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As fantasias de Kakay

Ariano Suassuna, no seu livro “O Romance da Pedra do Reino” tem uma explicação deliciosa para aqueles que contam histórias exagerando nas fantasias, exageros com cor e cheiro de mentira. Ele diz que essa maneira de contar histórias é “estilo régio”. E hoje logo cedo, ainda deitada, me deparei com uma dessas histórias.

Quando acordo sou a pessoa mais mansa e cordata do sistema solar. Fico deitada lendo, em paz absoluta. Tenho uma amiga que sempre diz “o melhor momento de conversar com a Memélia é quando ela acorda. Ela não responde, o olhar vagueia pelo ambiente, tentando se localizar. E é uma doce criatura”. E ela me conhece bem porque viajamos juntas trabalhando pelo mundão das Amazônias.

Pois bem, foi nesse estágio que eu chamo de fase brócolis, (depois avanço para o estágio pastel e só duas horas depois sou o que chamam de Homo Sapiens. Daí em diante, salve-se quem puder. Sou o cão chupando manga. E o Diabo se mantém à distância porque posso tocar fogo no inferno) que li um texto aqui nesse salão de palavras perdidas onde, para a glória de Suassuna, é um dos altos momentos do absoluto “estilo régio”. O problema é que eu sou personagem do artigo.

O texto é do brilhante advogado Kakay [Antônio Carlos de Almeida Castro], que conheço por uns bons 40 anos. Quando o conheci ele ainda não era famoso, mas já estava em busca do estrelato que ele conquistou graças à sua competência e às pessoas com quem se relacionou.

O texto se refere a Francisco Mairlon Aguiar, vítima de um dos maiores erros judiciários do Brasil, condenado a 15 anos de prisão – com todas as crueldades que passam as pessoas pobres quando acusadas de crime – por um crime que não cometeu. Um duplo assassinato acontecido em Brasília e conhecido pelo nome de “O crime da 113 Sul”.

Faute d’autre chose, Kakay começa falando do Prêmio Nobel, Pérez Esquivel em uma de suas passagens por Brasília e é aí que ele me põe na história. Embora me conheça muito bem, até porque no meu aniversário de 50 anos ele promoveu um jantar memorável juntando a nata do Jornalismo e do mundo político de Brasília. Não ousou citar meu nome porque sabe que sua história, na parte que se refere a mim, é um amontoado de mentiras que ocupa os três primeiros parágrafos do texto. Aqui estão esses três primeiros parágrafos publicados no site “Poder 360“.

“Uma vez, o Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz de 1980, voltava de uma viagem pesada ao Norte e Nordeste cuidando de várias reuniões com camponeses. À época, Márcio Thomaz Bastos e eu estávamos retornando de um périplo na região de Rio Maria com o padre Ricardo, um religioso muito dedicado a causas humanitárias. Indicados pelo Conselho Federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), fazíamos um trabalho em defesa de trabalhadores que enfrentavam a crônica da morte anunciada na zona rural do Brasil. Eu fui ao aeroporto buscar o Esquivel e ele me disse: “Kakay, me leva para um restaurante meio escondido, estou exausto e só quero comer, beber algo e descansar. Vamos só nós 2. Sem jornalistas.”. Escolhi uma churrascaria tranquila.

Quando estávamos lá, relaxados, com uma cerveja e sem ninguém por perto, entra uma jornalista amiga minha que era da pá virada. Falava. Gritava. Quando nos viu, deu um grito: “Adolfo Pérez Esquivel!”. Gelamos. Discretamente, fui à mesa dela e disse que ele estava exausto, que queria descansar e ficar sozinho.

Ela não se conformou. Começou a me agredir verbalmente dizendo que eu estava atrapalhando o trabalho jornalístico. E ela era minha amiga. Resolvemos pedir a conta e, para minha surpresa, ela me jogou um cinzeiro pequeno do restaurante. Esquivei-me e o objeto acertou o Esquivel, bem no nariz. Imagine a chamada no jornal: “Prêmio Nobel da Paz é agredido”…

Sinceramente, fiquei chocada com o tamanho da fantasia, ou estilo régio ou, na minha linguagem que sempre foi direta, fiquei chocada com o tamanho da mentira. Não há nesses três primeiros parágrafos nenhuma verdade a não ser o local dos acontecimentos.

Kakay, de quem gosto muito, apesar desse texto fantasioso, quis se posicionar de uma forma importante. Na época em que aconteceram esses fatos ele ainda não era importante. Brilhante sim, mas circulava num universo onde havia outros tantos brilhantes iguais a ele, tais como Sigmaringa Seixas, Luís Eduardo Greenhalgh, Márcio Thomas Bastos, Evandro Lins e Silva, uma constelação de fazer inveja a qualquer planeta.. Sempre fui amiga, amiga de frequentar a casa, de todos eles porque sempre trabalhei na área de Direitos Humanos.

Aos fatos.

Aconteceu no começo dos anos 90. Eu era chefe da Assessoria de Comunicação Social e Articulação Parlamentar (depois foram desmembradas) do Ministério Público Federal. Fui convidada a assumir o cargo pelo então procurador geral da República Sepúlveda Pertence e fiquei também com seu sucessor Aristides Junqueira. Dois homens que completaram minha formação jornalística.

Com suas novas atribuições concedidas pela Constituição de 1988, a Procuradoria Geral da República passou a atuar mais intensamente junto aos camponeses, índios, quilombolas, meio ambiente, enfim, Direitos Humanos, que sempre foi minha causa de vida e área de atuação profissional nos jornais onde trabalhei.

Há na Procuraldoria Geral um setor que se chama Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, a PFDC. Seu chefe, nessa época era o procurador Álvaro Augusto Ribeiro Costa, posteriormente Advogado Geral da União do primeiro governo Lula e um dos mais queridos amigos. E lá atuavam outros dois grandes amigos com quem me encontro toda vez que vou a Brasília, Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça de Dilma Roussef e Aurélio Veiga Rios, que conheci ainda criança.

A PFDC decidiu promover um encontro para debater a questão da violência no sul do Pará, onde dezenas de camponeses e líderes sindicais vinham sendo seletivamente assassinados por pistoleiros das grandes fazendas e os primeiros madeireiros que começavam a se instalar na região do Araguaia/Tocantins, numa área de 45 milhões de hectares. Foram convidadas viúvas e demais familiares das vítimas do latifúndio, o padre Ricardo Rezende, além de outros especialistas e o Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel. Na época, Kakay, que começava sua ascensão, era responsável pelo setor de Direitos Humanos da OAB, também convidado. Ele estava sempre circulando na Procuradoria Geral.

Pérez Esquivel chegou num fim de tarde e à noite fomos todos, inclusive Kakay, jantar numa churrascaria. Estavam lá alguns procuradores, o Nobel e eu. Não me lembro se Padre Ricardo estava na mesa. É preciso dizer que eu era a única mulher nesse universo. Mas sempre estive acostumada a esse tipo de situação. Não havia nenhum jornalista a não ser eu mesma e que há algum tempo estava afastada de jornal por ser incompatível com minha função.

Pelas tantas, nem sei por que, Kakay, talvez querendo desajeitadamente mostrar intimidade comigo passou a falar de mim, afinal, nós sempre fomos amigos e deu-se o desencontro quando disse “essa é a louca da Memélia (até aí, tudo bem) é uma jornalista que FAZ TUDO QUE SÓ OS HOMENS FAZEM”. E eu NÃO GOSTEI. Abominei esse perfil digno de um machistóide e joguei uma dose do meu whisky, Cutty Sark, na cara do Kakay. Houve segundos de constrangimento que se não me engano, dr. Aurélio quebrou dizendo, “se ela faz isso na frente do Prêmio Nobel da Paz, imaginem com os inimigos”. Todos rimos, Kakay ainda estava sem graça, mas pelo texto que ele escreveu hoje percebo que aquele copo de whisky o feriu profundamente, a ponto de ele mentir num texto mais de 30 anos depois.

Kakay, não vou deixar de te gostar e te admirar mas, cuidado com tua memória. Ela pode te trair por várias razões, uma dessas é a vaidade. O ser humano tem uma enorme dificuldade de admitir seus momentos de derrotas. Estou até trabalhando num texto sobre isso do novo livro do escritor Urariano Mota a ser lançado brevemente. É compreensível esse comportamento.

Outra coisa que quero te dizer, Kakay é que jamais correria ou gritaria ao ver uma autoridade. Cresci no meio de autoridades não só do Brasil, mas do Uruguai e França e nunca precisei de nenhuma dessas autoridades para me tornar uma jornalista respeitada. Eu seria deserdada pela família.

E finalmente quero te dizer que jamais jogaria um cinzeiro em quem quer que fosse, mesmo se a ofensa fosse maior do que essa que você me fez. Porque as cinzas iam fazer a maior sujeira. Jogo whisky sem problema porque acerto o alvo. Outra coisa, você nem é nordestino para ter direito ao uso do estilo régio, além de tudo, você me deve essa dose de Cutty Sark.

Faça as pazes com o passado.

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