Da corrida da OMS por tratamentos contra o Ebola na República Democrática do Congo às negociações frágeis entre EUA e Irã pelo Estreito de Ormuz, a semana concentrou emergências em diferentes regiões do planeta. A combinação de surtos sanitários, desastres naturais, calor extremo e tensão militar voltou a expor a dificuldade de resposta coordenada diante de crises que atravessam fronteiras.
Na África Central, a Organização Mundial da Saúde anunciou testes com dois antivirais contra a rara cepa Bundibugyo do Ebola, em meio a um surto que já ultrapassou mil casos na República Democrática do Congo. Na América do Sul, a Venezuela ainda contabiliza mortos e desaparecidos após dois terremotos de grande magnitude atingirem o país, com impacto mais severo no estado de La Guaira.
A semana também foi marcada pela disputa em torno do Estreito de Ormuz, rota estratégica para o petróleo e o gás natural liquefeito, em meio a conversas entre Estados Unidos e Irã e novos episódios de escalada militar. Na Europa, uma onda de calor histórica deixou milhares de mortos, sobrecarregou necrotérios e reforçou o alerta de cientistas e da OMS sobre os efeitos das mudanças climáticas no continente que mais aquece no planeta.
OMS anuncia testes de dois possíveis tratamentos contra o Ebola na República Democrática do Congo
Com mais de mil casos confirmados, estudo vai avaliar antivirais contra a cepa Bundibugyo, ainda sem tratamento ou vacina aprovados
Com os casos de Ebola ultrapassando a marca de 1.000 na República Democrática do Congo (RDC), a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou o início de testes com dois antivirais para combater o surto da rara cepa Bundibugyo do vírus. Os testes começam na próxima semana para avaliar se os medicamentos, isolados ou em combinação, podem reduzir a mortalidade entre os pacientes. Atualmente, não há tratamento ou vacina aprovados contra a doença.
Segundo o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, o estudo será conduzido por um consórcio de parceiros, incluindo o Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica da RDC, a ALIMA, a Universidade de Oxford e a própria OMS. Ele destacou o trabalho junto às comunidades para informá-las e envolvê-las no processo, garantindo o acesso aos tratamentos caso se mostrem seguros e eficazes, e agradeceu aos Estados Unidos e à farmacêutica Gilead Sciences pela doação das doses necessárias.
Desde que o surto foi declarado, em 15 de maio, foram confirmados 1.048 casos e 277 mortes no país. Os testes, que devem contar com a participação de 500 a 1.000 pessoas, terão início em um hospital da província de Ituri, no nordeste do Congo, região onde se concentra a grande maioria dos casos detectados.
EUA e Irã iniciam conversas sobre o Estreito de Ormuz, mas acordo segue por um fio
Rota estratégica para o petróleo e o gás natural liquefeito permanece no centro da disputa entre Washington e Teerã
O Irã anunciou nesta segunda-feira (29) a primeira reunião do Comitê Conjunto sobre o Estreito de Ormuz, realizada em Omã, desde a assinatura do acordo-quadro com os Estados Unidos, no início de junho. O anúncio ocorreu após a imprensa norte-americana noticiar que Washington e Teerã teriam concordado em cessar os ataques e retomar as negociações no Catar. A informação, no entanto, foi marcada por desencontros: enquanto o vice-chanceler iraniano afirmou que as conversas técnicas em Doha “não estão confirmadas”, Trump declarou que a reunião “acontecerá amanhã”.
O entendimento de 60 dias, firmado em 17 de junho, prevê negociar o programa nuclear iraniano, o fim das sanções e o status de longo prazo do estreito, por onde passava um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo antes da guerra. A rota segue como a principal moeda de pressão de Teerã, que a bloqueou em fevereiro, elevando os preços da energia por mais de quatro meses.
As tensões voltaram a escalar no fim de semana. O CENTCOM atacou dez alvos militares iranianos em resposta a uma ofensiva de drones contra um petroleiro, e o Irã retaliou com ataques a bases norte-americanas no Kuwait e no Bahrein. O impasse central permanece na rota de navegação, com os EUA e o Irã divergindo sobre o corredor de passagem, enquanto Trump reitera a ameaça de ação militar total.
Número de mortos nos terremotos da Venezuela se aproxima de 1.500, com dezenas de milhares ainda desaparecidos
Tremores de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram o país e deixaram La Guaira como a região mais afetada
O número de mortos nos dois terremotos que atingiram a Venezuela na última quarta-feira, 24, se aproximou de 1.500 neste domingo, 28, enquanto equipes de resgate correm contra o tempo para encontrar sobreviventes entre as cerca de 50 mil pessoas ainda desaparecidas. O estado de La Guaira, a cerca de 40 km ao norte de Caracas, foi o mais atingido, com 774 edifícios desabados, 3.150 feridos e 12.721 desabrigados.
A presidente interina, Delcy Rodríguez, que assumiu o cargo após seu antecessor ser sequestrado em uma operação dos EUA em janeiro, afirmou que os esforços de resgate continuam. Ela anunciou a suspensão das aulas por mais uma semana e comunicou o restabelecimento de 75% do fornecimento de energia em La Guaira. Famílias e voluntários passaram dias retirando vítimas dos escombros antes da chegada de mais de 2.600 socorristas estrangeiros. A população tem manifestado queixas quanto à escassez de equipamentos pesados e à limitada presença oficial.
Os tremores, de magnitude 7,2 e 7,5, podem estar entre os mais mortais da América Latina no último século. O Serviço Geológico dos EUA estima a possibilidade de mais de 10 mil mortes. Apesar de resgates pontuais com vida, inclusive de crianças, a janela crítica de 72 horas já se encerrou.
Onda de calor histórica deixa milhares de mortos na Europa e sobrecarrega necrotérios em Paris
França registrou forte aumento de mortes durante os dias mais quentes, enquanto novos recordes de temperatura avançaram pelo continente
A França começou a contabilizar o custo humano da onda de calor histórica que atingiu o país a partir de meados de junho, com a agência nacional de saúde pública, Santé Publique France, estimando ao menos 1.000 mortes adicionais nos três dias mais intensos. Segundo a France 24, as mortes diárias superaram 1.200 na última quarta-feira, dia mais quente já registrado no país, com 40,3°C em Paris, e chegaram a mais de 1.400 na quinta e na sexta. Cerca de 85% das vítimas tinham 65 anos ou mais, com forte aumento, de cerca de 40%, das mortes em casa, sobretudo entre idosos que viviam isolados na região parisiense.
A tragédia sobrecarregou os necrotérios da capital. O proprietário de uma funerária próxima ao aeroporto de Orly, Zouhaeir Hertelli, relatou à France 24 ter recebido centenas de ligações e ter recusado pedidos, com todas as 32 vagas de sua câmara fria ocupadas. Corpos chegaram a ser transportados para localidades até 80 km de Paris. A diretora funerária Véronique Bertrand alertou que as lições do calor de 2003, quando 15 mil pessoas morreram na França, parecem ter sido esquecidas, e defendeu o retorno da solidariedade com os vizinhos idosos.
Conforme o Irish Times, o calor extremo avançou para o leste do continente durante o fim de semana, com novos recordes. A Polônia superou sua máxima de 1921 ao registrar 40,5°C; a Tchéquia chegou a 41,1°C; e a Alemanha bateu recorde diário pelo terceiro dia consecutivo, com 41,7°C. O calor causou danos às ferrovias, suspendeu o tráfego de trens e bondes, e a polícia de Berlim usou canhões d’água para refrescar a população.
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, advertiu que a Europa é o continente que mais aquece no planeta, ao dobro da média global, e que cerca de 150 milhões de pessoas vivem sob calor extremo. Cientistas afirmam que a onda de calor é um resultado direto das mudanças climáticas causadas pelo homem.
As informações são dos sites Euronews, France 24, Irish Times, Africa News e agências