
A presidenta do México, Claudia Sheinbaum, utilizou o palco da tradicional mañanera nesta segunda-feira (5) para enviar um recado contundente à Casa Branca. A mañanera é uma coletiva de imprensa matutina que se tornou o coração da comunicação da política doméstica mexicana. Foi nesse palco, olhando para as câmeras de TV, ao vivo, durante cerca de 90 minutos, que a mandatária desconstruiu a retórica intervencionista de Donald Trump e condenou a operação militar estadunidense que sequestrou o presidente venezuelano Nicolás Maduro no último sábado (3).
Com a autoridade de quem preside um país que compartilha uma fronteira crítica com os EUA, Sheinbaum recorreu à tradição de não intervenção mexicana para enfatizar que ”a história da América Latina é clara e contundente ao demonstrar que a intervenção nunca trouxe democracia, nem gerou bem-estar ou estabilidade duradoura”. Para a mandatária, apenas os povos podem construir seu próprio futuro, decidir seu caminho e exercer soberania sobre seus recursos naturais, um princípio que ela classificou como “não negociável” e consagrado nos artigos 39 e 40 da Constituição do México.
Presidenta do México defende a autodeterminação das nações do continente
A fala de Sheinbaum teve como alvo central a lógica da Doutrina Monroe, que em 2026 ressurge sob a sombra das ameaças de Trump de “gerir” recursos estratégicos como o petróleo e o urânio da América Latina. Ao afirmar com vigor que a América “não pertence a uma doutrina nem a uma potência, mas sim aos povos de cada um dos países que a conformam”, a presidenta estendeu sua solidariedade a outras nações da América do Sul. Ela defendeu que o continente deve ser um espaço de cooperação para o desenvolvimento e não um cenário para a força de um único Estado, fazendo um apelo direto para que as Nações Unidas e a Organização dos Estados Americanos (OEA) assumam o papel de garantidoras da autodeterminação das nações para evitar derramamentos de sangue.
A preocupação de Sheinbaum não se limitou à Venezuela. Ela também falou das ameaças recentes contra a Colômbia e a soberania do Canal do Panamá, classificando tais movimentos como “retrocessos que ferem a integridade territorial e a confiança mútua necessária para a estabilidade do hemisfério”. No plano doméstico, a presidenta rebateu com firmeza as insinuações de Trump sobre uma possível invasão militar no México sob o pretexto de combater o narcotráfico. Ela reiterou que “a segurança interna é uma prerrogativa exclusiva do povo mexicano”, e defende o entendimento baseado na “coordenação sem subordinação”.
Em uma crítica direta aos setores da direita mexicana que flertam com o intervencionismo, Sheinbaum afirmou que “se equivocam aqueles que pensam que a interferência estrangeira terá qualquer legitimidade popular”. Segundo a presidenta, a colaboração bilateral deve focar nas causas da violência, como o tráfico ilícito de armas que flui do norte para o sul, e não em invasões que ela classificou como “não sérias” e desnecessárias frente às capacidades das instituições nacionais. Para ela, a defesa da soberania deve ser uma posição uníssona de todos os mexicanos.
Além da contundência contra o intervencionismo estadunidense, Sheinbaum apresentou avanços significativos na agenda social mexicana para 2026, como o crescimento de 13% no salário mínimo geral e a expansão da rede de proteção que agora atinge 14,1 milhões de idosos e 3,5 milhões de mulheres acima de 60 anos. Ao reafirmar o controle estatal sobre a infraestrutura energética e hídrica como pilar do desenvolvimento, Sheinbaum encerrou o discurso ligando a proteção do milho nativo e da água à própria liberdade política da América Latina: um continente que “se recusa a ser o quintal de qualquer potência”, afirmou.
O post ‘América não pertence a uma doutrina nem a uma potência’, afirma Claudia Sheinbaum apareceu primeiro em Vermelho.