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As eleições presidenciais na Colômbia

No dia 31 de maio, a Colômbia elegerá seu novo presidente, desde que o candidato vencedor obtenha metade mais um dos votos. Caso contrário, haverá um segundo turno no dia 21 de junho entre os dois candidatos mais votados.

Nesta ocasião, há numerosos candidatos concorrendo, mas, como costuma acontecer, as preferências se concentram em poucos; neste caso, todas as pesquisas apontam para um trio: o senador de esquerda Iván Cepeda, a candidata Paloma Valencia, apresentada pelo chamado Centro Democrático, partido de direita organizado pelo ex-presidente Álvaro Uribe, e o candidato independente Aberlardo de la Espriella, que representa o outsider desta eleição, de direita dura, com uma proposta semelhante à que temos conhecido nos últimos tempos em outros países.

O atual presidente colombiano, Gustavo Petro, durante ato político em Medellín. (Foto: Fotografía oficial de la Presidencia de Colombia / Flickr)
O atual presidente colombiano, Gustavo Petro, durante ato político em Medellín.
(Foto: Fotografía oficial de la Presidencia de Colombia / Flickr)

Em um pelotão mais rezagado figuram o ex-governador de Antioquia, Sergio Fajardo, e a ex-prefeita de Bogotá, Claudia López. Ambos posicionados mais ao centro, os números, até o momento — que não ultrapassam um dígito —, não os acompanham, assim como os demais, muito mais rezagados. Vale lembrar que, nesta ocasião, são 13 os candidatos à presidência.

Duas grandes questões

Dado o sistema eleitoral colombiano, surgem duas perguntas: tudo pode ser decidido no primeiro turno? O único que reúne condições para isso é Cepeda, que nas últimas pesquisas marca acima de 40%, o que pode subir; muito dependerá do que acontecer nessas últimas semanas. Isso será tema do encerramento da campanha, de eventuais adesões de outros candidatos e partidos à sua chapa; o fator Petro também não lhe é alheio. Atenção: até o momento, o fator Trump não se fez presente nas eleições colombianas como aconteceu nas eleições na Argentina e em Honduras.

Cepeda representa o chamado Pacto Histórico, coalizão de esquerda que apoia o atual governo, mas conseguiu ampliar essa base; o senador liberal Luis Fernando Cristo retirou o apoio de seu partido a Paloma Valencia e proclamou sua adesão a Cepeda.

Paloma Valencia, atual senadora, por sua vez, conseguiu a adesão de vários partidos: o conservador, o liberal e o chamado Partido da U. Representa, portanto, boa parte da classe política colombiana. Conta com o apoio do ex-presidente Uribe, de quem se declara filha política, chegando a indicar que ele poderia fazer parte de seu gabinete.

Por outro lado, Álvaro de la Espriella proclama como um ativo de sua campanha o fato de não ter conversado com nenhum partido político, declara não pertencer à “casta” e se propõe a refundar a política colombiana. Advogado de profissão, há alguns anos vive em Florença, na Itália. Possui nacionalidade americana, italiana e colombiana, embora se declare orgulhosamente “costeño” e torcedor do Junior de Barranquilla.

A segunda pergunta diz respeito ao segundo turno. Com base em todas as pesquisas conhecidas, Cepeda está ligeiramente acima dos 40% dos votos, De la Espriella fica em 18% e Paloma Valencia um pouco abaixo. Se essas porcentagens se mantiverem, a questão é quem seria a contraparte de Cepeda no segundo turno.

De la Espriella declarou que apoiará Paloma Valencia, interpretando que a eleição de Cepeda significaria a continuidade do petrismo. Por outro lado, a candidata evitou responder diretamente o que faria caso não passasse para o segundo turno.

Se quisermos interpretar isso com base em critérios ideológicos, poderíamos afirmar que, enquanto a esquerda se agrupa em torno de Iván Cepeda, a direita colombiana mostra uma grande divisão.

E a economia?

A campanha eleitoral desenrola-se em meio a uma situação econômica multifacetada. O crescimento do PIB foi de 2,6% em 2025, superior aos 1,5% de 2024. Para o ano corrente, prevê-se sua continuidade. As análises coincidem em apontar que o motor da economia reside no aumento do consumo, tanto público quanto privado. O desemprego chega a 8,2% e, já para 2026, prevê-se uma inflação de 8,5%, com a taxa de juros atingindo 11,5%.

Em suma, uma situação muito mais folgada do que a da maioria dos países da região. Vale notar que a relação por vezes tensa entre os EUA de Trump e o governo do presidente Petro levou muitos a temer um dano profundo à economia colombiana. Isso não aconteceu; hoje, o nível das tarifas oscila em torno de 10% e ambos os líderes realizaram uma reunião pragmática em Washington no ano passado.

Em suma, a economia não entrou em colapso como alguns previram. Isso não significa que não haja nuvens negras no horizonte. O mais preocupante aos olhos dos economistas é o déficit fiscal, que, sem dúvida, deverá ser assumido pelo novo governo, seja ele qual for. Da mesma forma, outro desafio se situa no plano social: mais de 40% dos trabalhadores ganham menos do que o salário mínimo.

Um dado: o Chile é um dos países que mais investe na Colômbia; dezenas de empresas chilenas, especialmente nos setores de serviços e varejo, são visíveis a olhos vistos nas principais cidades colombianas: Cencosud, Ripley, Latam, Falabella, diversas Isapres, enfim. Todas agrupadas na Câmara Chileno-Colombiana de Comércio, com sede em Bogotá.

Como síntese

Esta síntese concisa e suas duas perguntas orientadoras podem ser insuficientes para explicar a complexidade da realidade colombiana contemporânea. Talvez a principal interrogação resida no plano político: o que explica o crescimento da esquerda?

Em termos estruturais, não são poucos os que apontam para o fim da guerra civil no país, para os Acordos de Paz alcançados entre o governo de Juan Manuel Santos e o Comando Geral das FARC. Com a implementação da primeira fase, a chamada entrega de armas e a reintegração de milhares de combatentes à vida civil, concluiu-se o essencial da guerra. As consequências não foram apenas militares; desapareceu também o principal freio que, durante décadas, impediu a esquerda não armada. Com o desaparecimento das FARC, a esquerda pôde apresentar uma proposta cidadã centrada nos problemas da sociedade, sem a pesada mochila da guerra.

Aliás, a segunda etapa do processo de paz não teve o ímpeto da primeira; essa segunda etapa previa a construção da paz, processo que se estimava para vários anos, e aí a história dirá de quem foi a responsabilidade: Juan Manuel Santos terminou seu mandato e foi substituído por Duque. Muitos alegam que foi até aí que chegou o empenho estatal nesse processo.

Por sua vez, as FARC se incorporaram ao processo político, mas uma parte — não majoritária, mas notória — ou se manteve sempre à margem dos acordos, ou voltou para as montanhas. Ao mesmo tempo, os territórios controlados pelas cerca de 60 frentes que as FARC possuíam em seu auge ficaram vazios com a entrega das armas.

E como não há território vazio, essas localidades, basicamente montanhosas ou selváticas, foram progressivamente ocupadas por grupos irregulares de paramilitares, cartéis, ex-guerrilheiros, todos misturados em braços armados de negócios ilegais, desde o tráfico de drogas, a mineração ilegal ou o tráfico de pessoas no controle de fronteiras. Formalmente, do antigo período resta apenas o Exército de Libertação Nacional, o ELN, que hoje já não é aquela organização na qual militou e morreu o padre Camilo Torres, na década de 1960.

O governo de Petro tentou o que chamou de “Paz Total”, mas esta ainda está longe, e muitos se perguntam se não se trata, na verdade, de uma questão de crime organizado, mais do que de um diálogo político-militar para pôr fim a um conflito.

Em pouco mais de duas semanas, é neste cenário que os cidadãos colombianos irão às urnas para eleger seu novo presidente.

(*) Gabriel Gaspar é cientista político, ex-embaixador do Chile na Colômbia e em Cuba e ex-embaixador da Missão Especial pela Demanda Marítima boliviana na Corte Internacional de Haia. Foi vice-ministro da Defesa, Forças Armadas e Guerra. É analista político e colunista.

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