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A sombra do Master sobre 2026

Para entender o que está em jogo agora no Supremo, preciso começar por Alexandre de Moraes e pelo lugar político que ele ocupa.

Vejo Moraes como um homem da direita brasileira, formado dentro de uma concepção de Estado, de ordem e de poder muito distante da esquerda. Seu enfrentamento ao bolsonarismo nos últimos anos nasceu de uma convergência política concreta. Bolsonaro ultrapassou os limites que a própria direita tradicional considera necessários para preservar o regime dentro do qual disputa eleições, exerce influência e protege seus interesses. Quando tentou transformar uma derrota eleitoral em permanência no poder, encontrou pela frente Moraes, Gilmar Mendes e outros setores dessa direita. Encontrou também a esquerda, por razões evidentemente diferentes. Durante algum tempo, esses interesses caminharam na mesma direção. 

Escrevo a partir da esquerda e é importante afirmar esse lugar para não deixar pontas soltas. Tenho pouco interesse na fantasia de um Supremo situado acima da política. Seus ministros são agentes de poder, carregam trajetórias, alianças, interesses e projetos. Moraes ocupou, desde 2022, uma posição que coincidiu com interesses da esquerda porque enfrentou a tentativa bolsonarista de romper a ordem eleitoral. A imagem pública do “Xandão” nasceu dessa circunstância e adquiriu vida própria. A caricatura encobre uma realidade mais simples: Moraes defendeu uma ordem dentro da qual a direita tradicional pretende continuar disputando o Estado. Lula era, naquele momento, a força eleitoral capaz de derrotar Bolsonaro e garantir a transição. Essa coincidência produziu uma aliança tática, limitada e historicamente situada. 

A crise aberta agora entre Moraes e André Mendonça recoloca essa divisão dentro da direita brasileira em outro patamar. Ela se desenvolve dentro do Supremo Tribunal Federal, instituição cujos integrantes chegam à Corte por indicação dos presidentes da República e aprovação do Senado. As diferenças entre os dois ministros carregam também as marcas das forças políticas que os conduziram até ali. Mendonça chegou ao Supremo pelas mãos de Bolsonaro e ocupa uma posição política inteiramente distinta. O caso Master transformou essa diferença em conflito aberto. 

Na noite de 3 de setembro, Moraes tornou pública uma decisão de vinte páginas baseada em relatórios produzidos pela Polícia Federal durante as operações Sem Desconto e Compliance Zero. Os documentos registram irregularidades que investigadores da própria PF dizem ter identificado na forma como Mendonça conduzia a supervisão dos casos. Moraes enviou o material ao presidente do STF, Edson Fachin, para que tomasse as providências que considerasse cabíveis. Os relatórios descrevem um relator que teria avançado sobre atribuições próprias dos investigadores, com acesso direto ao acervo probatório bruto, interferência na supervisão técnica da PF e atuação que os próprios policiais classificaram como exercício de “poderes típicos de presidência da investigação”.  

A documentação vai além. Mendonça teria acompanhado tratativas de colaboração premiada, perguntado sobre o conteúdo oferecido por possíveis colaboradores e relatado contatos com seus defensores. Em relação a Moraes, a Polícia Federal fez uma distinção especialmente importante. A identificação de uma autoridade encontrada nos dados apreendidos poderia integrar a definição da competência; a determinação para que fossem fornecidas todas as mensagens e interações envolvendo essa autoridade ultrapassaria esse limite e configuraria uma investigação dirigida. Aqui a controvérsia alcança a forma concreta de como a investigação foi conduzida.  

Moraes aparece nos relatórios como alvo de uma linha investigativa que Mendonça teria interesse em formalizar. Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, surge como alguém cuja confiabilidade Mendonça questionava, e cujo afastamento teria cogitado. Paulo Gonet, procurador-geral da República, aparece igualmente sob suspeita, com a possibilidade de ser transformado em testemunha e, por essa via, afastado da titularidade da acusação em determinados processos. Em uma mesma crise, Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues passam a sofrer pressão simultânea. São três pessoas em posições institucionais diferentes, todas importantes no arranjo que enfrentou o bolsonarismo nos últimos anos. 

Ministro Alexandre de Moraes em sessão plenária do STF. <br> (Foto: Rosinei Coutinho/STF)

Ministro Alexandre de Moraes em sessão plenária do STF.
(Foto: Rosinei Coutinho/STF)

Minha leitura é que a atuação de Mendonça produz dois movimentos complementares. Enfraquece pontos institucionais que limitaram a capacidade de ação do bolsonarismo e desloca o centro de gravidade do caso Master. As relações de Daniel Vorcaro com o bolsonarismo, com setores do Centrão e com personagens que orbitam esse campo passam a dividir espaço com uma narrativa muito mais funcional à extrema direita: Alexandre de Moraes como grande vilão, a direção da Polícia Federal sob suspeita, a Procuradoria contaminada e o governo apresentado como parte da mesma engrenagem.

Moraes é um alvo especialmente útil para essa operação política. Foi ele quem concentrou a maior exposição pública nos processos contra Bolsonaro, seus aliados e a tentativa de golpe. Gilmar Mendes exerce enorme influência dentro do Supremo em outro registro, com menor exposição pública nesse enfrentamento. Moraes virou o rosto desse conflito. Atingi-lo permite atingir também a legitimidade das decisões tomadas desde 2022 e a convergência que sustentou a defesa do resultado eleitoral. A narrativa bolsonarista faz o restante: Moraes vira agente do PT, a PF vira polícia do governo e cada investigação posterior chega ao debate público carregando uma suspeita prévia. 

Esse método tem história. A antipolítica foi uma das forças mais poderosas da direita brasileira nas últimas décadas. A corrupção deixou de funcionar apenas como acusação sobre atos concretos e passou a definir identidades políticas. Lula carrega essa marca há mais de vinte anos. O bolsonarismo levou o mecanismo adiante com uma habilidade particular: todos podem ser apresentados como igualmente corrompidos, enquanto seus próprios representantes conservam uma espécie de autenticidade moral. São os que falam sem filtros, proclamam a defesa da família, desafiam o sistema e transformam a própria grosseria em prova de sinceridade. A corrupção do adversário confirma sua hipocrisia; a do aliado encontra explicação na perseguição, na fraqueza humana ou na insignificância do episódio. A igualdade na lama termina produzindo uma hierarquia moral em favor da própria extrema direita. 

A Lava Jato levou esse mecanismo a uma escala nacional. Sergio Moro ajudou a destruir a legitimidade da política, concentrou em si a imagem do juiz moralizador e participou diretamente da construção do ambiente político que levou Bolsonaro ao poder. Depois aceitou ser seu ministro da Justiça. A relação entre os dois terminou quando seus projetos pessoais entraram em choque. A causalidade política permaneceu. A erosão da confiança nas instituições representativas, a associação permanente entre Lula e corrupção e a ideia de que o país precisava ser “limpo” por uma autoridade situada acima da política abriram espaço para a extrema direita. Bolsonaro colheu aquilo que a Lava Jato ajudou a preparar. 

Mendonça se move hoje dentro de uma lógica que o país já conhece. Supremo, Procuradoria, Polícia Federal, governo e sistema eleitoral passam a integrar uma mesma suspeita. O bolsonarismo recupera sua posição preferida: perseguido por instituições corrompidas, vítima de um sistema organizado para impedir sua volta ao poder. Essa narrativa serve objetivamente à candidatura de Flávio Bolsonaro. Cada dúvida lançada sobre Moraes, Gonet ou Andrei enfraquece também a autoridade das investigações que atingem o campo bolsonarista e prepara antecipadamente a resposta a um eventual resultado eleitoral desfavorável. 

O caso Master acrescenta materialidade a essa disputa. Vorcaro construiu relações extensas com empresários, políticos e operadores de diferentes campos. Personagens próximos ao governo também aparecem e devem responder por tudo o que for efetivamente demonstrado. As conexões com o bolsonarismo e setores do Centrão, porém, adquiriram peso próprio: há recursos ligados às campanhas de Bolsonaro e Tarcísio, investigações envolvendo o financiamento de Dark Horse, relações com personagens próximos a Eduardo Bolsonaro e outros vínculos que continuam sendo apurados. Quanto mais esse mapa cresce, maior se torna a disputa em torno de quem ocupará o centro do escândalo. 

É nesse ponto que a crise interna do Supremo alcança diretamente a eleição de 2026. A ofensiva contra Moraes desloca atenção, embaralha responsabilidades e oferece ao bolsonarismo a oportunidade de reorganizar sua narrativa de perseguição justamente quando o caso Master começa a produzir desconforto em seu próprio campo. A aliança tática que reuniu setores da direita tradicional, o governo Lula e a esquerda em torno da defesa da ordem eleitoral passa a ser apresentada como prova de conspiração. Moraes vira o elo visível dessa construção. Gilmar Mendes permanece num plano menos exposto. O governo entra no mesmo circuito de suspeição. Flávio Bolsonaro ganha espaço para disputar a eleição num ambiente institucional mais deteriorado. 

É importante que Moraes vença essa disputa institucional. Digo isso com plena consciência da ambiguidade contida nessa afirmação e dos efeitos que uma vitória sua também produz. O campo que ele ajuda a preservar continua comprometido com uma ordem que garante à direita tradicional capacidade de reorganização, influência e retorno ao centro da disputa pelo Estado. Para a esquerda, isso também contém uma derrota. É uma derrota menor diante de outra muito mais grave: o fortalecimento de um campo bolsonarista que já tentou romper o resultado de uma eleição e que volta a disputar poder pela corrosão das instituições. A correlação de forças deste momento deixa pouca margem para ilusões. Conter Mendonça significa aceitar um custo político imediato para impedir um retrocesso maior e preservar as condições da disputa seguinte.

O caso Master lança agora uma sombra sobre a eleição. As relações de Vorcaro, a guerra dentro do Supremo, o conflito entre Mendonça e a Polícia Federal e as pressões sobre a Procuradoria introduziram uma variável cujo alcance ainda desconhecemos. O bolsonarismo sabe trabalhar nesse ambiente. Quanto mais responsabilidades distintas se confundem, mais fácil se torna apresentar todos como parte da mesma degradação e reivindicar para si a autenticidade daqueles que nunca esconderam quem eram. A confusão vira método. Investigação vira perseguição. A suspeita passa a valer antes dos fatos. A eleição de 2026 ficou mais incerta.

A esquerda precisa de muito discernimento nesta hora. Emocionalismo e afobamento são especialmente perigosos quando a própria confusão se transforma em método político. Moraes continua sendo quem sempre foi. Mendonça também. A conjuntura mudou, e é nela que cada movimento precisa ser compreendido. Há momentos em que distinguir adversários, interesses e consequências vale mais do que a satisfação imediata de escolher um herói ou um inimigo.

(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é Diretor de Relações de Trabalho do Sindserv – SBC, bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.

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