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As raízes muradas e as raízes de nosso sofrimento

“Entre muros e dormentes”. Foto tirada em Pirituba

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Desde adolescente, ou talvez antes mesmo disso, caminho pelas ruas com um especial fascínio pelas árvores nas calçadas.

Olho para essas árvores e enxergo os descasos, precariedades e também as resistências e belezas que elas nos mostram e não consigo deixar de ver muito sobre nós, cidadãos, sujeitos…

Hoje, sou psicanalista e um de meus hobbies é fotografar essas árvores e pensar o que nós todos temos em comum com elas, nas cidades em que vivemos.

A essas fotos e essas reflexões, eu chamo de Raizes Calçadas (@raizescalcadas).

Árvore que cresceu com seu tronco colado ao lado externo do muro do cemitério do Araçá em São Paulo, mas que atravessou o muro e fez com que sua copa ficasse do lado de dentro.

VIDA MURADA

Nesse texto, quero falar, especificamente de árvores que nascem coladas a muros.

No livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros, publicado pela Boitempo, o psicanalista Christian Dunker [assista aqui uma entrevista com o autor sobre este tema] levanta questões muito instigante sobre uma certa lógica de convivência, criada pelo surgimento e a rápida expansão dos condomínios no Brasil.

Diante do crescimento acelerado das cidades, causado pela imigração, os condomínios surgem à partir dos anos 1970 com promessas de convivência harmoniosa, racional, segura (etc) entre iguais.

Diante do desconhecido, do outro, da alteridade, a solução oferecida é nos cercarmos de muros e mantermos, do lado de fora, o temido, aquilo que consideramos mal, o que, por ser diferente, nos revela insuficiências, fraquezas, e assim por diante.

O que se observa lendo o livro do Dunker é que essa pretensa solução é de curto prazo. Com o passar do tempo, essa promessa idílica esbarra em muitas realidades.

O isolamento provoca empobrecimento das experiências de vida, não é possível deixar o mal, o sofrimento para fora e fingir que eles não existem.

Além do mais, os iguais não são tão iguais como foi idealizado.

O narcisismo das pequenas diferenças, do qual Freud fala, eclode em grandes transtornos.

Desaprendemos a lidar com a alteridade na medida em que não a vivenciamos.

Usando uma metáfora musical, eu diria que qualquer dissonância vira desarmonia para os ouvidos habituados somente aos campos harmônicos mais convencionais.

VIVEMOS EM BOLHAS OU ENTRE MUROS?

Aliás, em tempos de redes sociais digitais, vemos que os algoritmos reproduzem essa lógica já induzida no mundo físico, também no mundo virtual.

Chamamos de bolhas esses “condomínios” de pretensos iguais que vão se tornando as redes sociais.

Bolhas é um nome lúdico e leve, algo que seria fácil de estourar, bem diferente do ambiente rígido regido pelos algoritmos, mais parecidos com a intransponibilidade de muros de condomínios.

A promessa de deixar o “mal” para fora e do encontro entre iguais feita pelos algoritmos vai se transformando em enormes cismas e os algoritmos vão fragmentando cada vez mais os grupos em subgrupos e assim por diante.

O que é vendido como algo que resolveria a questão, acaba por agravá-la.

Os muros dos condomínios (os físicos e os digitais), parecidos com os burgos medievais, vão criando uma sensação de que o mundo fora deles é perigoso e insuportável. Fora desse oásis, o que resta é uma horda de bárbaros na fantasia que vai sendo alimentada pelo marketing e pelos programas de notícias sensacionalistas.

Outra árvore que nasce colada ao lado externo do muro e acaba o atravessando para terminar de crescer dentro. Também no cemitério do Araçá, em São Paulo.

PAZ SEM VOZ NÃO É PAZ É MEDO

A letra de Marcelo Yuka, da canção Minha Alma (A Paz que Eu Não Quero), da banda O Rappa, diz: “As grades do condomínio são pra trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você quem está nessa prisão.”

O condomínio vai se fechando cada vez mais. Já é comum em muitos deles, lugares chamados clausuras, onde, para entrar e sair do condomínio, passamos por uma porta e só podemos passar pela outra quando a primeira se fecha.

Essas clausuras parecem já não ser mais sentidas como suficientemente seguras e dentro delas, tem se instalado roletas. Passa-se na primeira porta, para passar na roleta e só depois na segunda.

Para isso, biometrias faciais e outros recursos vão invadindo e se apoderando de nossos elementos mais próprios, nossa retina, nossas digitais, etc…

Só de esses lugares chamarem “clausura” já deveríamos nos questionar sobre muitas coisas.

O filósofo Zygmunt Bauman tratou em alguns de seus livros, e em uma de suas últimas entrevistas que concedeu antes de falecer, sobre um certo pêndulo em que ficamos historicamente. Balançamos entre liberdade e segurança. Segundo ele, em alguns momentos da história em nome de segurança, abrimos mão de muita liberdade, em outros, fazemos o inverso.

NARCISO NA CLÍNICA PSICANÁLITICA

Em seu texto clássico Introdução ao Narcisismo (1914), Freud diz que, em algum momento, nos voltarmos para si próprios é uma estratégia de defesa importante para manter certa saúde, porém a médio e longo prazo, precisamos nos abrir para amar, ou o ensimesmado adoece.

Encontrar esse ponto ideal entre se fechar e se abrir é importante. Cada um tem o seu.

Na clínica psicanalítica, nos deparamos muito com essa questão. Nossa subjetividade vai se constituindo no contato com o outro. Sem o outro não nos subjetivamos.

No entanto, é preciso construirmos certos limites para a invasão do mundo, do outro. Essa invasão se dá desde o olhar de aprovação do outro, passando por valores sociais, por suas pressões, das mais evidentes até as as mais sutis ou invisíveis.

Saber identificá-las e refletir até onde, quando e quanto vamos acolhê-las ou rechaçá-las é um bom e complexo exercício analítico que se faz na clínica.

Um muro acabou sendo construído em torno da árvore e ela ficou, ao mesmo tempo sendo parte do muro e trazendo uma dose grande de cores, beleza e natureza para o cinza da parede.

UM PISCAR DE OLHOS E O MUNDO MUDA

Cresci no bairro de Pirituba e era criança/pré-adolescente na década de 1980.

Muitas casas de minha rua não tinham muros, ou tinham muros baixos, com portões igualmente baixos e, estes, muitas vezes, tinham até certos toques artísticos.

Brincávamos na rua e todos os moradores dela nos conheciam, sabiam nossos nomes e de quem éramos filhos e netos.

Os portões ficavam abertos quase o tempo todo.

Os muros baixos eram uma delimitação quase totalmente simbólica que dizia onde era o espaço privado, onde era o espaço público.

O que fui acompanhando é a transformação da cidade em um lugar de casas com muros cada vez mais altos, que foram acrescidos de cercas elétricas; casas que foram derrubadas para virarem condomínios em ruas cujas calçadas são escurecidas por altos muros e cada vez menos ocupadas.

Quem está dentro não vê quem está fora e quem está fora não vê quem está dentro.

ANOTHER BRICK IN THE WALL

Fã de Pink Floyd como sou, não poderia deixar de citar The Wall, álbum clássico da banda.

Nele, Roger Waters usou a metáfora do muro para descrever uma sociedade em que as pessoas são “moldadas”como tijolos idênticos para construir uma sociedade que oprime individualidades.

As raízes calçadas que ilustram esse artigo talvez nos sugiram lidar de outras formas com esses muros, questioná-los, rachá-los, embelezá-los, entendermos até que ponto eles nos asseguram ou nos prendem.

Árvore que cresceu em cima do muro do cemitério da Rua da Consolação e suas raízes racharam o muro.

Por fim, mas não menos importante, é notável que a maioria dessas árvores fotografadas fiquem em paredes de cemitérios.

Nosso esforço em deixar a morte do lado de fora, não vista, também é sintoma de nosso tempo que merece atenção, mas quem sabe isso venha a ser tema para um outro texto.

PS: Em um artigo anterior, escrevi sobre as árvores que podem crescer para o sentido da calçada com alguma liberdade, mas que são podadas, muitas vezes com violência, quando tentam seguir seu caminho natural de crescer no sentido das ruas.

Essas renúncias e violências que elas sofrem, me remetem a certo mal-estar na civilização, do qual nos falou Freud. (Se você ainda não leu, clique aqui)

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