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Antes do Ministério, o Cinema

Oitenta e três dias após a Revolução, Cuba criou o ICAIC, antes do Ministério da Cultura. Sob bloqueio, formou cineastas de três continentes e produziu clássicos do cinema mundial. Cem anos depois de Fidel, segue sendo a maior vitória cultural da ilha.

Passaram-se apenas oitenta e três dias entre o triunfo da Revolução e a criação do instituto que transformaria Cuba numa potência cinematográfica.

Não foi a saúde, não foi a reforma agrária, não foi sequer o Ministério da Cultura. O primeiro organismo cultural criado pelo governo revolucionário foi dedicado ao cinema, e o ICAIC nasceu antes do próprio ministério que depois o abrigaria.

Essa cronologia diz mais sobre o projeto político de Fidel Castro do que muitos discursos que ele fez ao longo de cinco décadas, porque revela uma compreensão que a maioria dos governos nunca teve. Um povo não se transforma apenas comendo e aprendendo a ler. Ele precisa se ver, se ouvir e se reconhecer.

O Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficos nasceu pela Lei 169, de 24 de março de 1959, e a pressa tinha uma razão prática além da simbólica, porque Cuba convivia com uma taxa de analfabetismo próxima de vinte e cinco por cento e com uma população rural que nunca havia sido convidada a participar de nada. O cinema resolvia um problema logístico antes de resolver um problema estético, e a razão é simples, uma imagem alcança quem não sabe ler. A missão do instituto era criar uma indústria cinematográfica nacional e usar o cinema como instrumento artístico, cultural e de comunicação de massa, mas havia ali algo anterior ao decreto, o movimento de jovens que já no tempo de Batista mantinham projetos como “El Mégano”, de 1955, realizado por Julio García Espinosa com a colaboração de Tomás Gutiérrez Alea, filme apreendido e censurado pela ditadura.

A revolução não inventou o cinema cubano. Ela deu a esse cinema o que ele nunca havia tido, dinheiro, estrutura, circulação e a garantia de que não seria confiscado no dia seguinte. E fixou dois princípios que funcionariam como carta de intenções por décadas: o cinema é uma arte e constitui um instrumento de opinião e de formação da consciência individual e coletiva.

O que veio depois é uma das histórias mais impressionantes da cultura latino-americana do século XX.

Só nos primeiros dez anos, o instituto possibilitou “El Noticiero ICAIC Latinoamericano”, de Santiago Álvarez, um dos mais importantes cinejornais políticos do século e posteriormente declarado Memória do Mundo pela UNESCO, além de clássicos continentais como “Memórias do Subdesenvolvimento” (1968), de Tomás Gutiérrez Alea, e “Lucía” (1968), de Humberto Solás. O Noticiero número 1 foi exibido em 6 de junho de 1960, e Álvarez estaria à frente dessa produção semanal durante grande parte de seus trinta anos de existência.

Trinta anos de cinejornal feito numa ilha bloqueada, sem peças de reposição, sem película suficiente, sem acesso ao equipamento que o resto do mundo comprava sem pensar duas vezes.

A falta de recursos foi compensada com colagens, intertítulos gráficos, caricaturas, animações, jornais, panfletos e canções, num uso criativo de fotografias e música popular que transformou a dificuldade de produção em linguagem, aquilo que Julio García Espinosa formularia depois com o nome de cinema imperfeito. Enquanto isso, unidades móveis levavam projetores a lugares onde ninguém jamais tinha visto um filme, e o cinema deixava de ser privilégio urbano para virar coisa de todo mundo.

A dimensão internacionalista talvez seja o capítulo menos lembrado e mais generoso dessa história. Cuba tornou-se pólo de produção para cineastas de todos os continentes e ali filmaram ou trabalharam Jean-Luc Godard, Glauber Rocha, Miguel Littín, Ruy Guerra, Patricio Guzmán, Agnès Varda, Chris Marker, Joris Ivens e Mijail Kalatozov. O governo cubano, por meio do ICAIC, cooperou com a fundação de institutos e polos de produção em países com processos revolucionários em curso, como o Chile de Allende e a Nicarágua sandinista, colocando instalações e pessoal técnico qualificado a serviço de cinematografias incipientes, apoio que a maioria dos cineastas latino-americanos reconhece como incalculável. O gesto ganhou forma institucional definitiva em dezembro de 1986, quando a Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños foi criada tendo entre os fundadores Gabriel García Márquez, o poeta e cineasta argentino Fernando Birri e o cubano Julio García Espinosa, com a ideia de instaurar uma Escola de Três Mundos para estudantes da América Latina, África e Ásia. Fidel Castro esteve presente na cerimônia de abertura e, desde então, milhares de estudantes de mais de cinquenta países se formaram ali.

Uma ilha pequena e cercada decidiu formar cineastas de outros continentes. Poucos países ricos jamais fizeram algo remotamente parecido.

O teste mais duro veio quando a União Soviética desapareceu e Cuba entrou no que os cubanos chamam de Período Especial. A consequência para o cinema foi a redução drástica de recursos, da produção à distribuição, e o ICAIC concluiu apenas três longas em 1990. A resposta institucional foi a coprodução internacional, e foi assim que “Morango e Chocolate”, feito com Espanha e México, ajudou a manter o cinema cubano em circulação mundo afora.

Dirigido por Tomás Gutiérrez Alea, o filme se tornou em 1995 a primeira e única obra cubana até hoje indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Vale reparar em qual filme foi esse: uma história sobre um intelectual homossexual perseguido e um jovem militante que aprende a enxergá-lo como igual.

Um instituto de propaganda pura não teria produzido essa obra, assim como não teria produzido “Memórias do Subdesenvolvimento”, que disseca as contradições da sociedade revolucionária pelos olhos de um burguês que decidiu ficar. Alfredo Guevara, primeiro presidente do ICAIC, foi determinante em moldar esse espaço de vanguarda artística e crítica social, e a permanência de tal vocação sob cerco econômico permanente é uma conquista que a história tende a subestimar.

Cem anos depois do nascimento de Fidel Castro, a lição que o ICAIC oferece continua sendo a mais difícil de todas para qualquer projeto político que se pretenda transformador. A escassez financeira persiste, a entrada de financiamento privado e estrangeiro deslocou parte da produção para o setor comercial, e ao mesmo tempo uma geração jovem faz cinema independente sem esperar a indústria, com poucos recursos e muita vontade, exatamente como fizeram Alea e Espinosa em 1955. O ciclo se fecha de um jeito que ninguém planejou.

O que sobrevive de tudo isso não é um catálogo de filmes nem uma coleção de prêmios, embora ambos sejam consideráveis. Sobrevive a ideia que esteve no centro da criação do ICAIC, oitenta e três dias depois do triunfo da Revolução, a de que um país só existe de verdade quando consegue filmar a si mesmo.

Cuba levou essa ideia mais longe do que qualquer país pequeno tinha o direito de levar, e essa é a sua vitória mais duradoura.

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