Quem busca por Michelle Bolsonaro no Google pode encontrar o nome de Serena Joy entre as sugestões. A personagem de O Conto da Aia, romance distópico da autora canadense Margaret Atwood adaptado para a TV, tem sido comparada com frequência à senadora recém-eleita por diversas razões.
A primeira delas remete ao vídeo publicado por Michelle pouco antes do início da campanha eleitoral. Nele, ela se diz vítima de abandono e silenciamento por parte de Flávio Bolsonaro, então pré-candidato à Presidência, e dos homens que compõem o núcleo central da extrema direita. Na ficção, Serena Joy vive um dilema semelhante: ajuda a construir o Estado teocrático de Gilead e defende bandeiras que acabam se voltando contra ela própria.
Michelle pode ter feito as pazes com o primogênito do marido, mas as prioridades do bolsonarismo continuam as mesmas: a submissão da mulher, a retirada de direitos, a negação da misoginia e a falta de equidade.
O mundo distópico da ficção, portanto, parece encontrar paralelos preocupantes com a realidade do país, assim como acontece em outras partes da América do Sul, nos Estados Unidos e na Europa. Sempre que isso ocorre, outras obras são recuperadas pelo público para tentar explicar como funciona a engrenagem dos regimes totalitários em suas mais variadas faces.
Entre as produções brasileiras, Medida Provisória, que marcou a estreia de Lázaro Ramos na direção de longas de ficção, em 2022, imagina um Brasil em que uma suposta reparação histórica à população negra se transforma em uma ordem de migração compulsória para o continente africano.
Em meio aos ataques racistas à recém-eleita deputada federal Ana Elisa, a mulher negra mais votada da história de Minas Gerais, nada mais pertinente do que imaginar até onde pode ir esse perigoso projeto político que pretende controlar o país.
Há ainda o mais recente O Último Azul, em que os idosos, num Brasil que pode se materializar em pouco tempo, são tratados como descartáveis e precisam buscar abrigo onde menos se espera.
A seguir, a Focus Brasil reúne três filmes e três séries para ver antes do segundo turno das eleições e reforçar a resistência em defesa da democracia no Brasil.
Séries
O Conto da Aia (2017)
Em uma sociedade totalitária, os Estados Unidos dão lugar a uma ditadura teocrática que retira os direitos das mulheres e impõe a reprodução forçada. A série acompanha June em sua luta pela sobrevivência e pela liberdade.
Baseada no romance de Margaret Atwood, lançado em 1985, a obra alerta para os perigos do fundamentalismo, do controle dos corpos e da perda gradual de direitos. Mostra como discursos morais podem justificar a opressão e naturalizar o autoritarismo.
Onde assistir: Disney+
Years and Years (2019)
A série acompanha uma família britânica ao longo de 15 anos, enquanto crises políticas, econômicas e tecnológicas transformam a sociedade. A ascensão de uma liderança populista acompanha a deterioração das instituições democráticas.
Próxima da realidade, a produção mostra como a democracia pode se enfraquecer gradualmente, entre desinformação, intolerância e concentração de poder. É um alerta sobre os riscos de ignorar pequenos retrocessos até que as liberdades estejam ameaçadas.
Onde assistir: sem disponibilidade nos serviços de streaming no Brasil no momento
The Boys (2019)
Em um mundo no qual super-heróis são celebridades controladas por uma grande corporação, um grupo de pessoas comuns decide enfrentar esses ídolos corruptos. Por trás da imagem de salvadores, escondem-se violência, abusos e ambições políticas.
Com humor ácido, a série satiriza a extrema direita, o culto à personalidade e a manipulação da opinião pública. Mostra como propaganda, desinformação e idolatria podem transformar figuras populares em instrumentos de poder autoritário.
Onde assistir: Prime Video
Filmes
Medida Provisória (2022), de Lázaro Ramos
Em um Brasil distópico, uma medida obriga pessoas negras a deixarem o país e migrarem para a África. O que se apresenta como uma decisão burocrática se transforma em perseguição, violência e resistência.
O filme alerta para os perigos da institucionalização do racismo e da retirada de direitos. Mostra como o autoritarismo pode avançar disfarçado de medidas oficiais e justificativas aparentemente aceitáveis, que remetem ao discurso deturpado de parlamentares da extrema direita. Há falas da deputada Eduarda Campopiano que poderiam muito bem sair da boca de personagens do filme.
Onde assistir: Globoplay e Telecine; aluguel ou compra na Apple TV
O Último Azul (2025), de Gabriel Mascaro
Em um futuro próximo, Tereza, uma mulher de 77 anos, é obrigada pelo governo a viver em uma colônia destinada aos idosos. Para escapar desse destino imposto, ela embarca em uma jornada pelos rios da Amazônia em busca de liberdade e autonomia.
O filme questiona uma sociedade que exclui quem considera improdutivo ou descartável. A história faz refletir sobre como a busca por ordem e eficiência pode servir de justificativa para restringir direitos e liberdades individuais.
É bom lembrar que, caso Flávio Bolsonaro seja eleito, os idosos no Brasil também poderão ser atingidos pelas propostas de redução das aposentadorias presentes em seu plano de governo.
Onde assistir: Netflix
Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
Em um povoado do sertão pernambucano, os moradores descobrem que sua comunidade desapareceu dos mapas e que estão sendo alvo de uma ameaça violenta. Diante de forças externas que desprezam suas vidas, precisam se organizar para resistir.
Bacurau aborda a violência política, o desprezo pelos mais vulneráveis e a tentativa de apagar comunidades consideradas indesejáveis. Sua mensagem permanece atual: diante do autoritarismo e da opressão, a organização popular, a solidariedade e a resistência coletiva são fundamentais para defender direitos e dignidade.
Onde assistir: Netflix e Telecine