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As crianças sul-coreanas seguem pedindo chocolate aos Estados Unidos

O governo de Lee Jae Myung, do Partido Democrático da Coreia do Sul (DPK, na sigla em inglês), passou por uma encruzilhada após a mídia nacional ter divulgado possíveis articulações do Executivo para conseguir aval dos parlamentares e ingressar em uma guerra travada a milhares de quilômetros da península coreana. De maneira atípica, a pauta geopolítica dos últimos dias se centrou no Irã, afastando-se das prioridades históricas de segurança de Seul.

De acordo com uma pesquisa nacional conduzida em conjunto pela Embrain Public, KStat Research, Korea Research e Hankook Research, e divulgada nesta semana, a maioria dos sul-coreanos são contra o destacamento militar do país no Estreito de Ormuz: 45% foram contra e 36% a favor do plano. Outros 19% disseram não saber ou se recusaram a responder. A pesquisa abrangeu 1.002 pessoas com 18 anos ou mais, entre os dias 7 e 9 de setembro, com margem de erro de mais ou menos 3,1 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

Chamou a atenção, porém, que a oposição foi particularmente expressiva entre os eleitores que endossam o DPK de Lee Jae Myung: 55% deles rechaçaram o envio de recursos militares em contraste aos 31% favoráveis.

Após quase duas semanas de silêncio, nesta sexta-feira (18/09), o próprio presidente, pressionado, recuou. Aos jornalistas em coletiva, pronunciou-se pela primeira vez sobre o tema e declarou que não enviará tropas nem ativos militares que envolvam seu país na guerra contra os iranianos. “Não haverá nenhum destacamento que envolva ou intervenha na guerra. Posso deixar isso claro. Não faremos tal desdobramento de tropas nem enviaremos recursos militares”.

Lee apontou, por outro lado, que a Coreia do Sul precisa necessariamente realizar “atividades mínimas” na região para proteger seus navios comerciais, rotas de transporte de petróleo bruto e uma suposta segurança de seus cidadãos. 

Porém, enquanto o governo volta atrás para não perder a sua base, a indústria de defesa sul-coreana segue expandindo sua presença no Oriente Médio. Ainda nesta semana, a Hanwha Systems assinou um acordo preliminar de cooperação com a EDGE, grupo estatal de defesa dos Emirados Árabes Unidos com sede em Abu Dhabi, para trabalhar na construção de uma rede integrada de defesa aérea no país, envolvendo capacidades de longo e médio alcance e sistemas contra drones.

O acordo estabelece as diretrizes para o projeto, enquanto as duas empresas estudam detalhes como produção local, operações, manutenção e a possibilidade de criação de uma joint venture nos Emirados – o país árabe é parceiro militar e de segurança próximo dos Estados Unidos e abriga forças norte-americanas em seu território.

Durante a guerra iniciada em 28 de fevereiro de 2026, após ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel contra o Irã, a República Islâmica afirmou ter atacado posições e instalações utilizadas pelas forças norte-americanas nos Emirados, incluindo as bases de Al Dhafra e Al Minhad.

“Vamos expandir gradualmente a cooperação tecnológica e a localização para ajudar a fortalecer a base industrial de defesa dos Emirados Árabes Unidos”, comemorou o diretor-executivo da Hanwha Systems, Yang Ki Won, na quinta-feira (17/09), ao descrever a parceria como um “ponto de virada” na relação de ambas as partes.

Para entender melhor, a Hanwha Systems é uma empresa do conglomerado (o “chaebol”) Hanwha Group, que tem negócios em defesa e aeroespacial, energia, indústria naval, finanças e tecnologia, entre outros. O grupo empresarial foi classificado como o sétimo maior da Coreia do Sul por ativos em 2025, de acordo com dados divulgados pela Korea Fair Trade Commission.

O conglomerado lidera entre as empresas sul-coreanas no ranking global de fabricantes de defesa, segundo o site Defense News. Ficou em 16º lugar no mundo, com US$ 10,44 bilhões em receitas no setor em 2025 – valor que configura aproximadamente R$ 56 bilhões na cotação atual.

Nessa altura trago uma curiosidade meio previsível. Em outubro de 2021, a Hanwha Systems assinou acordos com duas empresas de defesa israelenses: Elta Systems, subsidiária da Israel Aerospace Industries (IAI), e Elbit Systems, uma grande fornecedora das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês). A tratativa teve como objetivo impulsionar a exportação do sistema de radar sul-coreano para “uso civil” e a cooperação em tecnologias de aviação. Três anos depois, em meio ao genocídio televisionado na Palestina, a Hanwha Systems, a Korea Aerospace Industries e a Elbit Systems assinaram um memorando de entendimento para cooperar na modernização de helicópteros.

A impressão é de que a Coreia do Sul vive um permanente estado de recém-pós-guerra com o Norte. Não por se tratar, novamente, de uma suposta “ameaça nuclear” de Pyongyang, mas sim de um medo profundo de ser abandonada por seus aliados norte-americanos.

Esse medo tem raízes longas. Meu avô norte-coreano, Kim Myeong Keun, que lutou na Guerra da Coreia (1950-1953) pelo Sul – por ocasião em que estava na área ao sul quando se traçou o Paralelo 38 –, contava que as crianças famintas corriam atrás dos tanques norte-americanos gritando “give me chocolate” (“me dê chocolate”, na tradução em português). Os soldados riam e, lá do alto, jogavam biscoitos no chão. Segundo meu avô, a garotada “parecia cachorro”.

Kim Myeong Keun havia sido apelidado de “shorty” (“baixinho”) pelos norte-americanos devido à sua baixa estatura. E ainda se tornava trilíngue: além do coreano e do japonês, passava a aprender naturalmente o inglês – porém, um vocabulário que se limitava a xingamentos.

As crianças famintas ainda seguem pedindo chocolate aos norte-americanos. E pior: são humilhadas, mas não percebem.

Presidente dos EUA, Donald Trump recebeu seu homólogo sul-coreano Lee Jae Myung em agosto de 2025, no Salão Oval
The White House/Daniel Torok

Após o tratado de armistício com o Norte, em julho de 1953, a Coreia do Sul seguiu na linha de frente da Guerra Fria. Os Estados Unidos tinham um forte interesse em ver seu sucesso no país asiático e na região como um todo. Nas décadas seguintes, Washington apoiou a integração econômica e comercial da Coreia do Sul ao bloco ocidental, enquanto Seul construiu uma estratégia de industrialização fortemente voltada às exportações.

Foi nesse contexto de dependência e medo que a Coreia do Sul consolidou seu modelo de desenvolvimento. Na década de 1960, sob a ditadura sangrenta de Park Chung Hee, que governou a nação entre 1961 e 1979, a economia nacional cresceu ferozmente sob uma política de olho na competitividade internacional. O Estado combinou planejamento econômico, promoção da indústria e das exportações com repressão política e sindical. Qualquer tentativa de greve contra a exploração e por condições decentes de trabalho era reprimida duramente pelo governo.

O crescimento da Coreia do Sul é de total mérito dos Estados Unidos, nas palavras de cidadãos conservadores em Seul. Ouvidos por Opera Mundi durante uma marcha em 15 de agosto de 2026, no marco do 81º Dia da Libertação da Coreia do Sul (o “Gwangbokjeol”) do imperialismo japonês, que, a priori, deveria celebrar a retirada de forças estrangeiras, um deles segurava, em uma mão, a bandeira norte-americana, e na outra, a israelense. A Coreia do Sul não estaria “vivendo bem” se não fossem os “amigos estadunidenses”, dizia.

“Aleluia, aleluia”, cantava outra manifestante, também com uma bandeira norte-americana.

“Welcome Donald Trump” (“Seja bem-vindo, Donald Trump”), dizia uma enorme faixa levantada ao alto no centro da marcha.

Do outro lado do espectro político, têm sido semanais os protestos em Seul conduzidos por partidos progressistas – incluindo figuras da própria sigla governista DPK –, organizações de direitos humanos e cívicas, contra a submissão sul-coreana aos Estados Unidos. A reportagem de Opera Mundi esteve presente no primeiro ato mobilizado na porta da Casa Azul, ocasião em que o representante permanente da organização do Partido Progressista “Neomeo”, Kim Jin Eok, rejeitou que “os jovens deste país se tornem peões descartáveis e sacrifícios para a hegemonia dos Estados Unidos”.

“O interesse nacional não reside em ceder às exigências dos Estados Unidos, mas sim em escolher uma solução diplomática e pacífica como nação soberana”, declarou. “O presidente Lee Jae Myung deve escolher se será o presidente da República da Coreia ou um fantoche a serviço das exigências do presidente dos Estados Unidos”.

Os jovens sul-coreanos são obrigados ao alistamento e o país viveu décadas assombrando a população com o fantasma de uma suposta “ameaça” de seu vizinho e uma possível guerra eclodir a qualquer instante. O Estado sul-coreano, em nome da segurança nacional, participou da gestão e manutenção de um sistema de prostituição em torno das bases militares norte-americanas, no qual mulheres eram submetidas à exploração sexual em nome da preservação da aliança com Washington.

Além dos setores econômico e diplomático, a relação entre os dois países também se consolidou na esfera bélica ao longo das décadas. Atualmente, a maior base militar dos Estados Unidos fora do território norte-americano, o Camp Humphreys, encontra-se em Pyeongtaek, pouco mais de 70 quilômetros abaixo de Seul. Cerca de 28.500 militares das Forças dos Estados Unidos na Coreia (USFK) estão estacionados em território nacional como um todo, segundo dados oficiais.

Não seria contraditório dizer que a Coreia do Sul se importa com a segurança de seus cidadãos e, ao mesmo tempo, levar o país à guerra por medo de desapontar seu “amigo”? Se a segurança nacional é o argumento para uma eventual participação em Ormuz, até onde vai a defesa dos interesses sul-coreanos e onde começa a necessidade de responder às expectativas de Washington? O Irã já deixou um recado claro: “apoiar diretamente o agressor não pode ser considerado nada além de um ato de agressão, e isso levará a sérias consequências”, disse o porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baghaei.

Talvez o maior impasse de Seul não envolva tanto assim o seu vizinho, nem os seus opositores, mas a dificuldade de exercer sua própria autonomia estratégica e soberania nacional diante de seu mais poderoso aliado. O recuo de Lee Jae Myung é um alívio, mas não resolve o problema em sua essência. É apenas um capítulo de um longo processo de construção – ou destruição – histórica. Nesse ponto, quiçá já saibamos quem é o verdadeiro amigo tóxico dos sul-coreanos. Na realidade, a Coreia do Sul teme os Estados Unidos.

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