A morte de Hind Rajab, em 29 de janeiro de 2024 no bairro de Tel al-Hawa, na Cidade de Gaza, escancarou ao mundo o massacre realizado por Israel na Palestina. A menina de 5 anos, é uma das 20 mil crianças mortas até agora no conflito. As provas de que ela foi assassinada por forças israelenses a colocaram no centro de uma disputa que mobilizou uma campanha global por justiça.
Passados dois anos e meio daquela tragédida, que também tirou a vida de quatro familiares de Hind e outros 15 socorristas, Israel enfim admitiu, em relatório publicado nesta quarta-feira (19), que os autores dos disparos foram seus soldados. Todos foram mortos enquanto tentavam fugir da Cidade de Gaza em meio a tiros e bombas.
“As investigações revelaram que as forças da IDF atiraram em um veículo que se aproximava na direção oposta à evacuação anunciada em um comunicado preliminar do porta-voz da IDF aos moradores da região. Segundo as notícias, o veículo pertencia à família Hamada e, como resultado dos disparos, cinco passageiros morreram e dois sobreviveram: Hind Rajab e sua prima Lian”, diz o comunicado.
A confissão, no entanto, não deve alterar em nada o cenário de violência colocado em prática por Israel, cujo primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, possui mandado de prisão internacional em vigor, emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) sob acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos durante o conflito.
Organizações de direitos humanos apontam que investigações contra soldados por mortes de palestinos raramente resultam em condenações. De acordo com um relatório da Action on Armed Violence, Israel está criando um “padrão de impunidade” para violações cometidas contra palestinos em Gaza.
Quase 9 a cada 10 investigações militares israelenses sobre alegações de crimes de guerra ou abusos cometidos por seus soldados desde o início da guerra foram encerradas sem encontrar culpados ou permaneceram sem solução, de acordo com uma organização que investiga a violência contra civis em conflitos armados.
Em entrevista à agência Reuters nesta quarta (19), a avó da menina, que também se chama Hind Rajab, disse não confiar no Judiciário de Israel. “É claro que, se Deus quiser, eles chegarão a uma decisão correta. Mas exigimos que isso seja parte de um processo internacional”, afirmou. “Todo mundo sabia que a Hind era uma criança inocente, e ela pediu ajuda, mas ninguém ajudou. Os soldados israelenses mataram ela de forma proposital.”

Manifestação por justiça em Barcelona (Getty)
História virou filme
A morte da menina foi a inspiração para o filme “A Voz de Hind Rajab”, lançado em 2025 e que concorreu ao Oscar desde ano. O filme usa as gravações de áudio reais de Hind a uma central de atendimento do Crescente Vermelho. Voluntários tentam coordenar enquanto ela fala ao telefone presa dentro de um carro alvejado sob fogo cruzado.
A narrativa foca na tensão de uma equipe humanitária em permanente contato telefônico com a menina, que implora por ajuda em meio ao medo e aos tiros. A obra mistura o tom documental ao drama tenso para expor o custo humano da guerra na Faixa de Gaza. Na estreia do filme, no Festival de Veneza, o público o aplaudiu por mais de 23 minutos, um marco na história do cinema.
Sua trajetória aclamada fez com que a menina se tornasse um símbolo de luta contra o genocídio em Gaza, com ações realizadas no mundo inteiro, músicas escritas em sua homenagem e intervenções artísticas em pontos turísticos.

Elenco do filme com foto de Hind Rajab em Veneza (Divulgação)