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Após explosão em obra da Sabesp, moradores vitimados seguem fora de casa em São Paulo

Uma semana após a explosão provocada pelo rompimento de uma tubulação de gás durante uma obra da Sabesp no Jaguaré, na Zona Oeste de São Paulo, moradores ainda convivem com casas interditadas, demolições, prejuízos e incertezas sobre o futuro. O acidente, ocorrido em 11 de maio, deixou duas pessoas mortas, feridos e dezenas de imóveis atingidos. Para vizinhos afetados, a destruição transformou a rotina do bairro em um “cenário de guerra”. 

As vítimas foram Alex Sandro Fernandes Nunes, vigilante de 49 anos, que morreu no local, e Francisco Albino, de 62 anos, que ficou gravemente ferido e morreu dias depois. A explosão aconteceu durante uma obra da Sabesp que atingiu uma tubulação de gás da Comgás. 

O impacto da explosão destruiu casas, danificou estruturas, quebrou janelas, atingiu móveis e obrigou famílias a deixar suas residências. Segundo o governo estadual, ao menos 662 pessoas receberam auxílio emergencial de R$ 5 mil pelos danos provocados pela explosão. O valor é pago por Sabesp e Comgás, responsáveis também pelos custos de moradia das famílias atingidas, de acordo com correção registrada pelo Fantástico. 

O levantamento da CDHU identificou 126 imóveis na região atingida, em ação voltada a organizar o atendimento aos moradores e o processo de realocação das famílias. Parte das casas permanece interditada, enquanto moradores acompanham demolições e aguardam definição sobre indenizações, reformas e novas moradias. 

Recorrência

Ao comentar o caso, o governador Tarcísio de Freitas afirmou que o governo estadual tem “responsabilidade objetiva” no atendimento às vítimas e disse que cobrará das concessionárias a revisão dos procedimentos adotados nas obras em andamento. A declaração foi feita após a confirmação da segunda morte provocada pela explosão. 

A tragédia no Jaguaré não é o primeiro acidente grave envolvendo a Sabesp desde a privatização da companhia. Em março deste ano, o rompimento de um reservatório da empresa em Mairiporã matou um trabalhador terceirizado e deixou sete pessoas feridas, além de destruir casas e veículos de moradores. Em setembro de 2025, em Mauá, uma idosa de 79 anos morreu após uma tubulação da Sabesp se desprender durante uma obra e cair sobre sua residência. 

Outros episódios recentes também tiveram grande repercussão. Em Osasco, uma adutora da Sabesp se rompeu no Jardim Veloso, e a água invadiu residências. Na capital paulista, uma cratera aberta por obras da companhia na Marginal Tietê ficou meses sem solução, prejudicando o trânsito em uma das principais vias de São Paulo.

Sindicato vê relação com privatização

Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, o Sintaema, José Antonio Faggian, a tragédia era previsível diante do processo de privatização da Sabesp conduzido pelo governo Tarcísio de Freitas. Em entrevista ao Brasil de Fato, ele afirmou que a busca por lucro tende a reduzir investimentos em equipes, manutenção e procedimentos de segurança. 

“Uma empresa privada tem como objetivo principal o lucro, e esse tipo de coisa vai acontecer mais, infelizmente, e a gente só não achava que ia ser tão rápido”, afirmou o dirigente sindical.

Na época da venda da Sabesp, concluída em 2024, Tarcísio prometeu que a privatização traria tarifas menores, investimentos mais eficientes e melhora no atendimento à população. Para o Sintaema, o que se observa desde então é o aumento das queixas e a piora da percepção dos usuários. Segundo dados da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo, citados pelo sindicato, as reclamações passaram de cerca de 3,7 mil em 2023 para quase 10 mil em 2024, alta de 162%.

A privatização de serviços essenciais como água e esgoto também é criticada pelo presidente da Federação Interestadual dos Urbanitários do Sudeste, Esteliano Pereira Gomes Neto, integrante da direção executiva da Central Única dos Trabalhadores. Para ele, a lógica mercadológica transforma direitos básicos em produtos submetidos à rentabilidade financeira.

“A gente transforma serviços essenciais e necessários como se fosse uma mercadoria. Ou seja, ou tem lucro, ou eu não faço”, afirmou.

No Jaguaré, a semana seguinte à explosão mostrou que o impacto da tragédia vai além do momento do acidente. Famílias seguem fora de casa, imóveis permanecem condenados ou parcialmente interditados, e moradores ainda tentam reconstruir a própria vida enquanto aguardam respostas sobre responsabilidades, indenizações e segurança nas obras da Sabesp.