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A ONU e seus estreitos valores

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A ONU é uma instituição de um mundo que não existe mais. Continua de pé, cercada de protocolo, solenidade e linguagem jurídica, mas já sem correspondência com a realidade histórica que um dia lhe deu sentido. O nome, o edifício permaneceram. Permanecem as sessões, os apelos, os comunicados, a coreografia diplomática. O que se revelou por completo foi sua incapacidade seletiva de agir como instância efetiva diante da violência produzida pelos centros reais do poder.

Gaza empurrou isso para diante dos olhos do mundo. Meses de massacre, destruição sistemática, fome, cerco, morte em escala aberta, e a organização reduzida a fórmulas vazias, apelos sem consequência, administrações do horror em linguagem protocolar. Antes disso, Iraque, Síria e Afeganistão já haviam deixado para trás um rastro longo de ruína, ocupação e devastação social. A ONU acompanhou tudo de perto e não alterou nada de essencial. Sua presença foi se tornando cada vez mais a forma respeitável da impotência.

A velha novidade: o ataque ao Irã trouxe de volta uma cena conhecida. A violência mal se instala e já começa ao redor dela o trabalho de contenção verbal, a escolha cuidadosa das palavras, o esforço para impedir que a gravidade transborde. Em pouco tempo, o que deveria desorganizar a ordem mundial já aparece cercado pela linguagem cautelosa que se permite seguir falando de equilíbrio em meio à destruição.

Quando o Irã recorre ao fechamento do Estreito de Ormuz para defender a própria sobrevivência, a velocidade muda. Voltam o alarme global, a energia diplomática, a súbita gravidade da crise, a disposição para vestir de linguagem jurídica uma resposta internacional dura. A velha engrenagem, tão lenta e tão frouxa diante da carnificina prolongada, reencontra movimento quando a crise toca a navegação, o petróleo, os fluxos comerciais, a circulação de energia.

A paz que reaparece aí já vem definida pela hierarquia do mundo. O centro da crise se desloca para a navegação, para o petróleo, para os fluxos comerciais, para a estabilidade requerida pelas potências. A devastação humana segue acumulada no fundo da cena, convertida em rotina diplomática, nota protocolar, indignação sem consequência. Em Ormuz, essa seletividade apareceu em estado quase puro.

E a ilustração recente disso é quase didática na sua brutalidade. Enquanto Gaza seguia soterrada sob massacre e o ataque ao Irã era absorvido pela gramática cautelosa das chancelarias, o Conselho de Segurança passou a discutir uma resolução voltada à proteção da navegação em Ormuz. A primeira redação recorria à fórmula clássica de autorização de “todos os meios necessários”. Depois veio uma versão atenuada, falando em “meios defensivos necessários”. A mudança de linguagem importa, mas não altera o essencial. Quando a crise alcança uma das principais artérias do petróleo e do comércio mundial, a ONU volta a ser pensada como instrumento de ação concreta. A contenção falha diante da carnificina. A prontidão reaparece diante da ameaça aos fluxos. Aí a hierarquia deixa de ser pano de fundo e passa a organizar abertamente a cena.

O esgotamento da ONU aparece inteiro nesse movimento. A instituição atravessa matanças prolongadas em estado de torpor e recupera função quando entram em risco os circuitos estratégicos da ordem mundial. O problema já não está apenas na distância entre discurso e prática. Está na naturalidade com que essa desigualdade opera. Povos podem ser esmagados, cidades podem ser arrasadas, gerações podem ser mutiladas, e a máquina internacional continua girando em falso. Mexa nas artérias materiais do sistema, e a linguagem da paz volta a ganhar voz, urgência e ameaça.

Como dizia a minha saudosa mãe: dá uma gastura. Eu, menos elegante na coloquialidade que minha mãe, digo: tenho nojo.

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