como a grande mídia brasileira divulgava nos anos de 1990.
Acontece que, a reação de Trump e Bolsonaro sobre uma narrativa levantada pela inteligência estadunidense não denuncia a LGBTfobia no Irã, nem mesmo se preocupa com os direitos LGBTI+ da população iraniana, apenas evidencia que setores ligados ao neoliberalismo e ao imperialismo estadunidense não se preocupam com a população e nem com a soberania dos povos, pois sua sanha pelo lucro é maior do que o respeito à livre orientação sexual e identidade de gênero.
Nossa tática política deve ser popular, mas não pode se abster de uma estratégia maior
Enquanto população LGBTI+ brasileira, precisamos ter a consciência de que nossa luta pelos direitos LGBTI+ em todo o mundo precisa partir da luta organizada do nosso povo. O Brasil tem seu modelo de construir movimento LGBTI+ que, pode sim diferenciar-se de outros países, pelos contextos históricos que se apresentam aqui; mas não deve ser da nossa tática política assumir com ironia ou escárnio uma notícia, que a princípio não tem confirmações oficiais sobre o líder iraniano.
Esse posicionamento não nos coloca como aliados ao Irã, nem mesmo nos torna coniventes com as atrocidades que acontecem com nossas companheiras e nossos companheiros LGBTI+ iranianos; pelo contrário, nossa solidariedade deve abrir diálogo para que a população LGBTI+ iraniana seja atendida pelo Brasil, ao mesmo que devemos ajudar a construir uma insurgência na luta pela superação da LGBTfobia no Irã e em todo o mundo.
É importante observarmos com criticidade a piada que se apresenta, pois ela vem com a mesma ironia e maldade que pessoas hétero-cis nos fazem quando querem ridicularizar ou testar nossa sexualidade. Ela não denuncia a LGBTfobia que existe em um país governado em um regime religioso, ela apenas reforça essa mesma opressão aliada à xenofobia que naturaliza a morte de civis árabes, seja no Irã, seja na Palestina ou em qualquer lugar onde o Estados Unidos tentou se apossar na sua sana pelo acúmulo de riqueza.
Inclusive, é importante considerarmos que o Estados Unidos não conseguiu resolver seus próprios problemas com a população LGBTI+ de seu país, pois quando Trump assume o governo impede que pessoas LGBTI+ tenham acesso aos cargos de chefia no exército, revoga direitos LGBTI+ conquistado em diversos países, estimula a caça de travestis e transexuais por grupos de extermínios como o ICE, ridiculariza artistas que apoiam a agenda LGBTI+ e aponta que a “agenda woke” envergonha a imagem do Estados Unidos no mundo, incentivando que empresas estadunidenses terminassem seus programas de diversidade e inclusão. Esses feitos foram amplamente apoiados pela direita latino-americana, como Milei na Argentina e a família Bolsonaro no Brasil.
A luta do Irã é nossa aliada na pauta da soberania dos povos, e de uma compreensão que as riquezas estratégicas daquele país devem ser exploradas com aquele país e negociadas com o mundo na base do diálogo e respeito; pois como comunistas entendemos que a cooperação e autodeterminação dos povos é fundamental para construir um mundo sem exploração, mas devemos sim, ter um posicionamento crítico às políticas governamentais e estatais que o Irã mantém com a população LGBTI+ e, apresentar uma saída concreta para que a população organizada conquiste seus direitos, no Irã ou em qualquer lugar do mundo.
Jonas Marssaro é psicólogo, militante do PCdoB São Paulo, conselheiro no Conselho Municipal de Saúde de São Paulo e diretor da União Nacional LGBT (UNALGBT)
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