Minissérie da Amazon Prime mostra as diferenças de relações de mulheres e homens dentro da estrutura familiar a partir do desaparecimento de uma criança
Um olhar desatento talvez enxergue, numa cena aparentemente corriqueira de All Her Fault, a mais sublime demonstração de amor de um pai que acaba de saber que seu filho foi sequestrado. Enquanto a mãe se mantém firme para não desabar e pensa de todas as formas em como resolver o problema, este pai, que mal sabe o que dizer aos policiais, desaba e chora.
O que parece ser um ato de fragilidade, orgânico e humano, na verdade escancara a dicotomia da relação do casal. “Por que você não checou direito a mensagem no celular?”, acusa o pai, enquanto a esposa o consola e pede desculpas, ao mesmo tempo em que precisa resolver tudo sozinha sob a desculpa se, segundo o marido, “saber sempre o que fazer”- o típico descaso camuflado de elogio.
Em outro momento, esta armadura impenetrável carregada pela mãe se dissipa num desesperado pedido de socorro: “Eu cansei de ser incrível!”, ela diz, como que a anunciar as suas próprias limitações a um mundo que exige dela, e e de todas as outras mães, nada menos do que a perfeição.
A primeira metade da série, disponível na Amazon Prime, é muito mais sobre as “sutilezas” do patriarcado do que propriamente sobre o sequestro de Milo, de 5 anos, e a trama policial desenvolvida a partir de então.
No início, a busca por provas e possíveis suspeitos fica em segundo plano. A construção dos personagens passa, um a um, pela ideia de que a culpa é sempre delas, como sugere o título.
Assim, em meio ao tribunal das ruas e das redes, Marisa e outra mãe, Jenny, tornam-se aliadas improváveis, unidas por algo que deveria as colocar como adversárias.
Não bastasse o fato de ambas estarem no centro de um crime de grande repercussão, elas ainda têm que lidar com seus maridos, dois exemplares clássicos do macho alfa que olha todos à sua volta de cima para baixo, numa jornada egóica e excludente que reduz as mulheres (mas também os homens fracos) a mero acessório.
Tudo o que fazem tem sempre os próprios anseios como catalisadores de suas decisões. Não há bem coletivo. Apenas individualismo e arrogância.
Peter, o pai de Milo e marido de Marisa, mente o tempo todo, mas seu personagem não é a caricatura do mal: ele é manipulador, sonso e cínico, ainda que ame sua família acima de tudo. E isso basta.
O seu propósito, por sinal, é a projeção do homem “das antigas”, conservador, que não precisa pedir a opinião de ninguém e tem sempre uma desculpa para se livrar de um erro. Por ter dinheiro, ele ainda pode controlar todos ao redor e dormir tranquilo com a sensação de dever cumprido.
Estas boas intenções dos homens, no entanto, anulam pouco a pouco a personalidade tanto de Marisa quanto de Jenny, tratadas como inferiores embora úteis. Elas cuidam de tudo sem pedir nada em troca, e são impossibilitadas de pensar em si mesmas. De olhar para dentro.
Essas duas mulheres logo percebem que nunca tiveram uma vida de verdade ao lado daqueles homens e abdicam desse amor incondicional numa revolta que se dá de forma amena e gradual.
No caso de Jenny, que reluta em aceitar as exigências do marido para continuar sendo o que sempre foi, segundo ele próprio, um “homem livre e sem compromisso”, esta rebeldia é mostrada de maneira mais literal, empoderada e irreversível.
Micropoder
Tudo isso é o que Simone de Beauvoir, em “O Segundo Sexo” (1949), descreve como micropoder: mecanismos que operam na vida cotidiana e nas relações sociais, sem necessariamente partir de grandes estruturas ou violências. É a dominação masculina sobre os corpos e mentes das mulheres, mesmo que isso não culmine invariavelmente numa “tragédia maior”.
Ainda que a série descambe para o melodrama e seja bastante manipulativa, com trilha sonora carregada e diálogos didáticos e previsíveis, é possível extrair outra lição sobre o patriarcado em seus oito episódios: essa estrutura também pode cooptar as próprias mulheres, que passam a reproduzir esse anseio moral criado pelos homens e a julgar umas às outras sem piedade – seja no veneno de um comentário feito por uma das mães da escola de Milo ou no próprio delírio da vilã Carrie com a ideia de ter um filho que não é seu. De ser, portanto, a mãe que nunca teve.
A reação pública, endossada pela cobertura da imprensa, também reforça o machismo ao responsabilizar a mãe e isentar o pai de qualquer culpa. Esse linchamento, cada vez mais frequente nas redes sociais, é mostrado de maneira pontual, sem grande alarde, numa escolha narrativa perde a força ao longo da série. Ao optar por encerrar o debate sugerido no começo, All Her Fault vira uma série comum sobre sequestro e busca pelos culpados.
O que fica, no fim das contas, é mesmo a união de Marisa e Jenny, ao mostrar de forma delicada e verdadeira o que deve ser feito para enfrentar (ou ao menos amenizar) a atuação desse micropoder intransponível: unir-se, ouvir o que cada uma tem a dizer e sempre encorajar uma aliada a tomar as decisões que eles, os pais, maridos amigos e irmãos, dirão ser apenas loucura.
Loucura mesmo é fingir que o patriarcado deixou de existir décadas depois do recado dado por Simone de Beauvoir. All Her Fault não é brilhante, mas dá uma aula sobre esse micropoder ainda deferindo por parte significativa da humanidade.