Como encerramento da Conferência Internacional “A saída é pela Esquerda – Good Night, Far Right” promovida pela Fundação Rosa Luxemburgo, dois seminários foram realizados no sábado (16), no auditório Carlito Maia, na sede do MST em São Paulo.
Foram registradas representações de lideranças políticas e pesquisadores de 26 países. A edição brasileira é a segunda a ser realizada, a primeira foi no ano passado em Berlim.
A primeira mesa teve como tema “A disputa global contra a extrema direita” com a participação de Clara Bünger, deputada pelo partido Die Linke (Alemanha); Catarina Martins, eurodeputada pelo Bloco de Esquerda (Portugal); Imad Toma, representante do Partido Popular Palestino (Palestina); e Ashik Siddique, membro dos Socialistas Democráticos da América (EUA).
O segundo painel intitulado “Imperialismo e soberania na América Latina” contou com a participação de Abel Prieto, presidente da Casa de las Américas (Cuba); Jeannette Jara, candidata comunista à presidência do Chile; Valter Pomar, dirigente do Partido dos Trabalhadores e diretor da Cooperação Internacional da Fundação Perseu Abramo (Brasil); Donka Atanassova Lakimova, vereadora em Bogotá e integrante do Pacto Histórico (Colômbia); e Érika Hilton, deputada federal pelo PSOL (Brasil).
Contexto da América Latina
Valter Pomar, diretor da Fundação Perseu Abramo, foi categórico ao dizer que “nós vamos ganhar essas eleições”, em referência ao pleito presidencial brasileiro de outubro. E completou “mas o nosso problema central é transformar o Brasil”.
Ao analisar o cenário de crise, Pomar lembrou que além das esferas econômica e política, há também a dimensão cultural em disputa. “Grande parte da humanidade não acredita na possibilidade de um mundo melhor”, afirmou o professor. Ele pontuou que, nesse sentido, é preciso que a esquerda possa ser a porta-voz de um anúncio de transformações para um futuro positivo concreto.
“Eles sabem muito bem da dimensão global dessa batalha, não à toa que a candidatura de extrema direita do Brasil foi lançada na CPAC [Conferência de Ação Política Conservadora]”, lembra Pomar, que destacou o papel da América Latina no tabuleiro da geopolítica atual: “é sabido que na nossa região estão sendo travadas batalhas ideológicas decisivas e por isso há tanta interferência aqui”.
“Temos que mudar a natureza social dos nossos países, acabar com a desigualdade tem que estar no horizonte, a democracia tem que ser popular de verdade, não uma democracia liberal. Precisamos pensar em outro tipo de desenvolvimentismo, apostar mais na integração regional para combater o imperialismo , atuar na nossa região enquanto um dos pólos do mundo”, disse Valter Pomar.
Com uma fala que destacou a importância de valorizar a pluralidade dentro da luta contra a extrema direita, a deputada federal Érika Hilton (PSOL) ressaltou que “o facismo não é abstrato para nós, ele atinge diretamente nossas vidas, o nosso cotidiano”, apontando o fenômeno global de aumento da violência contra mulheres cis e trans, e também a população LGBT+.
“As mulheres são ponta de lança nas lutas sociais, desde sempre, estamos em todas as batalhas na linha de frente”, destacou Hilton. “É importante educar a sociedade para valorizar a perspectiva feminina, temos que gritar para fora no campo político, mas também para dentro nas nossas casas, ambientes de trabalho”, comenta.
Para a deputada federal, a urgência em pautar o tema das mulheres é grande porque “estamos atrasadas em uma série de direitos, inclusive ao direito de ter nossa dignidade”. Nesse sentido, uma das pautas que Hilton colocou como prioritárias é o fim da jornada de trabalho em escala 6×1, um tema que, apesar de histórico no movimento sindical, é considerado ainda mais importante para as mulheres, que realizam dupla, triplas e até mesmo quádruplas jornadas de trabalho no equilíbrio entre vida profissional e doméstica.
Integrante do Pacto Histórico, da Colômbia, Donka Lakimova lembrou que daqui poucos dias irá ocorrer a eleição presidencial no país (em 31 de maio) e destacou a importância da vitória da esquerda para a continuidade de um projeto progressista no continente.
A vereadora de Bogotá falou sobre como as elites familiares colombianas atrapalharam a ampliação do desenvolvimento produtivo e ressaltou como extremamente positivo o modelo do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) na maneira de organização da luta.
A candidata à presidência no Chile, Jeannette Jara trouxe como reflexão o uso do medo como discurso da extrema direita para cativar votos da população, atuação vista durante a campanha do presidente eleito José Antônio Kast.
A fala da candidata comunista abordou principalmente o viés da comunicação e na relação entre o discurso mais raso dos adversários, enquanto muitas vezes a esquerda acaba vista como prolixa, já que o diálogo com os eleitores é mais voltado ao didatismo e menos ao emocional.
“A população segue com muita angústia em relação às incertezas do mundo, temos que nos responsabilizar também por esse olhar cultural. As pessoas querem respostas claras”, afirmou Jara.
Apesar do contexto bastante delicado ao qual Cuba atravessa, Abel Prieto, presidente da Casa das Américas, foi capaz de trazer uma perspectiva de esperança a partir do exemplo da resistência cubana. Ele defendeu a articulação global contra o imperialismo e destacou momentos recentes em que o povo ocupou as ruas em defesa de causas justas, como a marcha de 1 de maio em Havana e os protestos nos Estados Unidos contra o ICE, braço armado anti-imigração.
Prieto disse que a extrema direita se apropriou do sentimento de rebeldia: “ser rebelde hoje é ser de extrema direita”, comentou. Com relação ao tema das redes sociais, o militante cubano citou Fidel Castro e disse que a esquerda não pode entrar no jogo das fake news, “mentir jamais”. E que é possível construir uma América Latina como uma “grande pátria sonhada por Bolívar, José Martí, Fidel e Chávez”.
O presidente da Fundação Perseu Abramo, Brenno Almeida, que participou da conferência, explica que “o evento se destaca por reafirmar valores que são muito essenciais para nós. A saída para crise é coletiva, é internacional, e foram colocadas reflexões de elementos importantes como as alternativas econômicas e o combate à extrema direita no mundo”.
Disputa global
Com representações europeias, da Palestina e dos Estados Unidos, a mesa “A disputa global contra a extrema direita” abordou o avanço da participação conservadora nos parlamentos europeus, o genocídio palestino e a experiência de implantação de políticas públicas de Zohan Mamdani, prefeito progressista em Nova Iorque.
Clara Bünger, deputada pelo partido alemão Die Linke destacou que o conceito de hegemonia cultural, cunhado por Antonio Gramsci, é bastante estudado pela direita na construção de um imaginário político contemporâneo. “Os fascistas promovem uma campanha de medo e temos que mostrar que nós não temos medo”, comentou Bünger. A parlamentar alemã relatou que o programa de governo da oposição no país tem como maior capítulo o que é destinado aos programas de deportação em massa de imigrantes e prisão domiciliar para refugiados.
Ainda sobre o continente europeu, Catarina Martins, eurodeputada pelo Bloco de Esquerda, de Portugal, apontou que não há nenhum país imune ao avanço da extrema direita atualmente, já que, mesmo quando a direita moderada governa, há o apoio de uma ideologia mais radical, e que a Europa está cada vez mais militarizada, desde a guerra na Ucrânia, com a comercialização de armas como moeda de troca política. Para a eurodeputada “a esquerda vence o debate quando o assunto é a vida concreta das pessoas”.
“O nosso inimigo não vai parar” opinou Imad Toma, representante do Partido Popular Palestino. Em relato sobre a expulsão da população na Cisjordânia, que segue com o território atravessado por assentamentos israelenses, Toma abordou a relação entre as corporações produtoras de armamento e o governo de Netanyahu.
“A nossa oposição é brutal, então a nossa luta precisa ser radical. Temos que combater os movimentos sionistas, as ideias de extrema direita, a supremacia de um só povo, o nosso papel como palestinos e esquerda global é lutar contra toda a movimentação reacionária”, disse o militante palestino.
Membro do DSA, Socialistas Democráticos da América, Ashik Siddique destacou como positivo o convite para a participação do partido no evento e relatou as dificuldades de atuação do DSA nos Estados Unidos, país considerado o centro do imperialismo.
“A propaganda contra o socialismo é muito intensa, desde a Guerra Fria, nossa sociedade é bastante alienada nesse sentido, as pessoas ficam muito restritas ao que circula no âmbito familiar e do ambiente de trabalho, então o discurso da direita pega mais fácil”, contou.
Ashik Siddique trouxe exemplos da gestão de Mamdani em NY e da luta para avançar na organização partidária.“Estamos focados em tornar a vida dos nova-iorquinos melhor, apostamos nas demandas universais, sem bode expiatórios. Além disso, o partido trabalha para a reconstrução de uma classe trabalhadora nos Estados Unidos, estamos em movimento em todo o país”, relatou.