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A luta histórica dos operários do ABC Paulista

Operários do ABC Paulista durante greve no anos 1970. Imagem do documentário "Greve" (1979), de João Batista Andrade.

Nos anos 1970, operários do ABC desafiaram a ditadura com greves massivas, conquistando 63% de reajuste. Hoje, frente à precarização do trabalho e ameaças golpistas, urge retomar a combatividade operária por uma nova greve geral.

Redação SP


É uma realidade dos trabalhadores das grandes indústrias das cidades do ABC Paulista ouvir nos corredores das fábricas, nas conversas da pausa do almoço, que a condição de trabalho está ficando pior: menos opções de empregos, trabalhos mal remunerados, jornadas cada vez mais exaustivas – como é o caso da jornada 12×36 e a escala 6×1 –, além da ameaça diária do desemprego.

É dito que os trabalhadores podem fazer pouco frente a essa situação, e impera o sentimento de descrença e impotência. Parte dessa perspectiva vêm de sindicatos que abandonaram a luta política, se afastaram da base e institucionalizaram a luta. Mas será que sempre foi assim? É necessário resgatar o passado para saber a verdade, entender o presente, e intervir no futuro.

Exemplo de combatividade durante a ditadura

Em 1978, a ditadura militar fascista (1964-1985) era o regime vigente no país, período caracterizado por grande repressão e violência, restrições dos direitos civis e liberdades individuais. As condições de trabalho eram marcadas pela exploração da mão de obra, pelo arrocho salarial e pela repressão aos sindicatos, enfraquecendo direitos trabalhistas e reduzindo o poder de compra dos trabalhadores.

Porém, mesmo em um cenário tão restrito, esses foram anos em que ocorreram grandes levantes dos operários: em maio de 1978, por exemplo, houve a primeira grande paralisação na Scania de São Bernardo do Campo (SP), seguida por greves em 27 outras empresas que seguiram o exemplo desses ferramenteiros, que reivindicavam 20% de aumento salarial e liberdade sindical.

Inauguraram, a partir dessa luta, uma nova política nos sindicatos da região, que passaram a defender a independência frente ao governo, firmando os antagonismos de classes e combatividade como características primordiais. Foi a partir dessas condições que em 1979, deflagrou-se em assembleia dos três sindicatos dos metalúrgicos do ABC uma grande greve geral, com protagonismo de impressionantes 200 mil trabalhadores e trabalhadoras, que paralisaram por completo a produção das principais indústrias automobilísticas da região (Volkswagen, Ford, Mercedes-Benz e Scania), reivindicando um reajuste salarial de 78,1%.

A greve, mesmo enfrentando forte repressão e intervenção federal, conquistou ao seu final um reajuste de 63%, a maior conquista salarial daquela época, além de transformar o ABC paulista num centro político do país, tendo um papel crucial na resistência e enfraquecimento da ditadura no Brasil. Nas décadas seguintes, ainda houve uma série de lutas dos operários junto ao sindicato, como a conquista da PLR (Participação nos Lucros e Resultados) a partir de 1995 e extensas campanhas salariais que firmaram o piso salarial da categoria acima da média comparado a todo país e outros setores.

Olhar para o passado para transformar o presente e o futuro

Como já dizia Karl Marx “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Seis décadas após o golpe militar fascista, organizações fascistas, em conluio com a alta cúpula das Forças Armadas, organizou um plano para dar um golpe de Estado, tentando impor novamente um regime militar ditatorial, aprofundando a precarização do trabalho, com a continuação da retirada de direitos já provocada pela reforma trabalhista – como o aumento das terceirizações e da informalidade, a autorização de demissões em massa, horas extras não remuneradas e jornadas de trabalho extenuantes como a já citada 6×1.

O aprofundamento da política neoliberal, antipovo e contra a soberania nacional, alinhada aos interesses dos capitalistas, fortalece também a desindustrialização da região. Exemplo disso foi a saída da Ford em 2019, após 52 anos de produção, deixando de empregar 3 mil trabalhadores. Outra evidência se expressou nas últimas eleições municipais, com o candidato apoiado por Bolsonaro defendendo que São Bernardo do Campo deveria se tornar um polo logístico e abandonar a política de investimentos nas indústrias.

Diante de um cenário de retrocessos, perdas de direitos e precarizações cada vez mais intensas das condições de trabalho, é urgente que a classe operária retome sua história de lutas e conquistas. A experiência dos metalúrgicos do ABC que enfrentaram com coragem a repressão brutal da ditadura militar nos anos 1970 mostra que só a organização dos trabalhadores pode restaurar nos sindicatos o ímpeto para a luta e combatividade.

É preciso também reconstruir a confiança nos sindicatos a partir da base através de campanhas de sindicalização e preparar o caminho para uma nova greve geral que enterre de vez a desumana escala 6×1, garanta a prisão de Bolsonaro e dos generais fascistas e reivindique um aumento de 100% no salário-mínimo. Cabe aos trabalhadores honrar a memória de suas lutas passadas, defendendo o presente e construindo um sistema livre da exploração do homem pelo homem, o sistema socialista.