As imagens estão por todas as partes: em posts nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, nas manchetes de jornais. Em todas elas, o veredicto é de que a torcida argentina é, de maneira geral, racista. Os “casos isolados” são muitos para confirmar a tese e isso fez com que não só os rivais históricos brasileiros, mas boa parte do mundo endossasse um discurso contrário à equipe de Lionel Messi durante a Copa do Mundo.
O craque, por sinal, passou ser cobrado por omissão – e também por aparecer (em fotos recuperadas ao lado de Donald Trump e de Javier Negre, líder da extrema-direita espanhola). Torcer contra o país sul-americano, portanto, tornou-se obrigação moral para quem se dispõe a defender pautas antirracistas. O problema por lá, de fato, começa pela inexistência de uma lei que puna ofensas raciais e passa pela construção histórica de uma suposta e equivocada identidade “branca”.
“Consolidou-se a ideia de uma Argentina branca, não baseada na mestiçagem, mas na narrativa da imigração vinda dos navios, que é um dos mitos fundadores do país”, define o advogado Alejandro Joma, fundador do coletivo Identidad Marrón, em entrevista concedida ao Brasil de Fato.
Para Joma, isso explica esse distanciamento que os argentinos têm da mestiçagem e de suas matizes africanas, afastando-se da população negra. Para se ter ideia, o último jogador negro a vestir a camisa da seleção principal da Argentina foi o goleiro Héctor Baley, que fez parte do elenco nas Copas do Mundo de 1978 (onde foi campeão mundial como reserva) e de 1982.
Os casos de racismo transmitidos ao vivo durante o Mundial nos EUA é reflexo direto desse apagamento histórico e transformou o país numa vitrine às avessas do racismo durante a competição.
Mas e a Espanha?
Com a definição do confronto entre Argentina e Espanha na decisão, um novo debate foi lançado: o país sul-americano deve carregar sozinho todo o fardo do racismo ou o problema deve ser tratado de maneira mais ampla?
Pelo que tem ocorrido na Liga Espanhola, a equipe de Lamine Yamal também jogará sob a responsabilidade de enfrentar o mau exemplo de parte de seus apoiadores. Aliás, o jovem craque da seleção, de origem marroquina, é o principal alvo de insultos racistas dentro da própria Espanha.
O Observatório Espanhol contra o Racismo e Xenofobia (Oberaxe, sigla em espanhol) revela o atleta, que atua também pelo Barcelona, recebeu 60% dos mais de 34 mil conteúdos racistas removidos das redes em 2025.
Os casos ocorridos na Espanha mancharam a credibilidade da competição no país e pressionaram os dirigentes para que tomassem providências. A pressão surtiu efeito. Em junho de 2024, três torcedores do Valencia foram sentenciados a 8 meses de prisão e proibidos de frequentar estádios por dois anos. Eles foram penalizados pelas ofensas racistas dirigidas ao jogador brasileiro Vinícius Júnior, do Real Madrid, em partida realizada no estádio Mestalla.
Para quem torcer?

Messi fez história pelo Barcelona. Ganhou tudo. Foi eleito oito vezes o melhor do mundo. Hoje, aos 39 anos, tenta ser bicampeão pela Seleção Argentina. Quando tinha 20, fez uma campanha publicitária para Unicef em que dá banho num bebê negro nascido no bairro periférico de Rocafonda, em Barcelona. Era ninguém menos do que Lamine Yamal.
No domingo, dia 19 de julho, ambos se reencontrarão em campo com objetivos semelhantes, embora com destinos diferentes: um para encerrar um carreira gloriosa, o outro, para provar que poderá chegar tão longe quanto o ídolo.
Muitos brasileiros têm dito por aí que irão torcer para a Argentina por causa do Messi. Outros que irão torcer para a Espanha por causa de Yamal, em especial os que defendem a sua postura politizada em defesa da comunidade que nasceu e, sobretudo, em defesa de suas origens africanas.
O resultado é incerto, mas o esporte e o mundo podem sair vitoriosos se o debate sobre racismo for levado para muito além do apito final da partida.