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Ana Prestes: “As bombas que caem no Irã são destinadas a todos nós”

A 11ª e última mesa da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, realizada na tarde deste domingo (29) no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre, debateu “Resistências, Articulações e Alternativas Democráticas”. Mediada por Damian Hazar, do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial, a mesa reuniu lideranças de quatro continentes para afirmar que a luta antifascista exige unidade na diversidade, protagonismo dos movimentos sociais e radicalidade na defesa da democracia.

Em sua intervenção, Ana Maria Prestes, secretária de Relações Internacionais do PCdoB, destacou a urgência histórica da organização antifascista. “Nesses últimos dois anos, é a terceira conferência antifascista da qual eu participo”, afirmou, citando Caracas (2024), Moscou e Porto Alegre (2026).

Segundo Ana, o dia 3 de janeiro de 2026 — data do sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores — “nos acordou para a realidade latino-americana muito cruel, muito dramática, muito grave”. Para ela, a ordem executiva de Trump de 29 de janeiro impôs um bloqueio ainda maior a Cuba, que vive “as mais altas limitações, restrições que um povo pode sofrer”.

Ana Maria Prestes (SRI PCdoB) discutiu Resistências, Articulações e Alternativas Democráticas

Ana conectou os ataques ao Irã, em 28 de fevereiro, com o sofrimento dos povos palestino, libanês, cubano e venezuelano: “As bombas que caem no Irã, no Líbano, em Gaza ou na Palestina… o cerco que se faz a Cuba é um cerco que se faz a todos nós e a todas nós”.

A dirigente alertou para a ofensiva imperialista na região: o acordo com o Paraguai que transforma todo o país em base militar dos EUA; o controle do Panamá para retirá-lo da rota comercial da China; a remilitarização das Galápagos no Equador. “Tudo isso mostra como esse momento é delicado, dramático e exigente por parte de todos nós”, sustentou.

Ana também conectou a ofensiva externa ao cenário eleitoral brasileiro: “Nós somos alvo neste processo e as eleições, talvez as mais complexas dos últimos tempos, são essas que a gente vai enfrentar”.

Relatando experiência recente na caravana “Comboio Nuestra América” a Cuba, com mais de 650 pessoas de 30 países, Ana destacou que placas solares já cobrem 50% da necessidade energética diária da ilha. “Cada campanha que a gente tem realizado pelo salvamento, neste momento tão dramático do povo cubano, conta”, afirmou, convocando à reativação das campanhas de solidariedade e pressão sobre governos para romper o bloqueio, especialmente no envio de combustível.

Liége Rocha: protagonismo feminino e luta no cotidiano

Liége Rocha (CI FSM, FDIM) foi debatedora do tema

Na condição de debatedora, Liége Rocha, do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial e da Federação Democrática Internacional das Mulheres (FDIM), enfatizou o papel histórico das mulheres na resistência. “Nós, mulheres, batalhamos e conquistamos o direito ao voto. Nós, mulheres, batalhamos e conquistamos uma constituinte brasileira que nos desse espaço, que respeitasse os nossos direitos”, afirmou.

Para Liége, a articulação dos movimentos sociais deve ocorrer não apenas em fóruns internacionais, mas no cotidiano: “A luta de ideias não se dá só na academia, é no dia a dia. É no ponto de ônibus, é na escola, é no local de trabalho, é olho no olho”.

Relatando um episódio de racismo em um bazar em São Paulo, Liége ilustrou a necessidade de interação constante: “Como é que minha filha não quer que eu interaja? Eu tenho que interagir”.

Citando sua participação na reunião do comitê de direção da FDIM em Cuba e na conferência antifascista em Caracas, Liége encerrou com uma reflexão sobre “juventude acumulada”, citando Chávez: “Não somos velhos, nós somos juventude acumulada. Por isso que nós estamos firmes na luta até agora”.

Unidade e protagonismo na luta antifascista

O Salão de Atos da Reitoria da UFRGS (Av. Paulo Gama, 110 – Farroupilha – Porto Alegre) tem capacidade para 1.170 lugares

Fernanda Gadea (ATTAC Espanha) defendeu fiscalização progressiva, controle de fluxos de capital, cancelamento de dívidas ilegítimas e transição ecológica como desafio social. “Nenhuma pessoa é ilegal”, afirmou, citando a regularização de imigrantes na Espanha como conquista possível.

Donka Atanassova (Pacto Histórico, Colômbia) descreveu a realidade colombiana como fruto de um ciclo histórico de mobilizações populares, destacando conquistas do governo Petro como redistribuição de terras, melhores salários e reconhecimento de trabalhadoras comunitárias. “A mobilização constante fortalece o governo”, sustentou.

Manon Aubry (LFI França) denunciou a escalada da extrema-direita na Europa e defendeu resistência parlamentar e extraparlamentar: entrega de pílulas do dia seguinte na Polônia, participação em paradas do orgulho na Hungria, solidariedade com flotilhas à Palestina. “Se a extrema-direita ganhou nos anos 30 na Europa, foi porque a esquerda foi incapaz de propor uma alternativa de esperança e de se unir com os movimentos sociais”, alertou.

Roberto Robaina (PSOL Porto Alegre) destacou o esforço de unidade para realizar a conferência e agradeceu à reitora da UFRGS pela coragem de ceder o espaço. “A unidade não significa ocultar as diferenças, mas debater elementos essenciais que devem nos unir. E nesse caso é muito simples: os documentos já mostraram o que significa o fascismo”, afirmou.

Valter Pomar (Fundação Perseu Abramo) reafirmou que combater o fascismo exige combater simultaneamente neoliberalismo e imperialismo. Citando Mao Tse-Tung, afirmou que o imperialismo é “um tigre de papel estrategicamente, mas um tigre de aço taticamente”. “Só vamos triunfar se houver luta. Muita luta. Muita mobilização”, concluiu.

Encaminhamentos e Carta de Porto Alegre

A mesa encerrou com consenso sobre a necessidade de articular resistências locais e internacionais, combinar denúncia e proposta, e construir solidariedade militante. A Assembleia Geral subsequente aprovou a Carta de Porto Alegre, documento que sintetiza os compromissos antifascistas, anti-imperialistas e ecossocialistas debatidos ao longo dos quatro dias de conferência.

Como sintetizou Damian Hazar na mediação: “Um outro mundo é possível quando estamos juntos e juntas com nossas diferenças, mas também com nossa unidade antifascista e anti-imperialista”. Em tempos de ofensiva global da extrema-direita, Porto Alegre reafirma que a resistência também se internacionaliza — e que a luta continua.

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