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Angela Davis, feminicídio e a luta pela vida das mulheres no ABC Paulista

Após o brutal assassinato da companheira Gabriela Mariel em 2025, núcleo do Movimento de Mulheres Olga Benário em Mauá se reuniu e estudou a obra “Mulheres, Raça e Classe”, pautando a resistência contra a violência de gênero.

Naquele período, como tarefa prática desse processo de formação e mobilização, as mulheres do núcleo escreveram a matéria que se segue, conectando a teoria revolucionária à realidade urgente de suas vidas.

Taynée Mendes


MULHERES – A dor da perda transformou-se em combustível para a organização política em Mauá, no ABC Paulista. O Núcleo da região do centro da cidade do Movimento de Mulheres Olga Benário reuniu suas militantes para realizar o estudo coletivo do livro Mulheres, Raça e Classe, da filósofa marxista Angela Davis. A atividade foi motivada por um crime que marcou profundamente a organização na cidade: o brutal feminicídio de Gabriela Mariel Silvéria, militante da Unidade Popular (UP) e dirigente do movimento, assassinada pelo próprio companheiro.

Gabriela sabia que o patriarcado matava. Denunciava a opressão de gênero e lutava por um mundo onde as mulheres pudessem viver livres. Mas a consciência não foi suficiente para protegê-la do Estado omisso. Ela se tornou mais uma estatística do feminicídio no Brasil, um crime que atinge, em sua maioria, mulheres negras e trabalhadoras.

Para entender o que está por trás desses assassinatos em massa, o estudo da obra de Angela Davis se mostra fundamental. A autora demonstra como, no capitalismo, a opressão de gênero caminha lado a lado com as opressões de raça e classe, servindo diretamente à manutenção do lucro dos patrões.

O retrato da violência

Os dados de 2024 — período em que o debate se acentuou — já acendiam o alerta máximo: o Brasil registrou 1.492 feminicídios naquele ano, o maior número desde que a lei foi criada em 2015, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

A violência tem rosto e endereço: quase 80% dos crimes são cometidos por companheiros ou ex-companheiros, e a própria residência permanece como o local mais perigoso para as mulheres.

Como chegamos a esse ponto? O patriarcado ganha força com o capitalismo ao consolidar a divisão sexual do trabalho. No modelo industrial, as funções de cuidado e manutenção da vida (reprodução social) foram empurradas exclusivamente para as mulheres no espaço privado do lar, sem remuneração, enquanto os homens ocupavam a esfera pública da produção econômica. Essa hierarquia é funcional para o capital, que explora o trabalho invisível da mulher para baratear o custo de reprodução da força de trabalho.

Lições da história e a atualidade da luta por abrigos

Essa exploração deu origem às lutas feministas desde o século XIX. Na Declaração de Seneca Falls (1848), as mulheres já denunciavam as leis do matrimônio que favoreciam os homens. Angela Davis aponta para o caráter repressor do casamento na época:

“Ao exigir obediência absoluta das esposas, a instituição do matrimônio concedia aos maridos o direito de puni-las […]” (p. 63).

Davis analisa como o movimento feminista dos anos 1970 e 1980 combateu a violência sexual exigindo políticas públicas concretas, como abrigos e centros de apoio. Passadas décadas, essas pautas continuam atuais e urgentes. No Brasil, embora existam as Delegacias da Mulher, a maioria não funciona 24 horas e carece de estrutura de acolhimento real. No caso de Gabriela, a ausência de um atendimento emergencial e de redes de apoio estatais eficazes custou sua vida. É por isso que o Movimento Olga Benário constrói ocupações e exige abrigos públicos diariamente.

Unificar a classe contra o capital

Embora valorize os marcos históricos do feminismo, Davis critica as limitações dos movimentos que ignoram a realidade das mulheres negras e operárias. A resistência dessas trabalhadoras sempre foi forte: desde o final da década de 1820, operárias organizavam greves contra a dupla opressão que sofriam. A emancipação feminina não será plena se ignorar as desigualdades de classe e raça.

Recuperando uma fala da ativista Angelina Grimké, citada no livro:

“Em um país onde mulheres são assassinadas, é natural que elas queiram saber por que isso acontece” (p. 21).

Nós, do Movimento de Mulheres Olga Benário de Mauá, não apenas queremos saber: queremos transformar. Lutar por justiça para Gabriela e para todas as vítimas da violência machista é lutar contra o capitalismo. Exigimos o fim da opressão para construir uma nova sociedade, onde a vida das mulheres valha mais do que o lucro e a ordem patriarcal.

Gabriela vive na nossa luta!