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Ameaça da IA gera ofensiva de artistas no Ocidente e na China

O avanço acelerado da inteligência artificial generativa na indústria audiovisual acendeu um sinal de alerta global, unindo em preocupação os polos de produção da China e de Hollywood. Na nação asiática, o uso crescente de atores gerados por tecnologia e réplicas digitais provoca forte pressão nos bastidores, com profissionais que não concordam em autorizar o uso de seus dados faciais para treinamento de softwares. 

O cenário de instabilidade no emprego coincide com uma reestruturação econômica do setor cinematográfico e televisivo chinês, que recorre à tecnologia para baratear custos de produção.  Dados divulgados pelo Diário do Povo Online na terça-feira (9) revelam o tamanho do impacto financeiro que impulsiona essa transição de mercado. Um drama curto gerado inteiramente por sistemas de IA custa entre 100 mil e 200 mil yuans (equivalente a 14 mil e 28 mil dólares), enquanto uma produção convencional com elenco humano exige um investimento médio de 1 milhão de yuans (cerca de 140 mil dólares). A diferença econômica de quase dez vezes explica por que os curtas dramáticos criados por robôs saltaram de 7% de audiência em 2025 para 38% das produções mais assistidas logo no início deste ano.

Diante do avanço das ferramentas virtuais, autoridades e juristas chineses buscam caminhos de contenção por meio de regulamentações existentes sobre direitos de personalidade e normas de privacidade. Embora tribunais locais tenham ampliado a proteção legal para vozes e imagens individuais, o setor ainda carece de clareza sobre os limites éticos do uso de estilos de atuação para alimentar algoritmos. Os fornecedores de tecnologia lucram com as novas janelas de distribuição, mas a substituição do trabalho humano tensiona as relações trabalhistas e os conceitos tradicionais de criação artística.

No Ocidente, a resistência ganhou contornos de manifesto ético e filosófico liderado por grandes nomes do cinema. Em entrevista recente à rádio pública norte-americana NPR, o diretor mexicano Guillermo del Toro rechaçou de forma veemente qualquer possibilidade de aderir à tendência global de automação. Aos 61 anos, o cineasta comparou os desenvolvedores das plataformas digitais à figura clássica de Victor Frankenstein, apontando uma cegueira corporativa que ignora as consequências sociais de suas criações. Para Del Toro, o verdadeiro perigo atual não reside na inteligência artificial, mas sim na estupidez natural que comanda as piores ações do mundo. O diretor repetiu o protesto no Festival de Cannes, usando expressões explícitas para rechaçar as ferramentas automatizadas.

A defesa da essência humana na arte também baliza o posicionamento do diretor Steven Spielberg. O cineasta manifestou profundo temor com a possibilidade de as máquinas assumirem o controle do ponto de vista artístico individual, ressaltando que a alma humana é inefável e jamais será replicada por linhas de programação de algoritmos. Spielberg reforçou sua posição ao declarar que não aceita substituir a criatividade real por sistemas mecânicos, negando a existência de qualquer consciência artificial que possa intervir em roteiros, diálogos ou na concepção visual de um filme. Para o diretor, o computador deve funcionar estritamente como ferramenta de apoio técnico, nunca como tomador de decisões criativas no lugar dos roteiristas.

Para conter a desregulamentação, os sindicatos ocidentais apostam na mediação contratual coletiva. O sindicato de atores de Hollywood, SAG-AFTRA, ratificou na sexta-feira (5) um novo acordo com os grandes estúdios para ampliar os mecanismos de blindagem contra abusos tecnológicos. O documento estabelece salvaguardas rígidas aos salários e benefícios, além de proibir o uso indiscriminado de réplicas digitais e avatares sintéticos. O novo contrato estabelece limites para o uso de personagens criados por inteligência artificial. Pelas novas regras estipuladas na convenção, as produtoras norte-americanas só poderão recorrer a atores sintéticos em situações excepcionais, desde que tragam um valor adicional significativo que justifique a ausência de profissionais reais no set de gravação.

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