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Atacar Irã para defender emancipação das mulheres é falácia, afirma pesquisadora

O conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã entra na sua quarta semana, em uma dinâmica na qual as mulheres iranianas estão entre as que mais têm sido afetadas, segundo Rosa Meneses, analista e investigadora especializada em Oriente Médio.

“Elas são as primeiras vítimas porque a violência só gera mais violência e qualquer tentativa de democratização nesta situação fica paralisada”, afirma a subdiretora do Centro de Estudos Árabes Contemporâneos da Espanha (CEAC), em entrevista a Opera Mundi.

Uma das justificativas apresentadas por Donald Trump para iniciar o conflito era a defesa dos direitos das mulheres no Irã. Para Meneses, essa narrativa é uma falácia.

“O presidente norte-americano apresentou diversos motivos para justificar o conflito, todos contraditórios, mas uma coisa é certa: eles não se importam com as mulheres iranianas. As guerras nunca representam avanços”, lamenta a acadêmica.

Segundo Meneses, “os direitos das mulheres não estão entre as variáveis para levar a democracia ao Irã, muito menos para que elas possam alcançar a igualdade. Bombas não trazem democracia; vimos isso no Iraque e em Gaza”.

Desde o início das hostilidades, em 28 de fevereiro, pelo menos 1,4 mil civis foram mortos no Irã e mais de 18 mil ficaram feridos, segundo as autoridades iranianas.

Os ataques também mataram o aiatolá Ali Khamenei e vários oficiais militares de alta patente, incluindo o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Ali Larijani, e o comandante da Organização Basij Mostazafin, Gholam Reza Soleimani.

De acordo com Meneses, a prioridade do governo iraniano neste momento é garantir sua própria sobrevivência. “O regime dos aiatolás quer preencher o vazio de poder com um novo líder. Atualmente, o que o regime está fazendo é se radicalizar, restringindo ainda mais os direitos das mulheres e isso vai continuar acontecendo porque as mulheres são símbolos da própria República Islâmica, um símbolo existencial”, explica.

Mulheres iranianas podem ter seus direitos prejudicados na guerra contra Israel e EUA, segundo pesquisadora
Mostafa Tehrani / Tasnim

Nacionalismo e resistência

Meneses aponta ainda que outro revés para Donald Trump e Benjamin Netanyahu é um possível movimento de maior nacionalização dos iranianos, principalmente do setor mais jovem.

Quem segue essa mesma linha de pensamento é o argentino Fabián Calle, especialista em geopolítica. Ele adverte que destruir a capacidade ofensiva iraniana não garante uma fratura política interna.

“A juventude iraniana pode não ser religiosa, mas provavelmente é nacionalista”, declarou Calle, em uma entrevista à imprensa argentina.

Para Meneses neste momento é muito difícil verificar realmente o que está acontecendo dentro do Irã. “A informação não chega com clareza e há muita propaganda de ambos os lados. Não sabemos ao certo para onde a sociedade iraniana está indo, mas sabemos que as intervenções externas passam por cima da vontade popular e do que os iranianos querem para o seu próprio país”, analisa.

A pesquisadora do CEAC da Espanha, Rosa Meneses
CEAC

Erros históricos que se repetem

A subdiretora do CEAC relembra que há bons exemplos na história de erros cometidos por administrações americanas sem retorno político positivo e que hoje estão sendo repetidos.

“Em 2003, os Estados Unidos disseram que era preciso derrubar Saddam Hussein por ser um ditador. Naquele momento, não havia estratégia para devolver o controle aos iraquianos nem permitir que tomassem suas próprias decisões”, recorda.

Meneses completa lembrando que “o governo norte-americano deixou um vazio de poder. Agora, vemos que tanto os Estados Unidos quanto Israel estão repetindo exatamente os mesmos erros no Irã”.

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