Notícias

As utopias que movem o set de filmagens

Foto: Divulgação

Boletim Outras Palavras

Receba por email, diariamente, todas as publicações do site



Agradecemos!

Você já está inscrito e começará a receber os boletins em breve. Boa leitura!

Um set de filmagens é um lugar complexo: ao mesmo tempo em que as pessoas ali reunidas sabem que estão produzindo uma obra de arte, o fazem através de um esforço coletivo que precisa ser meticuloso, tecnicamente preciso. Várias coisas precisam funcionar simultaneamente e há um regime de trabalho que pode lembrar as tarefas de uma empresa, com horários e funções bem determinadas, mas também possui as suas sementes de utopia, organiza algo que a seu modo quer existir para além do mundo das relações assalariadas. É nesse reino, no qual as forças do encantamento e da magia brigam com o tempo do mercado e do capital, que Morte e vida Madalena, novo filme de Guto Parente se localiza.

O tesão pelo cinema, a dificuldade do cinema

Ambientar um filme em um set de filmagens que é a explicitação de forças políticas e dilemas existenciais não é exatamente uma novidade, e o filme conscientemente brinca com essa tradição: 8 ½ de Fellini; O estado das coisas, de Wim Wenders e A Noite Americana, de Truffaut, são alguns clássicos que já exploraram o ambiente das gravações de um filme com todas as crises envolvendo diretores, produtores, atores e o material técnico à disposição ou não dos artistas.

De que forma Morte e vida Madalena difere de todos esses clássicos? De muitas maneiras, a começar por uma irreverência nordestina e identitariamente múltipla. Há corpos queer, mulheres e homens negros, pessoas subalternas, jovens, todas tentando criar um filme de ficção científica com baixo orçamento após o sumiço do diretor originalmente responsável pela tarefa.

É nítido que Guto Parente quis homenagear equipes e pessoas que fazem cinema em condições adversas, especialmente no Brasil, talvez seus amigos e gente que ele conviveu por todos esses anos. É uma daquelas belas realizações sobre o desejo de fazer cinema, o tesão em trabalhar com filmes, as durezas envolvidas no processo, o caldeirão de subjetividades que é preciso administrar para uma obra cinematográfica existir e, principalmente, uma homenagem a todo mundo que trabalha em sets de filmagem.

A Madalena do título, vivida por Noá Bonoba, é uma produtora que quer filmar o último roteiro escrito pelo pai, um cineasta importante que faleceu há pouco tempo (o filme começa com uma cena que se passa em seu velório). Davi, diretor e ex-marido, desaparece do set misteriosamente. Ela até tenta tocar o barco deixando tudo nas mãos de Oswaldo (Tavinho Teixeira), mas as experimentações radicais deste com o roteiro e com o próprio corpo fazem o projeto quase desandar, levando a própria Madalena, contra sua vontade inicial, a assumir a direção do filme.

Enquanto isso ela precisa lidar com uma gravidez de oito meses e meio (uma das muitas piscadas para a cinefilia) de um pai que nem sequer é Davi, arrumar uma arma para gravar cenas decisivas (além de, após sonhos premonitórios, salvar a vida de membros do set e lembrar de descarregar a arma), negociar com uma possível greve dos trabalhadores do set que estão com pagamentos atrasados, acolher uma assistente de direção que acaba de perder o pai durante as gravações, reencontrar Davi (que acabou de ter uma nova recaída no vício em drogas pesadas) e alguns outros problemas que revelam todo o trabalho afetivo necessário para que um filme, uma obra de arte, possa ganhar o mundo.

Outros sujeitos, outras coletividades

O resultado de todo o esforço empreendido pelas personagens é uma declaração de amor: as imagens do sci-fi precário, exercícios de experimentação e beleza inseridos no filme; as principalmente as cenas das pessoas felizes, da equipe bebendo cerveja em um boteco, celebrando a amizade e a formação de uma coletividade provisória; a felicidade estampada no rosto de todos após o grito de “filme encerrado!”, são expressões de alegria, de gozo a partir do esforço colaborativo.

Guto Parente não parece querer nos dar uma obra que ofereça a solução para nossos problemas políticos. Pelo contrário, o cinema aparece como aquilo que é, e a política está no abraço, na solidariedade, na camaradagem. Antes de ser uma proposta de conciliação, Morte e vida Madalena é uma defesa da radicalidade e da luta utópica que é inerente ao ato de fazer um filme no Brasil. A perspectiva é convincente, porque o resultado final é uma comédia das mais engraçadas que nosso país produziu nos últimos anos e porque nada se apresenta de modo ingênuo: os problemas de se trabalhar com arte no país existem, as pessoas tem seus problemas e seus defeitos expostos e negociados a todo o tempo. O set de filmagens em Morte e vida Madalena aparece como um laboratório das experiências humanas.

É através dessa expressão de amor ao cinema e da construção de momentos que mostram como a vida entra de maneiras inesperadas na construção de um filme que Guto Parente (e sua equipe) apontam para experiências políticas de afeto. A narrativa é recheada de piadas cinéfilas e “referências”, mas nunca deixa de fornecer essas imagens em que observamos tipos de relações muito complexas se desenvolverem. Vemos a equipe, e especialmente Madalena, tendo de passar por toda sorte de problemas oriundos da vida na sociedade burguesa, mas vemos também, aqui e ali, sinais de formas de trabalhos e de habitar o mundo que diferem, em muito, das cotidianas. Formas livres, coletivas, amorosas, pistas de um mundo porvir.

Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para outrosquinhentos@outraspalavras.net e fortaleça o jornalismo crítico.

The post As utopias que movem o set de filmagens appeared first on Outras Palavras.