Notícias

Aos 81, Lula continua voltando

Lula completa 81 anos nesta terça-feira, 27 de outubro, e tem motivos para comemorar. Dois dias antes, ganhou a eleição presidencial pela quarta vez. É um presente e tanto. Não cabe numa caixa, não precisa de embrulho e, ao contrário de muitos presentes, veio com mais de 64 milhões de digitais desejando “muitos anos de vida”.

A festa vai reunir eleitores e militantes diante do Palácio da Alvorada e transformou a celebração em uma espécie de festa da democracia para seus apoiadores. Celebra-se uma trajetória que, em suas curvas mais violentas, parece acompanhar as próprias convulsões do Brasil contemporâneo.

O cenário é apropriado. De um lado, a residência oficial do presidente. Do outro, gente que provavelmente não imaginava, quando Lula começou a fazer política, que um dia estaria ali para lhe cantar parabéns. A vida tem dessas. Às vezes, o sujeito sai de casa para trabalhar e acaba virando personagem da história. Outras vezes, vira presidente quatro vezes. Não é exatamente a promoção mais comum nas relações de trabalho.

É uma carreira política que, pela quantidade de curvas, derrotas e recomeços, dificilmente caberia em uma biografia convencional. Vai ser preciso reescrever o livro e refilmar o longa-metragem de sua vida.

A mãe e o cartório

Lula tem duas datas de aniversário. Os documentos dizem 6 de outubro de 1945. Ele comemora no dia 27. A explicação está na memória da família e num registro feito anos depois do nascimento, quando a burocracia acabou produzindo uma divergência que atravessou décadas.

Lula preferiu acreditar na mãe, dona Lindu. É uma decisão compreensível. Entre a palavra da mãe e a de um cartório, muita gente ficaria com a mãe. O cartório pode ter carimbo, livro e funcionário concursado, mas dificilmente conhece o filho tão bem.

O detalhe ganhou uma ironia histórica: foi em 27 de outubro de 2002, no dia em que completava 57 anos, que Lula venceu sua primeira eleição presidencial. O aniversário e a vitória ficaram associados. Desde então, o calendário parece ter desenvolvido uma preferência política.

Lula nasceu em Caetés, no agreste pernambucano, filho de uma família pobre e numerosa. Em 1952, deixou Pernambuco com a mãe e os irmãos, numa viagem de cerca de 13 dias em um pau de arara. O destino era São Paulo, que não o recebeu como recebe um presidente; recebeu-o com trabalho. Não havia garantia de que haveria felicidade, mas a pobreza já tinha demonstrado que não pretendia oferecer muitas alternativas.

O homem que aprendeu uma profissão

Em São Paulo, Lula foi engraxate, office-boy e empregado de tinturaria. Depois estudou no Senai e se tornou torneiro mecânico. Foi trabalhar nas metalúrgicas do ABC paulista, onde descobriu que as máquinas não eram as únicas coisas que precisavam funcionar melhor. Os salários também. 

Ali, no território áspero das grandes fábricas, encontraria não apenas uma profissão, mas uma classe social.

Na década de 1970, começou a se destacar no movimento sindical. Em 1975, assumiu a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, com 92% dos votos, passando a representar uma categoria de cerca de 100 mil trabalhadores. Vieram as greves, as assembleias lotadas e o confronto com a ditadura militar. 

Numa época em que tudo parecia estar anestesiado pela ditadura, Lula foi forjado no mesmo metal prensado e ruidoso que anunciava o futuro do país. Em 1980, foi preso por sua atuação sindical. Passou 31 dias na cadeia. Não era o tipo de experiência que alguém escolheria para enriquecer o currículo, mas Lula saiu dela disposto a continuar na política. Naquele mesmo ano, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores.

A ideia era simples, embora a execução prometesse ser complicada: trabalhadores também podiam disputar o poder. Até então, a política brasileira parecia ter uma lista de convidados relativamente restrita. Lula decidiu entrar sem esperar que alguém lhe abrisse a porta.

Perder também dá trabalho

A porta, como se sabe, não se abriu imediatamente.

Derrotas também fazem parte da história. Lula disputou o governo de São Paulo em 1982. Em 1986, foi eleito o deputado federal mais votado do país e participou da Assembleia Nacional Constituinte. Em 1989, depois de quase três décadas sem eleição direta para presidente, chegou ao segundo turno contra Fernando Collor e perdeu por pequena diferença.

Vieram outras derrotas. Perdeu novamente em 1994 e 1998, diante de Fernando Henrique Cardoso. Três derrotas presidenciais são suficientes para fazer qualquer pessoa considerar outras atividades. Lula poderia ter escrito um livro de memórias, aberto uma consultoria ou passado a dar conselhos sobre como perder eleições. Preferiu tentar mais uma vez. É como se, por trás daquele homem, houvesse uma multidão insistindo também.

Em 2002, venceu José Serra. No dia do aniversário, aos 57 anos, tornou-se presidente da República. O aniversário virou, naquele ano, noite de celebração política. O menino que atravessara o país num caminhão chegou ao Planalto. A distância entre Caetés e Brasília continuava grande, mas, naquela noite, pareceu menor.

Lula foi reeleito em 2006. Seus dois primeiros governos ficaram marcados por políticas sociais, valorização do salário mínimo, expansão do emprego e ampliação do acesso à educação. Em 2010, deixou a Presidência com enorme popularidade. Parecia um bom momento para descansar. A política brasileira, porém, raramente respeita o desejo de descansar de alguém.

Quantas vezes o Brasil concordou que Lula estava em seu apogeu de grandeza. Uma trajetória que se confunde com a democracia brasileira, desde sempre, em suas diversas manifestações. Mas a história ainda prometia mais momentos de grandeza e seu capítulo mais dramático.

A volta da volta

Em 2018, Lula foi preso após condenações na Operação Lava Jato e ficou impedido de disputar a eleição presidencial. O homem que havia ocupado o Planalto estava numa cela enquanto o país escolhia seu sucessor. Parecia uma inversão brutal do percurso.

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações e restabeleceu seus direitos políticos. O objetivo da prisão parecia dizer o tempo todo o quanto era impossível derrotar aquele homem. 

Lula voltou à campanha em 2022 e venceu Jair Bolsonaro no segundo turno. Aos 77 anos, em janeiro de 2023, o menino do pau de arara volta a subir a rampa do Palácio do Planalto. Era o retorno de um político que já havia demonstrado especial dificuldade em aceitar a palavra “fim”.

Agora, aos 81, Lula olha para uma paisagem que nenhum outro presidente brasileiro experimentou ao vencer outra eleição.

São quatro mandatos conquistados pelo voto direto. A trajetória inclui derrotas, vitórias, greves, a Constituição, prisão, dois governos, uma reeleição, o retorno à disputa e mais uma vitória. Se fosse uma série de televisão, alguém já teria sugerido reduzir o número de temporadas. Mas a audiência continua.

O aniversário e a história

Aos 81 anos, Lula chega ao aniversário num momento extraordinário de sua carreira. Lula havia terminado o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro. Precisou virar a disputa em três semanas, reconstruir alianças, mobilizar sua base e convencer milhões de eleitores a retornar às urnas. Lula ampliará o próprio recorde como o presidente mais velho a tomar posse no país.

A vitória veio depois de uma campanha disputada, na qual precisou mobilizar aliados e conquistar eleitores num país dividido. Não foi uma caminhada tranquila. Nunca foi.

O Alvorada é apenas o endereço do aniversário. A verdadeira casa política de Lula sempre esteve em outro lugar: nas assembleias, nos sindicatos, nos comícios, nas ruas, nas portas de fábrica, nas caravanas e nas multidões. Foi ali que ele aprendeu a falar, a ouvir, a perder. E foi ali que aprendeu a voltar.

Diante do Alvorada, os apoiadores que se reunirem para cantar parabéns estarão celebrando mais do que a idade do presidente. Muitos talvez não saibam explicar a razão exata daquela reunião, mas sabem que a história que se comemora lhes pertence de algum modo.

Para muitos, será também a comemoração de uma trajetória que parecia encerrada e recomeçou várias vezes. Lula celebra o aniversário diante de um povo que, décadas depois, ainda reconhece naquele homem de barba branca alguma coisa do metalúrgico que um dia falou em nome dos trabalhadores do ABC. Assim como o comício no estádio da Vila Euclides, que abriu a última campanha, esta é uma volta completa na história.

Há o menino de Caetés, o retirante do pau de arara, o torneiro mecânico, o sindicalista, o fundador de partido, o candidato derrotado, o presidente, o preso e o candidato que voltou. Todos cabem no homem de barba branca que completa 81 anos.

Mas a imagem talvez seja mais simples do que todos os recordes. De um lado, o menino que deixou Pernambuco num pau de arara. De outro, o homem que, oito décadas depois, ainda encontra gente disposta a sair de casa para cantar seu nome.

Há uma velha divisão brasileira entre o sertão e o litoral, entre o interior e os centros de poder, entre os que chegam de baixo e os que sempre estiveram acima. A trajetória de Lula atravessou essa divisão.

Lula tem duas datas de nascimento. Talvez tenha também várias vidas políticas. Em algumas, perdeu. Em outras, venceu. Em todas, voltou a disputar o próximo capítulo.

O cartório registra o dia 6. A mãe dizia dia 27. Lula escolheu comemorar hoje, e o eleitorado acaba de lhe dar mais um motivo.

Diante do Alvorada, a festa terá bandeiras, discursos e parabéns. A história, essa velha senhora que não costuma aceitar pedidos de pausa, continuará no dia seguinte.

Lula completa 81 anos. E, pelo que se viu nas urnas, ainda não está pronto para soprar as velas e ir dormir.

O post Aos 81, Lula continua voltando apareceu primeiro em Vermelho.