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Arte, Feira e Trabalho: Pensar a cultura como modo de vida

Foto: MST em MG

Por Matina Moreira*
Da Página do MST

No último final de semana aconteceu, no centro de Belo Horizonte (MG), a 6ª edição da Feira Estadual da Reforma Agrária, levando produção camponesa, cultura popular e luta por soberania para a capital do estado. O evento reuniu agricultores e agricultoras do Triângulo Mineiro, Vale do Rio Doce, Jequitinhonha e tantas outras regiões geraizeiras, do norte ao sul de Minas.

A Feira ocupou, ao lado do viaduto Santa Tereza, a centenária Serraria Souza Pinto, prédio histórico na cidade que, desde 1981, é protegido como patrimônio cultural pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA). A escolha e importância do edifício não se dão por acaso: grandes artistas e movimentações culturais já transformaram o piso xadrez da Serraria em pista de dança. Sediar, neste ano, o encontro entre artistas do campo e da cidade nesse espaço, demarca e reafirma a arte e a cultura como necessidade central para a construção da Reforma Agrária Popular.

A cultura, ela está no todo do que é a Reforma Agrária Popular. E essa concepção está imposta na nossa feira”

— Dandara d’Araça, Coordenadora Nacional do Coletivo de Cultura do MST

“Cultivar a Terra, Defender o Brasil”

Foto: MST em MG

Acompanhando a grandiosidade do local, a programação do palco principal do evento, que estampou o lema da Feira: “Cultivar a Terra, Defender o Brasil”, trouxe, nos três dias, blocos de carnaval, sambistas, cirandas, rappers, cantores e cantoras de diferentes países latino-americanos que se integraram a um verdadeiro ecossistema de cultura em suas diversas linguagens.

Organizado em três grandes momentos – “Internacionalizemos a Esperança”, “Festival Terra, Arte e Pão” e “Beat da Terra”, a Feira celebrou gêneros musicais e fazeres artísticos em cada um dos dias, como o hip-hop, a música latina, mineira e camponesa. Essa celebração aconteceu em consonância com uma síntese dos debates históricos e intersetoriais sobre o que é cultura no Movimento Sem Terra (MST):

“A gente faz o debate da cultura imbricado a um debate da materialidade da vida, não apartado, sabe? E pra nós, quando o MST passou a debater a Reforma Agrária Popular como um projeto, e que toda a militância do Movimento foi provocada a fazer esse debate, nós chegamos à síntese de que a Reforma Agrária não tem apenas uma dimensão cultural, mas que ela é um projeto cultural na sua inteireza”, defende Dandara d’Araça, Coordenadora Nacional do Coletivo de Cultura do MST.

Ao andar pelos corredores da Feira, esse projeto se torna ainda mais evidente. A maneira que as regionais estaduais estavam dispostas pelo espaço permitiu que os feirantes e agricultores apresentassem sua cultura de fato. Presente em cada produto e alimento; em como o cuidado infantil se organiza através das cirandas e atividades dos sem-terrinha; na maneira que a saúde coletiva é construída; e, principalmente, em como a arte não se centraliza no palco, mas toma conta de cada barraca, seja através de ornamentações artesanais ou de instrumentos musicais feitos à mão por artistas Sem Terra que cantam e ritmam, com alegria, a caminhada pela Feira.

Para Dandara, todos esses elementos evidenciam um questionamento importante: “Quem é o feirante em uma Feira da Reforma Agrária?”

Ele não está ali só para vender o seu produto, mas também para contar a história daquele produto, para falar da luta daquelas famílias que levaram à conquista daquela terra, daquela cooperativa”, explica a coordenadora.

Luta a partir da Arte

“Quando a gente entende o nosso lugar, é um dever do artista se posicionar para que a gente continue existindo e resistindo.” Sarah Sampp, rapper, cantora e compositora de Belo Horizonte. Foto: MST em MG

Entre artistas-militantes, militantes-artistas e afeiçoados com a luta do MST, passaram pelo palco da Feira pessoas que, de alguma forma, constroem ou contribuem com o Movimento. Abrindo os caminhos da programação “Beat da Terra”, na noite de encerramento da Feira, Sarah Sampp realizou sua apresentação durante um alerta de tempestade severa da Defesa Civil de Belo Horizonte. Em seu show, a artista utilizou-se do tema para chamar a atenção para o desafio da crise climática que impulsiona eventos extremos no planeta.

A fala de Sarah abre espaço para um debate sobre o papel do artista em palco, e da arte na Feira. Ao denunciar os efeitos da crise climática, rompe uma barreira, presente no imaginário hegemônico, que aparta o artista do público. Combatendo essa ideia, a rapper relembra que o artista é, também, trabalhador e sujeito político.

“E isso tudo é um desafio que a gente passa enquanto sociedade. A gente está na população e antes de artista, a gente é pessoa. Então, eu acho que sempre temos que estar de acordo com a nossa ideologia, o que a gente acredita. E o movimento que eu faço parte também, que é o movimento Hip Hop, luta por isso, pela existência e resistência do nosso povo de uma forma geral”, explicou Sarah em entrevista.

Mais tarde, na mesma noite, Linn da Quebrada, cantora, compositora e atriz, subiu ao palco para uma apresentação repleta de provocações políticas. Em suas letras, que debatem sua presença preta e travesti na sociedade, e em suas falas, que transformaram o show em manifesto.

Linn foi acompanhada da percussionista Dominique Vieira e da DJ Cais Niara, trazendo ao público um destaque especial sobre a proximidade de Cais com a luta pela Reforma Agrária: “Eu cresci e fui criada no acampamento Zumbi dos Palmares, no interior de São Paulo, e eu tenho muito orgulho da minha história, para que hoje eu possa estar aqui ao lado de artistas incríveis que eu admiro muito, do nosso povo”, se orgulhou a DJ, ao compartilhar vivências de sua infância Sem Terra, e ser amplamente aplaudida.

Linn da Quebrada. Foto: MST em MG

Sarah, Linn, Cais e várias outras artistas evocaram a arte como parte de um ecossistema revolucionário. É a cultura presente, em todas as dimensões da Feira.

Direito à Arte, Direito à Vida

Após três dias de importantes debates e celebrações, a Feira deste ano se encerra, com números promissores para o horizonte da Reforma Agrária: 50 toneladas de alimentos comercializados, 4 toneladas de alimentos doados para 20 territórios de Belo Horizonte e Região Metropolitana, além de 15 mil pessoas que passaram pelo evento.

Foto: MST em MG

Esses números excedem meras estatísticas, mas dizem sobre relações interpessoais de solidariedade e cooperação que transformam a realidade, além de uma cultura que nutre e um fazer artístico que alimenta. Ao propor a centralidade da cultura na Reforma Agrária Popular, a Feira contribui diretamente para a reformulação radical do pensamento acerca do seu papel na sociedade. Uma cultura que fundamenta outros valores sociais, do plantio à colheita, da saúde ao cuidado e da arte como ação coletiva.

Nas palavras de Dandara, que faz da sua militância arte popular com o grupo de mulheres Mina Flor, “Lutar pelo direito à cultura é lutar pelo direito ao modo de vida dos povos, elementos simbólicos e místicos que só podem ser produzidos a partir dessa cultura se os povos têm garantido esse direito ao seu modo de vida”.

*Matina Moreira é graduanda em Publicidade e Propaganda (UFMG) e Assistente em Produção Cultural (Cefart); Investiga cultura em Belo Horizonte através da música, arte, alimentação e suas interseções. Ela fez parte da equipe de voluntários da VI Feira Estadual da Reforma Agrária em Minas Gerais.

**Editado por Fernanda Alcântara

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