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A semana no mundo: escalada das tensões no Oriente Médio, calor extremo na Europa e a nova liderança irlandesa na UE

O cenário internacional desta semana é marcado por intensos desafios geopolíticos e ambientais, que vão desde a escalada de tensões no Estreito de Ormuz, após declarações de Donald Trump, até os impactos devastadores de uma onda de calor sem precedentes na Europa. Paralelamente, enquanto a União Europeia busca equilibrar novas estratégias de solidariedade comercial frente à China sob a recém-assumida presidência irlandesa, vozes de resistência e identidade surgem na Cisjordânia, onde comunidades palestinas reafirmam sua presença em meio ao avanço dos conflitos regionais.

UE desenvolve “instrumento de solidariedade” em meio a divergências comerciais com a China; especialista chinês alerta para incertezas

A União Europeia (UE) estaria desenvolvendo um “instrumento de solidariedade” para apoiar empresas que diversifiquem o fornecimento de insumos críticos para além da China e amortecer o impacto de eventuais retaliações em caso de conflito comercial, segundo reportagem da Bloomberg publicada no sábado. Elaborado pelo braço executivo do bloco, o mecanismo faria parte dos esforços da UE para enfrentar seu enorme déficit comercial com a China, mas exigiria financiamento — justamente quando os Estados-membros negociam o próximo orçamento plurianual do bloco.

Especialistas chineses descreveram a proposta como uma extensão da política de “de-risking” (redução de riscos) da UE, com forte tom protecionista. Para Jian Junbo, da Universidade Fudan, a iniciativa reflete “falta de confiança do lado europeu na competição econômica e comercial com a China”. Zhang Jian, do Instituto de Relações Internacionais Contemporâneas da China, afirmou que “desacoplamento, restrições ou confronto não melhorarão, de fato, a competitividade da Europa”, apenas injetarão mais incerteza nas relações bilaterais.

A proposta surge logo após a primeira reunião do mecanismo de consulta comercial e de investimentos China-UE, encerrada em 29 de junho, na qual ambos os lados destacaram a importância de buscar soluções práticas. Os especialistas pediram que a Europa aproveite melhor os canais de diálogo em vez de se distanciar do mercado chinês. Eles lembram que, em serviços, a UE mantém superávit com a China — € 21,3 bilhões (US$ 24,3 bilhões) em 2025 —, sendo a China seu quarto maior parceiro comercial nesse setor. A porta-voz da Chancelaria chinesa, Mao Ning, reiterou que o comércio bilateral é “ganha-ganha” e advertiu que termos como “de-risking” ou “desequilíbrio comercial” são “apenas nomes diferentes para o protecionismo”.

Fonte: Global Times

‘Este é o nosso céu’: palestinos mantêm festival de pipas em desafio a colonos na Cisjordânia

Reprodução

Mais um verão em Burin, pequena vila palestina de poucos milhares de habitantes na Cisjordânia ocupada por Israel, teve seu céu tomado por pipas coloridas em uma ação comunitária que se repete todo ano desde 2009. No alto da colina, crianças correm pela encosta batida pelo sol enquanto suas criações ganham altura; logo atrás, os telhados vermelhos de Har Bracha, assentamento israelense estabelecido em 1983 e ilegal segundo o direito internacional, observam a vila lá embaixo. O assentamento é um dos vários que cercam Burin, erguido, segundo os moradores, sobre terras que foram parcialmente confiscadas por colonos.

Para um dos organizadores, Ghassan Najjar, o evento é voltado sobretudo às crianças, mas carrega também uma “mensagem política” — a de lembrar quem são os verdadeiros donos da terra. “Queremos dizer aos colonos que esta é a nossa terra, este é o nosso céu. Se não conseguimos mais chegar àquelas terras, nossas pipas conseguem”, afirmou à AFP. As conversas em Burin raramente se afastam dos ataques de colonos ou do avanço dos assentamentos: já em 2008 o escritório da ONU para assuntos humanitários (OCHA) alertava para disparos contra moradores e o arranque de oliveiras, e, desde o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023, a organização registra forte aumento da violência atribuída a colonos israelenses na Cisjordânia, enquanto ministros israelenses defendem a anexação de todo ou parte do território.

‘Nossas raízes’

Por algumas horas, a colina ganha o clima de uma festa de vila: um palhaço pinta o rosto das crianças, há música no ar e famílias estendem tapetes de piquenique pela grama. Pipas nas cores da bandeira palestina — preto, branco, verde e vermelho — cruzam o céu, ao lado de uma nas cores do Egito, em homenagem à seleção egípcia de futebol. Ainda assim, a celebração se dá à sombra do conflito. Antes de subir ao morro, os moradores verificam se não há grupos de colonos por perto. No ano passado, o encontro não aconteceu porque colonos haviam atacado a vila, conta Sanaa Bashar Najjar, de 15 anos: “Ficamos só meia hora, uma hora, apenas para respirar um ar fresco. Com a guerra e as dificuldades econômicas, estamos só tentando respirar.”

Apesar de tudo, Najjar reforça o sentido do encontro: “Nossas crianças têm o direito de brincar e de levar uma vida real e boa.” Os moradores dizem que voltarão no próximo verão, decididos a reconquistar ao menos um pedaço de céu — ou, como resume Qusai Walid Eid, a fortalecer “nossas raízes nesta terra”.

Fonte: AFP e France 24/7

Trump restabelece bloqueio dos EUA e exige taxa de 20% sobre a navegação em Ormuz

O presidente dos EUA, Donald Trump, declarou nesta segunda-feira o retorno de um bloqueio naval aos portos iranianos e anunciou que Washington passará a cobrar pesadas taxas sobre os navios que cruzam o Estreito de Ormuz. Em publicação em sua rede Truth Social, Trump afirmou que os EUA serão conhecidos como “O Guardião do Estreito de Ormuz” e “ressarcidos à taxa de 20% sobre toda carga transportada” pelos custos de garantir a segurança da região. Segundo ele, os portos do Irã voltariam a ser bloqueados, mas “todos os outros países terão uso justo e aberto do estreito” — invertendo a lógica das cobranças que o próprio Teerã pretendia impor.

O anúncio veio em meio ao maior confronto desde o cessar-fogo de abril: os EUA disseram ter atingido dezenas de alvos, e a Guarda Revolucionária (IRGC) anunciou ataques a Bahrein, Jordânia, Kuwait e Omã. O comando militar iraniano insistiu que “sob nenhuma circunstância” permitirá a interferência dos EUA na gestão do estreito e advertiu os vizinhos do Golfo de que qualquer colaboração com Washington seria considerada “ato de guerra”. Pela primeira vez, o CENTCOM afirmou ter usado drones marítimos, atingindo um submarino iraniano e uma instalação na base naval de Bandar Abbas.

Trump culpou Teerã por romper o acordo de junho e prometeu novos ataques (“vamos atingi-los muito duramente”). O porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baghaei, afirmou que o acordo-quadro está “em crise”, mas ressaltou que o país segue em negociações com mediadores do Catar, Paquistão e Omã. Os chanceleres de Alemanha, França e Reino Unido condenaram os ataques iranianos aos países do Golfo, e Londres anunciou que designará a IRGC como ameaça à segurança nacional. Ao menos 25 pessoas morreram no Irã desde a retomada das hostilidades. Para Bader Al-Saif, da Chatham House, a escalada apenas adia um desfecho inevitável: “um acordo negociado”.

Fonte: Euronews

Onda de calor sem precedentes atinge a Europa: mortes, incêndios e reatores nucleares desligados

Foto: Oliver Dixon, Piccadilly / Wickcommons

Uma onda de calor extremo — descrita por cientistas como a mais ampla e intensa já registrada na Europa — provocou uma sequência de crises pelo continente, com milhares de mortes, incêndios florestais mortais e impactos até no setor de energia. Estima-se que o calor de junho tenha custado mais de 20 mil vidas em toda a Europa; na Alemanha, onde se registrou uma máxima recorde de 41,7°C, cerca de 5.500 pessoas teriam morrido, segundo dados preliminares do governo.

No Reino Unido, uma análise do Imperial College London indica que as ondas de calor de maio e junho causaram a morte de cerca de 2.700 pessoas na Inglaterra e no País de Gales, chegando a 440 mortes por dia no pico de três dias em junho — período que registrou, de forma inédita, três dias consecutivos de alerta vermelho. Segundo os pesquisadores, mais de 40% dessas mortes não teriam ocorrido sem o aquecimento global de 1,4°C provocado pela ação humana, que adicionou de 3°C a 4°C às temperaturas. “São números grandes e não queremos ver tanta gente morrendo”, afirmou ao The Guardian a líder do estudo, Dra. Clair Barnes, alertando que a única forma de conter o agravamento é a transição para emissões líquidas zero. A ONG Friends of the Earth classificou o despreparo do país como “escândalo nacional”.

No sul da Espanha, na província de Almería, os piores incêndios florestais em mais de 20 anos mataram ao menos 13 pessoas. Alimentado por semanas de calor intenso e vegetação ressecada, o fogo avançou a até 100 metros por minuto, deixando moradores presos em casas e veículos. A cidade de Bedar, com cerca de mil habitantes, foi uma das mais atingidas. Moradores descreveram cenas de pânico e a perda de amigos e animais. “Foi o maior incêndio que já vimos”, relatou ao site de notícias da Radio e Televisão da Irlanda, RTE, a britânica Nicki Wilkinson, residente há 21 anos na região. Autoridades pediram cautela extrema, temendo que esses eventos se tornem cada vez mais frequentes.

Já na França, a estatal EDF desligou temporariamente três reatores nucleares — Golfech 2, Bugey 3 e Chooz 2, totalizando 3,65 GW (cerca de 6% do parque nuclear francês) — e alertou que outros sete poderiam reduzir a potência. A medida, segundo a empresa, é uma exigência ambiental para evitar o despejo de água excessivamente quente em rios já aquecidos pelo calor, sem representar risco à segurança nuclear. Foi a segunda vez em poucas semanas que a EDF precisou de parar reatores por causa do calor extremo. A empresa afirmou ter um plano de adaptação às mudanças climáticas orçado em € 8,7 bilhões para os próximos 15 anos.

Fontes: Euronews, The Guardian, RTÉ

Irlanda assume presidência rotativa do Conselho Europeu

A presidente do Conselho Europeu e os comissários em Cork, na Irlanda, durante a solenidade de abertura da presidência rotativa do país. Foto: © European Union, 202X, licensed under CC BY 4.0

A Irlanda assumiu, em 1º de julho de 2026, a presidência rotativa do Conselho da União Europeia — pela oitava vez —, em cerimônia realizada no Castelo de Dublin com a presença do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. No dia seguinte, o Taoiseach (primeiro-ministro) Micheál Martin recebeu oficialmente em Cork, sua cidade natal e segunda maior do país, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em visita que a Comissão tradicionalmente realiza a cada país no início de sua presidência. Von der Leyen foi recebida por Martin e pelo prefeito de Cork, Damian Boylan, na Prefeitura, onde ganhou um vaso gravado com o lema da presidência irlandesa: “Ní neart go cur le chéile – A força está na união”. Os 27 comissários europeus, incluindo o irlandês Michael McGrath, chegaram à University College Cork (UCC) para reuniões-chave com ministros do governo e visitaram o Tyndall National Institute, maior centro de pesquisa deep-tech do país, onde ouviram pesquisadores sobre trabalhos em semicondutores, materiais avançados e espaço. Antes do encontro com von der Leyen, Martin afirmou que pretendia levantar “as persistentes e flagrantes violações de direitos humanos e do direito internacional por parte de Israel”.

Em 7 de julho, o Taoiseach Micheál Martin discursou na sessão plenária do Parlamento Europeu, em Estrasburgo, apresentando o programa político da presidência. Martin destacou as três prioridades interligadas do mandato: a competitividade da economia europeia, a defesa dos valores fundamentais da União — dentro e fora do bloco — e a segurança dos cidadãos. Recorrendo a um provérbio irlandês, “Ní neart go cur le chéile” (a força está na união), sublinhou que, mesmo diante dos desafios, a Europa é mais forte quando age em conjunto. Reforçou ainda os relatórios de Mario Draghi e Enrico Letta sobre o risco de a Europa ficar para trás caso não haja ação imediata, defendendo o avanço do Mercado Único, da União de Poupanças e Investimentos e de uma política comercial ambiciosa.

Martin também reafirmou o apoio inabalável da presidência à Ucrânia, defendendo sanções mais duras contra a Rússia, e comprometeu-se a avançar nas negociações de adesão de Montenegro, Moldávia, Ucrânia e dos países dos Bálcãs Ocidentais. Sobre o Oriente Médio, foi enfático ao criticar o governo Netanyahu, classificando seu comportamento como “cada vez mais extremo” diante da situação humanitária “terrível” em Gaza, e afirmando que a Europa “precisa fazer mais”. Ao encerrar, homenageou o falecido líder norte-irlandês e ex-eurodeputado John Hume — único MEP a receber o Prêmio Nobel da Paz enquanto exercia o mandato —, anunciando a criação de um prêmio anual em seu nome para europeus que contribuam com os valores por ele defendidos. A presidência irlandesa realizará mais de 270 eventos pelo país, incluindo a reunião da Comunidade Política Europeia e o encontro informal do Conselho Europeu, em Dublin, em novembro.

A Irlanda na União Europeia

  • A Irlanda aderiu às Comunidades Europeias (hoje União Europeia) em 1º de janeiro de 1973, junto com a Dinamarca e o Reino Unido, após um referendo com forte apoio popular.
  • Esta é a oitava vez que o país assume a Presidência rotativa do Conselho da UE. As anteriores ocorreram em 1975, 1979, 1984, 1990, 1996, 2004 e 2013.
  • A estrutura permanente do Conselho foi estabelecida durante a primeira presidência irlandesa, em 1975.
  • A Irlanda adotou o euro em 2002 e, em 2022, o irlandês (gaélico) passou a ter plena igualdade como língua oficial e de trabalho da UE.
  • Atualmente, o país é representado por 14 eurodeputados (mandato 2024–2029). O comissário europeu irlandês é Michael McGrath, responsável por Democracia, Justiça, Estado de Direito e Proteção do Consumidor desde 2024.
  • Como nação insular na borda oeste da Europa, com fortes laços transatlânticos e globais, a Irlanda contribui em áreas como comércio, ação climática, inovação digital, pesquisa e coesão social, apoiando-se também em sua experiência de construção de paz e reconciliação.

Fontes: RTÉ e Irish Presidency