
A realidade das mulheres nas cidades brasileiras segue marcada pela violência e pela desigualdade de gênero. Uma pesquisa nacional revela que sete em cada dez mulheres já sofreram algum tipo de assédio em pelo menos um ambiente do seu dia, um retrato contundente de como o machismo estrutural ainda limita o direito das mulheres à liberdade, à segurança e à ocupação plena dos espaços públicos.
Segundo a pesquisa Viver nas Cidades – Mulheres, realizada pelo instituto Ipsos-Ipec, 71% das mulheres afirmam ter vivido alguma situação de assédio em pelo menos um dos locais pesquisados, um índice que escacara o peso estrutural da violência machista na sociedade brasileira. Em algumas cidades, a incidência é ainda maior: Porto Alegre registra 82%, seguida por Belém (79%), enquanto São Paulo e Manaus aparecem com 72%.
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“A insegurança é uma regra na nossa vida, não é uma exceção. Há uma proporção alta de mulheres que seguem dizendo que já sofreram assédio”, alertou Patrícia Pavanelli, diretora de Opinião Pública e Política da Ipsos-Ipec, durante o lançamento da pesquisa, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc-SP.
Para movimentos feministas e especialistas em políticas públicas, números como esses mostram que o assédio e a violência contra mulheres não são episódios isolados, mas expressão de uma cultura patriarcal que limita o direito das mulheres à liberdade e segurança.
Ruas e transporte público concentram maior risco
Os espaços urbanos, que deveriam garantir mobilidade e convivência social, aparecem como os locais onde as mulheres estão mais expostas. Mais da metade das entrevistadas afirma ter sofrido assédio em ruas, praças ou parques (54%), enquanto 50% relatam episódios dentro do transporte público. Em outras palavras, trajetos comuns do cotidiano — ir ao trabalho, estudar ou apenas circular pela cidade — continuam sendo momentos de risco para milhões de brasileiras.
Outros espaços também aparecem como locais recorrentes de violência:
- 36% sofreram assédio no ambiente de trabalho;
- 32% em bares ou casas noturnas;
- 26% dentro do próprio ambiente familiar;
- 19% em transportes particulares, como táxis ou aplicativos.
O levantamento mostra que a violência atinge as mais jovens com ainda mais força. Entre mulheres de 16 a 24 anos, o assédio em espaços públicos chega a 76%, revelando o impacto precoce da violência de gênero na vida das brasileiras.
Machismo também pesa dentro de casa
A desigualdade de gênero não se limita às ruas. Dentro das casas, a sobrecarga feminina segue sendo uma realidade persistente. Embora 40% dos entrevistados afirmem que as tarefas domésticas são divididas igualmente, 39% reconhecem que, mesmo quando a responsabilidade é compartilhada, são as mulheres que acabam realizando a maior parte do trabalho doméstico.
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A diferença de percepção entre homens e mulheres revela um problema ainda mais profundo. 51% dos homens acreditam que há divisão igualitária, enquanto apenas 29% das mulheres concordam com essa avaliação, evidenciando o quanto o trabalho doméstico feminino permanece invisibilizado e naturalizado.
Sociedade exige respostas mais duras contra agressores
Diante da persistência da violência, a população também cobra respostas mais firmes do poder público. A pesquisa aponta que 54% dos entrevistados defendem o aumento das penas para quem comete violência contra mulheres, enquanto 49% pedem a ampliação dos serviços de proteção às vítimas. Já 40% consideram essencial agilizar as investigações das denúncias.
Os resultados evidenciam que o combate à violência de gênero exige muito mais do que respostas pontuais. Para especialistas e movimentos feministas, enfrentar o problema passa por políticas públicas robustas, ampliação das redes de proteção e transformação cultural capaz de romper com estruturas históricas de desigualdade.
A pesquisa foi realizada com 3.500 entrevistas em dez capitais brasileiras. O levantamento ouviu internautas com 16 anos ou mais residentes em Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia, com margem de erro de até dois pontos percentuais no total da amostra.
Para ver a íntegra da pesquisa, clique aqui.
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