
As denúncias de tortura e maus-tratos contra ativistas da Flotilha Global Sumud se multiplicaram nesta semana, envolvendo cidadãos de ao menos dez países e reacendendo o debate sobre o bloqueio marítimo imposto por Israel a Gaza.
Organizações de direitos humanos e governos estrangeiros confirmaram relatos de violência, condições degradantes e abusos físicos contra centenas de pessoas detidas após a interceptação das embarcações em águas internacionais.
A flotilha, composta por 42 navios e 437 participantes — entre eles parlamentares, advogados, militantes e a ativista sueca Greta Thunberg —, partiu no final de agosto levando ajuda humanitária ao enclave palestino.
O grupo foi abordado pela marinha israelense em operação considerada ilegal por juristas e diplomatas, que afirmam que a ação ocorreu fora da jurisdição israelense.
Desde então, o país mantém mais de 150 pessoas detidas e já deportou outras 171, em meio a uma série de denúncias documentadas por advogados e pela organização israelense Adalah.
Segundo a entidade, os prisioneiros estão sendo mantidos em celas superlotadas, insalubres e sem acesso regular a advogados, medicamentos e água potável. Em nota, o grupo afirmou que Israel “está aplicando táticas utilizadas diariamente contra palestinos sob sua custódia, submetendo-os a tortura sistêmica e abusos horríveis”.
A Adalah também confirmou que uma mulher muçulmana foi obrigada a retirar o véu islâmico e recebeu apenas uma camisa como substituição.
Relatos de ativistas deportados e familiares de detidos descrevem espancamentos, privação de sono, interrogatórios violentos, insultos e restrição de alimentos. Um ativista holandês contou ter sido imobilizado com as mãos amarradas às costas e algo colocado sobre o rosto.
“Quase não conseguia respirar”, disse Marco Tesh, ao desembarcar em Madri.
Outro, o australiano Surya McEwen, relatou que foi “mantido em uma jaula com 80 pessoas, sem comida nem água, enquanto o ministro israelense Itamar Ben-Gvir gritava insultos contra nós”.
Casos semelhantes foram confirmados por governos estrangeiros. A Austrália afirmou estar prestando assistência consular a sete cidadãos detidos, entre eles McEwen e a cineasta Juliet Lamont, que relatou ter tido sua medicação confiscada e temer sofrer um derrame.
“Estou gravemente preocupada com o risco de sofrer um derrame depois que minha medicação foi confiscada”, declarou.
Ela contou ter sido amarrada com lacres plásticos, atingida por canhões de água e deixada por sete horas em local sem ventilação, com as roupas encharcadas, enquanto soldados empurravam sua cabeça repetidamente.
Na Nova Zelândia, o caso provocou crise política. Três cidadãos — Rana Hamida, Youssef Sammour e Samuel Leason — estão presos na mesma penitenciária do Neguev, sem acesso a advogados.
“Meu filho está em uma jaula lotada, sem água e sem advogado”, disse Adrian Leason, pai de um dos ativistas. A irmã de Rana relatou ferimentos no ombro e ausência de informações sobre o tratamento médico recebido.
A líder do Partido Verde, Chlöe Swarbrick, afirmou que o governo neozelandês “tem a obrigação legal de impedir o genocídio” e acusou o primeiro-ministro Christopher Luxon de “lavar as mãos dessa obrigação”.
As denúncias também se estendem a latino-americanos. O argentino-brasileiro Nicolás Calabrese, deportado no fim de semana, afirmou que os ativistas foram “sequestrados em águas internacionais”.
Ele relatou que o grupo ficou mais de 20 horas sem alimentação durante a interceptação e que “passou uma humilhação muito grande ao chegar ao porto”.
O brasileiro Thiago Ávila, coordenador da missão, declarou greve de sede para protestar contra a falta de medicamentos, enquanto outros três brasileiros permanecem em greve de fome.
Entre os casos mais graves, o da ativista sueca Greta Thunberg ganhou repercussão internacional.
Detida por Israel, ela afirmou a autoridades suecas ter sido mantida em uma cela infestada de percevejos, com pouca comida e água, e obrigada a posar com bandeiras israelenses para fotografias.
Testemunhas deportadas à Turquia disseram que Thunberg foi “arrastada pelos cabelos, espancada e forçada a beijar a bandeira de Israel”.
O governo israelense nega todas as acusações. Em nota, o ministério das Relações Exteriores afirmou que “todos os direitos legais dos detidos foram plenamente respeitados, e nenhum deles foi privado de advogados, água, comida ou descanso”. O comunicado diz ainda que “nenhuma força física foi usada contra eles”.
Em resposta, o centro jurídico Adalah disse que continua reunindo provas de “tratamento abusivo e ilegal” e pretende acionar tribunais israelenses e instâncias internacionais.
As denúncias também estão sendo analisadas por escritórios da ONU em Genebra e Nova York, que acompanham as queixas de violação de direitos humanos e de detenção arbitrária em território estrangeiro.
Os organizadores da flotilha afirmam que a missão era pacífica e tinha como único objetivo entregar ajuda humanitária a Gaza e expor o impacto do bloqueio, que há 16 anos restringe a entrada de alimentos, remédios e combustível no enclave.
Protestos em Roma, Atenas e Paris reuniram milhares de pessoas neste fim de semana, pedindo a libertação dos ativistas e ações internacionais contra o que chamam de agressão israelense em águas internacionais.
Israel sustenta que o bloqueio é uma medida de segurança para impedir o contrabando de armas, mas críticos e especialistas o definem como punição coletiva contra a população civil, em violação às normas do direito internacional.
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