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Apostas online já disputam renda das famílias brasileiras, aponta economista

Quando a CPI das Bets chegou ao fim, em junho de 2025, o cenário já era de devastação: milhares de famílias endividadas, empresas com lucros exorbitantes sob suspeita e famosos atuando como vitrine para atrair mais e mais clientes. O trabalho da comissão no Senado teve seu relatório final rejeitado em uma sessão esvaziada, sem apontar culpados, embora apresentasse pontos importantes que hoje, um ano depois, parecem ainda mais urgentes.

Para a economista Regiane Vieira, que tem acompanhado de perto os efeitos dos jogos online no Brasil antes mesmo de o tema ganhar força no debate público, a CPI foi uma oportunidade perdida e mostrou que a questão precisa ir além da polarização política.

“Essa é uma discussão que devemos ter em sociedade, pois a reflexão passa pela avaliação de aspectos como escolaridade e nível de alfabetização funcional da população, renda e subemprego, tributação, acesso à educação financeira e expansão dos serviços de promoção de saúde mental para que a regulamentação de mercados de apostas, algoritmos e propaganda realmente atenda aos anseios da nossa sociedade”, aponta.

Para além da regulamentação, com regras mais rígidas, Regiane acredita em um trabalho que ultrapasse o fator legal: a conscientização. “De forma complementar à regulamentação, o caminho paliativo nesse momento passa por reforçar a conscientização das pessoas sobre suas decisões financeiras, viabilizar a renegociação de dívidas e melhorar o acesso às terapias de saúde mental e ferramentas de educação financeira.”

As bets se tornaram um dos principais problemas econômicos do país, causando o endividamento de incontáveis famílias. Já há um balanço consistente de quanto esse tipo de jogo representa no orçamento do trabalhador e da trabalhadora?

O endividamento sistêmico das famílias brasileiras tem origem em múltiplos fatores, tanto estruturais, macroeconômicos, quanto comportamentais, microeconômicos.

Dentre os fatores estruturais, vemos uma população que, desde a pandemia, enfrenta aumento de preços de alimentos e do custo de vida nas cidades.

Embora nos últimos anos o desemprego tenha sido reduzido e a taxa de desocupação tenha atingido mínimas históricas, o nível de renda dos empregos gerados ainda é muito baixo para dar conta do custo de vida e das necessidades familiares. Por isso, muitas famílias têm recorrido a linhas de crédito caras, como cheque especial e cartão de crédito, para complementar a renda mensal, entrando numa espiral de endividamento.

A expansão das atividades de fintechs, que ampliou a oferta de serviços e principalmente de cartões de crédito, não veio acompanhada de melhora no nível de educação financeira da população que levasse ao planejamento e ao uso consciente dessas linhas de crédito, favorecendo o endividamento não planejado.

Nesse cenário, outro importante fator estrutural é o nível da taxa básica de juros em patamar historicamente alto, o que nos coloca entre os países com as maiores taxas de juros reais do mundo, contribuindo para que o endividamento se torne uma bola de neve sem fim.

Do ponto de vista comportamental, ou microeconômico, vemos que vieses comportamentais e a falta de educação financeira geram uma desconexão temporal entre o impacto das decisões financeiras que envolvem consumo, tomada de crédito e apostas, as bets, sobre o comprometimento futuro do bem-estar e da renda da família.

De forma geral, as pessoas têm sua capacidade de percepção das consequências de suas ações financeiras sobre o futuro diminuída quando comparada ao prazer gerado por esses gastos no presente. Falta de regulação adequada de propagandas, redes e atuação de bets completam o cenário.

A publicidade e a obsolescência programada, principalmente de produtos eletrônicos e de eletrodomésticos de linha branca, condicionam o consumo e invertem a percepção das famílias sobre o que realmente é prioritário para elas. Esse ambiente de estímulo ao consumo, aliado ao maior acesso ao crédito e às possibilidades de parcelamento, também contribui para o aumento do endividamento por impulso.

A combinação desses fatores estruturais e comportamentais resulta no campo perfeito para a proliferação indiscriminada de plataformas de apostas, que já se tornaram uma questão macroeconômica à medida que disputam a renda disponível e impactam a economia real ao comprometer a capacidade de consumo e a percepção de bem-estar das famílias.

Influenciadores recebem fortunas para mostrar ao grande público, através de suas redes, estilos de vida baseados em luxo que dizem terem sido construídos através da facilidade em apostas online. Pessoas comuns, em sua maioria trabalhadores das classes C, D e E, que vivenciam um dia a dia de escassez e insuficiência de renda, são o principal alvo das plataformas de apostas porque são essas pessoas que já estão sob estresse financeiro que compromete a capacidade cognitiva de avaliar impactos e então se tornam mais facilmente iludidas sobre a possibilidade fantasiosa de multiplicar sua renda através de apostas.

De forma equivocada, muitos encaram as apostas como “investimento” diante da possibilidade de multiplicar recursos pela “sorte”, e a economia comportamental nos ajuda a explicar que se cria um hiato entre as perdas geradas por tais apostas e o prazer oriundo dos eventuais ganhos.

Muitas famílias desviam recursos que iriam para o pagamento de despesas fundamentais como alimentação, moradia e lazer para as plataformas de apostas na esperança de multiplicar esses recursos e dar conta de todas as necessidades da família. A economia real perde porque menos renda será direcionada ao consumo de bens, e o setor varejista já sente os impactos disso.

Segundo estudo do IBEVAR de dezembro de 2025, o impacto das apostas sobre o avanço do endividamento das famílias foi mais de três vezes superior ao efeito dos juros. Isso demonstra que parcela significativa da renda das famílias está sendo desviada para plataformas de apostas.

Há uma relação direta entre o endividamento e a percepção da população em relação ao governo? Embora a imagem tenha estabilizado, a popularidade de Lula 3 poderia ser maior caso tantas famílias não estivessem endividadas?

Penso que sim. Infelizmente, o endividamento gera alto nível de estresse financeiro e isso impacta negativamente a percepção de bem-estar da família. Ao ter seu orçamento doméstico comprometido com as dívidas, as famílias são penalizadas em sua capacidade de consumo e de realização de sonhos, dificultando a percepção da evolução positiva dos agregados macroeconômicos como baixa taxa de desemprego, inflação controlada, apesar do item alimentos e bebidas, que superou o IPCA, e recuperação de renda desde a pandemia. Na prática, se as famílias não conseguem usufruir dos benefícios do próprio trabalho porque a renda está sendo desviada para o pagamento de dívidas não planejadas, isso gera descontentamento geral em relação às condições econômicas.

É possível manter as bets numa engrenagem econômica “saudável”, dentro de normas? Qual a solução para esse tipo de situação que está se tornando caso de saúde pública, com casos de depressão, dependência e suicídio?

Essa é uma discussão que devemos ter em sociedade, pois a reflexão passa pela avaliação de aspectos como escolaridade e nível de alfabetização funcional da população, renda e subemprego, tributação, acesso à educação financeira e expansão dos serviços de promoção de saúde mental para que a regulamentação de mercados de apostas, algoritmos e propaganda realmente atenda aos anseios da nossa sociedade.

Sob esse aspecto, não sei se hoje há um nível “saudável” para esse tipo de atividade, considerando que a regulamentação passa por decisões políticas tomadas nas casas legislativas e a CPI das Bets do Senado encerrada em junho de 2025 mostrou que as decisões ainda são polarizadas e não baseadas nas provas apuradas, nem voltadas para as necessidades reais da população.

Fato é que a regulamentação é fundamental para que os impactos negativos das plataformas de apostas sejam controlados e minimizados, e os custos de atendimento à população atingida possam ser financiados pelos impostos gerados por essas atividades e não recaiam apenas sobre o setor público.

Vale lembrar que, no Brasil, além de outras obrigações tributárias, essas empresas pagam 12% sobre o rendimento bruto das apostas, menos que o cobrado em países como Itália e Reino Unido.

De forma complementar à regulamentação, o caminho paliativo nesse momento passa por reforçar a conscientização das pessoas sobre suas decisões financeiras, viabilizar a renegociação de dívidas e melhorar o acesso às terapias de saúde mental e ferramentas de educação financeira.

Na Copa do Mundo, a Fifa tentou colocar restrições para a publicidade de jogos online, mas os jogadores têm conseguido promover seus patrocinadores de outras formas. Como tem sido o impacto disso no mundo? O Brasil parece ser a vitrine do “tigrinho”. Como é esse tipo de jogo fora do país?

O mercado de apostas não é exclusividade do Brasil. Ao contrário, outros países possuem acesso a essas plataformas há muito tempo. Em países como EUA e Reino Unido, apostas fazem parte da cultura esportiva e têm o mercado consolidado e regulamentado, inclusive com cobrança de impostos. Na Europa, há forte regulamentação para proteção de apostadores, inclusive com limitação das propagandas, como ocorre na Alemanha.

A grande diferença entre o Brasil e outros lugares do mundo está na abissal desigualdade de renda, no nível de alfabetização funcional e na falta de educação financeira que atingem nossa população, o que explica a expansão desenfreada dessas apostas, que contribuiu para a elevação do endividamento e o comprometimento do bem-estar social.

Parece não haver ainda um debate sério sobre regulamentação das bets. Do ponto de vista econômico, há algum tipo de controle? Por que as publicidades parecem tão atraentes financeiramente?

Para resumir, reitero que a CPI das Bets no Senado trouxe no relatório final apontamentos importantes sobre propaganda enganosa, atuação de influenciadores, programação de algoritmos, dentre outros aspectos que evidenciaram a necessidade de limitação de atuação das plataformas de apostas e indícios de crimes financeiros. No entanto, o que vimos foi a rejeição do relatório apesar das provas e parlamentares tirando selfies com influenciadores.

As publicidades utilizam apelos cognitivos comportamentais que se apoiam na esperança que apostadores têm de obter fácil multiplicação de recursos através das apostas, influenciados pelos depoimentos ilusórios dados por influenciadores em redes sociais. Vale lembrar que as famílias de menores rendas, das classes C, D e E, são mais vulneráveis a essas propagandas por vivenciarem estresse financeiro que vem da dificuldade de fazer frente às necessidades da vida apenas com a renda do trabalho. Esse estresse gera um hiato perceptivo entre a realidade das apostas e o comprometimento do orçamento familiar, levando muitas famílias ao endividamento e à inadimplência.