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Aliado dos Bolsonaros, ex-assessor de Milei é preso, acusado pela ex-companheira

A advogada e ativista boliviana Nadia Beller falou pela primeira vez depois de sobreviver a uma emboscada que terminou com três disparos contra ela em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Ainda internada, Beller acusa o ex-companheiro, o argentino Fernando Cerimedo, de ter contratado os homens responsáveis pelo ataque. Ele foi detido horas depois no aeroporto de Viru Viru, quando, segundo a investigação, tentava deixar o país. As autoridades bolivianas apuram a participação do argentino no crime.

Em entrevista ao jornal argentino La Nación, publicada nesta quarta-feira (19), Nadia contou que estava falando com Cerimedo no momento em que foi atacada. A armadilha começou com uma oferta de informações sobre um suposto caso envolvendo o ex-presidente boliviano Evo Morales e uma menina de 13 anos. Os informantes marcaram um encontro na porta de um hotel, às 20h, para entregar os documentos.

Nadia desconfiou da situação. Antes, segundo seu relato, haviam tentado convencê-la a entrar em um carro para ser levada a outro lugar. Foi Cerimedo, afirmou, quem insistiu para que ela fosse ao hotel. Ele teria dito que não havia risco porque o local tinha câmeras e chegou a afirmar que ela estaria protegida por seguranças.

Quando os supostos informantes não apareceram no horário combinado, Nadia voltou a falar com Cerimedo. Foi durante essa ligação que, segundo ela, seu celular foi retirado e os disparos começaram.

“Eu estava falando com ele quando me tiraram o celular. Foi aí que atiraram em mim”, relatou à La Nación.

Nadia foi atingida três vezes. Os disparos não alcançaram órgãos vitais, mas deixaram ferimentos graves no braço direito e na região da clavícula. Ela permaneceu consciente durante o ataque e afirma estar fora de perigo. Também está grávida de quatro meses e diz que o pai da criança é Cerimedo.

O confronto depois dos tiros

Já internada, Nadia conseguiu falar com Cerimedo por telefone, com a ajuda de uma médica. Perguntou diretamente se ele estava por trás do ataque. Segundo seu relato, Cerimedo negou, disse que a amava e afirmou que estava a caminho da clínica para vê-la.

Ele, porém, não chegou à clínica. Foi preso no aeroporto Viru Viru. Segundo o La Nación, os investigadores suspeitam que ele pretendia seguir para La Paz e, de lá, embarcar para a Argentina. Nadia afirmou que a polícia lhe disse que ele tentava viajar com uma mochila cheia de dinheiro.

Durante a entrevista, a advogada afirmou também que o ataque não foi um episódio isolado de violência. Segundo ela, Cerimedo já havia cometido violência física contra ela e chegou a estrangulá-la. Ela diz ter mensagens que registrariam episódios anteriores e afirma que teria sido pressionada a não formalizar denúncias.

A ativista ainda relatou que seu celular e sua bolsa foram levados durante a ação. Segundo ela, o objetivo seria impedir que informações que estavam em seu poder viessem a público.

Do hospital, Nadia relata conversas com Cerimedo sobre o governo Milei

Foi durante o relacionamento com Cerimedo, iniciado em dezembro do ano passado, que Nadia afirma ter ouvido do argentino relatos sobre os bastidores políticos em que ele circulava. Segundo ela, Cerimedo dizia ter se afastado do entorno de Javier Milei porque considerava o ambiente “podre”. Em uma dessas conversas, teria falado sobre Karina Milei, irmã do presidente e secretária-geral da Presidência.

“Fernando me disse que a irmã de Milei estava envolvida com a corrupção”, afirmou Nadia ao La Nación. O relato ganhou um contexto adicional porque Cerimedo já havia aparecido na investigação sobre o escândalo da Agência Nacional de Deficiência (Andis). Em setembro de 2025, ele depôs como testemunha e contou à Justiça o que, segundo ele, havia ouvido de Diego Spagnuolo, então chefe do órgão, sobre cobranças de propina em contratos de medicamentos.

Segundo o depoimento de Cerimedo, Spagnuolo teria relatado que fornecedores eram pressionados a pagar 8% dos contratos, contra 5% anteriormente. A diferença, de acordo com o relato levado à Justiça, teria como destino a Casa Rosada. Cerimedo afirmou ainda que Spagnuolo lhe disse ter informado Javier Milei sobre o esquema.

A investigação avançou e, em fevereiro deste ano, 19 pessoas foram processadas por supostas irregularidades na contratação de medicamentos e insumos para pessoas com deficiência, entre elas direcionamento de contratos, sobrepreços e pagamento de propina. Karina Milei não está entre os processados nessa decisão.

Nadia também contou ao La Nación que Cerimedo dizia ter participado, ao lado da então esposa, Natalia Basil, que trabalhava na Andis, do vazamento dos áudios de Spagnuolo. Ela afirmou não saber como as gravações foram obtidas, mas disse que o próprio Cerimedo lhe contou que os áudios eram verdadeiros e haviam sido divulgados para evitar que o caso fosse abafado.

Do bolsonarismo à equipe de Milei

Cerimedo tornou-se conhecido no Brasil pela proximidade com o clã Bolsonaro e pela atuação na comunicação digital da extrema direita latino-americana. Antes de trabalhar com Milei, manteve relações próximas com Eduardo Bolsonaro e participou da circulação de conteúdos falsos sobre as urnas eletrônicas brasileiras após a eleição de 2022.

A Polícia Federal o incluiu na investigação sobre a tentativa de golpe de Estado e apontou sua atuação no núcleo responsável pela produção e disseminação de ataques ao sistema eleitoral. Cerimedo, porém, não foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República, que considerou insuficientes os elementos para demonstrar que ele tivesse conhecimento e adesão ao projeto golpista.

Nadia permanece internada em Santa Cruz de la Sierra e afirma temer pela própria segurança. Ela contou ao La Nación que não se sente protegida pelo governo nem pela polícia e que chegou a exigir a presença de seu advogado e de familiares antes de aceitar receber atendimento.

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