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Após título mundial do Flor Ribeirinha, Ismael Diniz afirma: “O Brasil tem essa dificuldade de olhar para dentro”

No último sábado, 1º de agosto, um grupo nascido numa comunidade ribeirinha às margens do rio Cuiabá subiu ao palco de um teatro em Istambul e voltou campeão do mundo pela quinta vez. O Flor Ribeirinha, de São Gonçalo Beira Rio, venceu o 27º Campeonato Mundial de Folclore, na Turquia, representando o Brasil diante de grupos folclóricos de diversos países. Foi o quinto título internacional de uma trajetória que começou em 2017, também na Turquia, e passou pela Polônia, em 2021, pela Bulgária, em 2022, e pela Coreia do Sul, em 2023.

Com mais de três décadas de estrada, o grupo foi fundado por Domingas Leonor da Silva, a Dona Domingas, e se dedica à pesquisa, à preservação e à recriação da cultura popular mato-grossense. Em Istambul, uma comitiva de cerca de 80 pessoas levou ao circuito competitivo e também ao palco aberto, para o público em geral, o siriri e a viola de cocho, marcas da cultura do Centro-Oeste, ao lado do Boi-Bumbá e do samba. A competição integra o calendário da Federação de Festivais Internacionais de Dança (FIDAF).

Na comitiva estava Ismael Diniz, 28 anos. Nascido e criado em Cáceres, no interior de Mato Grosso, começou aos 7 anos nas danças urbanas, até ser arrebatado pela cultura popular. Passou quatro anos num grupo de projeção folclórica antes de chegar ao Flor Ribeirinha, onde está há cinco anos como dançarino, coreógrafo e professor nos projetos sociais.

Artista independente, ator e teatreiro, fez em Istambul sua primeira turnê competitiva, depois de temporadas de mostra na Bélgica, na França e em Nova York. Nesta viagem, integrou o corpo de baile e ajudou a apurar a construção cênica do quadro de Boi-Bumbá, a mais narrativa das peças, com seus personagens e sua carga dramática.

A conquista recoloca uma pergunta que o Brasil costuma driblar: por que um país tão plural ainda custa a reconhecer como produção artística sofisticada aquilo que nasce fora do eixo Rio-São Paulo, nas comunidades, nos quintais e nos territórios tradicionais? Foi sobre isso e sobre o que uma vitória dessas devolve, de concreto, ao lugar de onde veio que conversamos com Ismael.

Que Brasil entrou no palco com vocês em Istambul? O que de Mato Grosso, de São Gonçalo Beira Rio, estava ali junto com o corpo de baile?

A gente levou vários Brasis para o circuito competitivo, para os desfiles, para as mostras: o Brasil do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste, do Sudeste. Mas o momento de que a gente mais gosta, e o que nos deixou mais eufóricos, foi a apresentação de Mato Grosso, porque é a nossa terra, é o siriri, é uma coisa que está no sangue. Dançar o siriri é um dos momentos mais emocionantes para a gente.

As apresentações do circuito competitivo são num teatro fechado, geralmente só para os jurados. O siriri, não: foi para o palco aberto, para o público de Istambul, e outros grupos também puderam assistir. É o momento em que a gente abre a nossa cultura para o território onde está. Levar o Brasil de Mato Grosso foi, de fato, muito gostoso.

Você foi como dançarino, mas também é ator e deu uma orientação na parte cênica do Boi-Bumbá. O que precisava acontecer no corpo dos dançarinos para aquilo não ser apenas dançado, mas vivido?

Fui como corpo de baile, mas com a missão de aprimorar a parte cênica dos dançarinos no quadro de Boi-Bumbá, o nosso quadro do circuito competitivo, apresentado no teatro para um público mais reduzido e, principalmente, para os jurados.

O Boi-Bumbá é muito narrativo. Olhando para a cultura de Parintins, sempre há uma temática, as toadas têm uma temática, e a gente tem personagens muito bem definidos: o pajé, o tuxaua, as cunhãs-porangas, a rainha do folclore, a sinhá da fazenda. E o corpo de dançarinos, que são as tribos indígenas, precisa de uma expressão diferente, de uma aura diferente. Cada item tem a sua.

É um quadro que leva outras linguagens, porque a gente não vai só executar um movimento. O Brasil é riquíssimo nisso: temos diversas manifestações de dança, e cada grupo tem a sua especificidade. No frevo, você tem a euforia, a alegria; no siriri também. No Boi-Bumbá, você tem uma interpretação, uma carga dramática. A própria toada que a gente dança, “A celebração da fé”, fala de comunidades contando a celebração do indígena pela natureza.

O trabalho, nos ensaios, no Brasil e reforçado em Istambul, era levar para o corpo dos dançarinos toda essa essência do que a gente representa: os povos originários, a ancestralidade, a cultura do Norte. Como é que isso vai, de fato, para o corpo, para a expressão, para o rosto? A gente precisa dançar com plena consciência do que está levando ao palco, do que está dizendo. Por mais que o público possa não entender, é preciso criar uma atmosfera que chegue até ele. E a dança consegue fazer isso pela expressão.

Em que momento vocês sentiram que estavam sendo compreendidos, e não apenas assistidos? Que Brasil as outras delegações imaginavam antes e talvez depois?

Que pergunta boa. Nas interações que a gente teve, até antes de a gente se apresentar, o público da Turquia, os grupos de dança de lá e as outras delegações já vinham interagir com a gente fazendo o passinho do Jamal, que nasceu no Recife. Eles já tinham uma proximidade enorme com a cultura brasileira por causa dessa globalização pela internet; o Brasil consegue um alcance danado. Ali a gente viu que não seria só assistido: estava sendo compreendido pela dança, por uma energia que chega até eles sem ser presencialmente.

Quando a gente se apresentava, ficavam encantados com os figurinos, com as músicas, com os músicos. A música ao vivo faz toda a diferença. Trocamos bastante com o grupo do Daguestão, que é uma federação da Rússia. Eles queriam fazer um intercâmbio: ensinar a técnica que têm na ponta do pé, uma dança em que homens e mulheres dançam na ponta dos pés, em troca de a gente passar o sapateado gaúcho. Eles têm sapateado, giros de joelho, como os nossos gaúchos.

Eu fiquei impressionado: uma delegação da Rússia com conhecimento das tradições gaúchas do Brasil, interessada em aprender mais. Achei incrível como a gente já se conhecia de longe.

E muita gente perguntava de onde a gente era. Quando a gente falava “Brasil”, vinha na hora: “Do Rio de Janeiro?”. “Não, Centro-Oeste, Mato Grosso.” Um perguntou se os músicos eram do Rio; eu disse que não, somos todos do Centro-Oeste. Para eles, era um impacto descobrir essas manifestações, essas pessoas, perceber, para além do samba, que o Brasil é plural assim.

Não tem problema nenhum ver o Brasil pelo cartão-postal. Mas esses festivais de folclore fazem com que eles fiquem realmente encantados. Quando veem o siriri, uma manifestação tradicional de Mato Grosso, ficam impressionados com a potência: “Caraca, o Brasil é muito plural!”.

Essa conquista fala de uma potência artística que existe fora do eixo Rio-São Paulo. O Brasil ainda custa a reconhecer como sofisticado o que nasce das comunidades tradicionais?

Sim, sem dúvida. Fala muito dessa potência fora do eixo Rio-São Paulo, e é importante falar sobre isso. No Flor Ribeirinha, já faz alguns anos que a gente compete com o quadro do Norte, o Boi-Bumbá. Temos uma parceria muito interessante com o Norte, principalmente com o Boi Caprichoso. Tanto que o nosso diretor, Avinner Silva, esteve este ano no Festival de Parintins, junto com o Caprichoso. Levar isso para fora, mostrar esse Brasil plural, com o siriri e com o Boi-Bumbá, é de extrema importância.

Porque, se você pensar, até o Festival de Parintins, com toda a grandiosidade que tem, não era muito conhecido pelo Brasil. Teve um boom com a cunhã-poranga, com a Isabelle no BBB; um novo boom com a Marcelle. E, mesmo assim, isso chega a muita gente como novidade.

A gente está no mesmo lugar com Mato Grosso, não só com o siriri, mas com o rasqueado, com o lambadão. O Brasil tem essa dificuldade de olhar para dentro. É um verdadeiro choque cultural quando a gente leva essas manifestações para fora e, quando a gente ganha, quando sai a notícia, as pessoas veem um grupo de Mato Grosso levando manifestações folclóricas de várias regiões. Porque a gente trabalha com danças do Brasil todo, sempre pesquisando, indo à fonte.

E eu digo isso não só do público. As próprias escolas, as academias, a universidade precisam olhar mais para essas manifestações, que são tão importantes quanto as que nascem dentro das academias, do balé clássico inclusive. Porque o folclore, as tradições que vêm das comunidades, dos quintais, têm um formato, têm um estudo, têm uma base. São feitas do povo para o povo.

Depois que o aplauso acaba e a comitiva volta para casa, o que uma vitória dessas deixa de concreto para o território? Que futuro você queria que ela ajudasse a construir?

Quando os aplausos acabam e a gente volta para a nossa terra, eu penso muito nisso. Mato Grosso ainda tem uma coisa de não se olhar muito. Se você for para o norte do estado, não há tanta cultura do siriri. Tem a ver com o próprio processo de formação de Mato Grosso. Quando Mato Grosso e Mato Grosso do Sul eram um só estado, houve um cruzamento de culturas.

A cultura dos CTGs, dos Centros de Tradições Gaúchas, é muito forte e, há muito tempo, veio com uma ideia que eu vejo como neocolonialista: a de “aprimorar” ou “limpar” a cultura que representaria Mato Grosso. Esses embates ainda existem. O siriri não está no estado inteiro, não é reconhecido no estado inteiro. Até na própria capital, é muito recente a gente ter políticas públicas voltadas para a nossa cultura popular, o siriri, o rasqueado e o lambadão.

Acho que essas conquistas, esses prêmios que a gente consegue, têm dado mais visibilidade. Conseguimos que a TV Centro América acompanhasse a gente; vamos ter um link ao vivo com o programa Encontro. E isso reverbera de forma muito positiva para que outros grupos possam prosperar, alcançar mais lugares, mais reconhecimento, mais espaço, inclusive dentro do nosso território.

Porque o siriri, as danças tradicionais do siriri e do Boi à Serra, se estendem para além de Cuiabá: tem em Cáceres, em Varginha, em Santo Antônio, em Mimoso, em Várzea Grande.

Para o futuro, eu vejo isso com muito primor e muita esperança de que agregue e se espalhe para os outros grupos. É como naquela música que Maria Bethânia interpreta: “Vou aprender a ler para ensinar meus camaradas”. É sempre um trabalho de rede.

O que você traz de Istambul que não cabe numa medalha? O que essa viagem fez você entender que não sabia antes de ir?

Muita coisa. Das quatro viagens que eu já fiz, Bélgica, França, Saint-Malo e Nova York, esta foi a minha primeira em turnê competitiva, embora eu já conhecesse essa competição na Turquia. Fiquei encantado. Foi uma das melhores viagens que fiz, pela receptividade das pessoas de lá, e não só dos grupos: o pessoal que trabalhava na cozinha mandou mensagem depois, agradecendo. Uma receptividade que me deixou muito feliz.

E tem uma coisa que eu venho percebendo desde a minha primeira viagem: a arte e a cultura não têm língua, não têm fronteira. A gente acaba falando a mesma língua, a gente se entende. Fica tudo muito próximo, porque todo mundo está ligado pela cultura, pela arte.