A carta divulgada para reafirmar a autoridade de Flávio Bolsonaro dentro da extrema direita acabou produzindo uma nova restrição judicial sobre a campanha do senador. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu nesta segunda-feira, 13 de julho, por 90 dias, as visitas do pré-candidato do PL ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena em prisão domiciliar.
A decisão foi tomada depois que Flávio publicou nas redes sociais, no sábado, 11, um vídeo no qual leu uma carta escrita pelo ex-presidente durante uma visita familiar. No documento, Bolsonaro reafirmou o filho como seu candidato à Presidência da República e o apresentou como “porta-voz”, numa tentativa de conter as divisões que se aprofundaram nas últimas semanas dentro da família e do campo político bolsonarista.
Moraes entendeu que a publicação desrespeitou a proibição imposta a Jair Bolsonaro de utilizar as redes sociais, diretamente ou por intermédio de terceiros. O ministro deu 48 horas para que a defesa do ex-presidente se manifeste e determinou o envio do caso ao Ministério Público Eleitoral, que deverá avaliar possíveis providências diante do caráter eleitoral da mensagem.
“Não há dúvidas, portanto, que a conduta irregular de Flávio Nantes Bolsonaro desrespeitou expressa vedação judicial e configurou ostensivo desvio de finalidade no exercício de seu direito de visita”, escreveu Moraes. O ministro aplicou a previsão da Lei de Execução Penal que permite a suspensão imediata das visitas quando o direito é utilizado para descumprir restrições judiciais.
A medida alcança praticamente todo o período eleitoral até o primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Na prática, Flávio fica impedido de manter encontros presenciais com aquele que continua sendo seu principal avalista político justamente quando a candidatura entra na fase decisiva. A convenção nacional do PL para formalizar o nome do senador está marcada para 25 de julho, em São Paulo.
Uma carta para tentar unificar o bolsonarismo
Na mensagem, Jair Bolsonaro classificou Flávio como a “melhor opção” para representar seu grupo político e pediu que apoiadores e aliados deixassem de lado as “possíveis diferenças”. O ex-presidente também afirmou que o momento exigia “arregaçar as mangas” em favor da candidatura.
Durante a transmissão, Flávio disse que a definição do pai como seu porta-voz serviria para evitar “falas conflituosas ou direções diferentes” dentro da direita. O senador afirmou ainda que setores estariam boicotando sua pré-campanha e convocou seguidores a defender seu nome nas redes sociais.
A carta, portanto, não foi apenas uma manifestação familiar. O documento cumpria uma função eleitoral imediata: tentar estabelecer uma linha de comando dentro do bolsonarismo e encerrar as dúvidas sobre quem fala em nome do ex-presidente, condenado a 27 anos e três meses de prisão pela trama golpista.
Jair Bolsonaro já havia indicado o filho como seu sucessor em dezembro de 2025. Desde então, Flávio tenta transformar o apoio do pai em uma candidatura nacional, ao mesmo tempo em que busca construir uma imagem mais moderada para dialogar com setores empresariais, partidos do centro e eleitores que rejeitaram o ex-presidente em 2022. A necessidade de uma nova carta, a menos de três meses da eleição, mostrou que a transferência de autoridade ainda não estava concluída.
O pré-candidato Ronaldo Caiado, do PSD, afirmou que o documento evidenciou a “fragilidade” da candidatura de Flávio. Para o ex-governador de Goiás, os candidatos precisam responder diretamente por suas posições, sem depender da manifestação de terceiros.
Racha com Michelle expôs disputa pelo legado
A carta foi divulgada após semanas de confronto entre Flávio e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. O conflito ganhou força em 24 de junho, quando Michelle criticou publicamente a articulação do PL em torno da candidatura de Ciro Gomes ao governo do Ceará e afirmou ter sido desrespeitada pelo enteado depois de defender outro nome para a disputa estadual.
O episódio ultrapassou uma divergência regional. Michelle acusou Flávio de tê-la atingido com uma “punhalada” e deixou, em 30 de junho, a presidência nacional do PL Mulher, estrutura que comandava desde 2023. A saída retirou da campanha uma das principais pontes do bolsonarismo com mulheres evangélicas e conservadoras.
A crise aumentou quando Michelle compartilhou um vídeo sobre festas promovidas pelo empresário Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. Flávio reagiu afirmando que a ex-primeira-dama estava “completamente desinformada” e negou ter participado dos eventos. Valdemar Costa Neto, presidente do PL, também criticou a publicação e chegou a declarar que Michelle não desejava participar da campanha do senador. A assessoria da ex-primeira-dama contestou a afirmação e disse que ela entraria na campanha “na hora certa”.
O desgaste levou a equipe de Flávio a ampliar a exposição de sua esposa, Fernanda Bolsonaro. A estratégia prevê mais vídeos e agendas voltadas ao eleitorado feminino, com a tentativa de apresentar o senador como um “Bolsonaro moderado”. O movimento ganhou urgência depois do afastamento de Michelle e da declaração do influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo de que mulheres, especialmente as solteiras, “votam muito mal”. Flávio repudiou a fala e passou a participar de encontros organizados por parlamentares do partido.
A disputa familiar expôs uma dificuldade antiga da extrema direita. Pesquisa e análises eleitorais indicam que o desempenho entre as mulheres continua sendo um obstáculo para Flávio. Michelle, que construiu uma atuação própria no PL e mantém influência entre o eleitorado evangélico, poderia funcionar como uma das principais peças para reduzir essa resistência. Sua ausência ou participação limitada enfraquece essa estratégia.
O peso do caso Dark Horse
A crise com Michelle se somou ao episódio que alterou o rumo da pré-campanha no início de maio. Áudios revelaram que Flávio negociou com Daniel Vorcaro um pagamento de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões pela cotação da época, para financiar o filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
O senador sustenta que se tratava de uma operação comercial para uma produção audiovisual e nega qualquer irregularidade. A repercussão, porém, colocou a candidatura no centro das investigações e controvérsias relacionadas ao Banco Master. A ligação com Vorcaro passou a ser explorada por adversários e abriu uma disputa dentro da própria família.
A pré-campanha tenta demonstrar que o episódio foi superado, mas seus integrantes reconhecem que a candidatura passou cerca de dois meses cercada por uma agenda negativa. Além do caso Dark Horse e do conflito com Michelle, o grupo enfrentou questionamentos sobre a casa de R$ 14 milhões utilizada como sede informal da campanha. O imóvel teve R$ 10,5 milhões financiados por uma instituição bancária, o que levou o deputado Lindbergh Farias a pedir que a Polícia Federal investigasse a operação.
Para recuperar a iniciativa, Flávio lançou em junho o plano “Brasil sem Medo”, com propostas para a segurança pública. O documento prevê a classificação de organizações como PCC, Comando Vermelho e milícias como grupos terroristas, a construção de presídios federais e mudanças na legislação penal. Especialistas ouvidos pela imprensa apontaram problemas jurídicos e desconhecimento sobre a divisão de responsabilidades entre União, estados e municípios em parte das propostas.
Trump, tarifas e soberania
Outro ponto de desgaste foi a tentativa de Flávio de utilizar sua proximidade com o governo de Donald Trump como ativo eleitoral. O senador viajou a Washington e participou de audiência do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, que avalia impor uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros.
Flávio pediu que uma eventual decisão fosse adiada e argumentou que a medida poderia beneficiar eleitoralmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O senador também defendeu o Pix diante das críticas americanas, mas propôs impedir que o sistema brasileiro se integrasse a redes de pagamento internacionais não ocidentais, sugestão criticada pelo governo por subordinar uma infraestrutura nacional às pressões de Washington.
A iniciativa gerou reação até mesmo entre candidatos da direita. Caiado acusou Flávio de agir de acordo com seus interesses eleitorais e afirmou que o senador havia “conspirado contra a economia” brasileira. Romeu Zema, do Novo, declarou que negociações comerciais com outros países são atribuição do governo federal, e não de um candidato.
A relação com Trump, apresentada inicialmente como demonstração de influência internacional, tornou-se um problema para a campanha. Ao pedir que o governo americano considerasse o calendário eleitoral brasileiro, Flávio reforçou a crítica de que integrantes da família Bolsonaro utilizam interlocutores estrangeiros para interferir na política interna.
Pesquisas mostram Lula à frente
Os levantamentos eleitorais mais recentes não apresentam um cenário único, mas mantêm Lula numericamente à frente de Flávio nas simulações de segundo turno.
A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada em 1º de julho registrou 48,8% para Lula e 42,3% para Flávio, diferença de 6,5 pontos percentuais. O levantamento ouviu 4.999 pessoas entre 26 e 30 de junho e tem margem de erro de um ponto.
O PoderData/Aya, divulgado em 25 de junho, mostrou uma disputa mais apertada: Lula com 46% e Flávio com 43%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Já a pesquisa BTG/Nexus publicada nesta segunda-feira apontou 47% para o presidente e 44% para o senador, reduzindo de seis para três pontos a diferença registrada na rodada anterior.
A campanha de Flávio utiliza os números mais próximos para sustentar que o pré-candidato voltou a crescer depois dos desgastes. Pesquisadores ouvidos pela CNN, entretanto, ressaltam que os levantamentos públicos continuam indicando vantagem de Lula, que varia entre três e seis pontos no segundo turno.
A aproximação com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também é considerada decisiva. Embora tenha feito gestos públicos de apoio, Tarcísio mantém interesses próprios e é apontado por setores empresariais e partidários como possível candidato presidencial em 2030. Seu nível de envolvimento na campanha de Flávio poderá determinar a capacidade do PL de construir um palanque competitivo no maior colégio eleitoral do país.
Pedido para revogar a prisão domiciliar
Antes da decisão de Moraes, Lindbergh Farias protocolou no STF um pedido para revogar a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro. O líder do PT na Câmara argumentou que a elaboração e a divulgação da carta representaram descumprimento objetivo das medidas impostas ao ex-presidente.
“O descumprimento é objetivo, deliberado e confessado. Objetivo, porque a manifestação do apenado foi efetivamente veiculada em rede social, alcançando audiência massiva. Deliberado, porque a carta foi redigida na manhã do mesmo dia da divulgação, no curso de visita familiar autorizada”, afirmou o deputado no documento.
Para Lindbergh, o regime de visitas foi usado como instrumento para permitir que Bolsonaro interferisse diretamente na campanha eleitoral. O parlamentar defendeu o retorno do ex-presidente ao regime fechado e afirmou que a carta transformava Flávio de candidato em simples porta-voz do pai.
Moraes não decidiu, até o momento, sobre a revogação da prisão domiciliar. A defesa terá de explicar a produção e a entrega da carta, enquanto o Ministério Público Eleitoral avaliará seus possíveis efeitos sobre o processo eleitoral.
A suspensão das visitas não retira Flávio da disputa, mas interrompe o contato presencial com Jair Bolsonaro durante praticamente toda a campanha até o primeiro turno. A decisão chega às vésperas da convenção do PL e obriga o senador a conduzir uma candidatura que ainda busca demonstrar autonomia, enquanto depende da palavra do pai para conter as divisões dentro da própria família e de sua base política.