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Ativistas dos EUA, Canadá e México denunciam gentrificação e remoções com a Copa

Em Los Angeles (EUA), um grupo de moradores joga futebol em um jogo promovido pela organização sem fins lucrativos People’s Football Club, criada com base nos princípios da solidariedade da classe trabalhadora e do antirracismo. As partidas do grupo frequentemente chamam a atenção para questões sociais. Em março, por exemplo, a ONG promoveu a partida “O Futebol é do Povo”, com o objetivo de mobilizar trabalhadores contra a Copa do Mundo de 2026.

Considerada a principal cidade-sede do torneio, Los Angeles receberá oito das 104 partidas internacionais da competição no SoFi Stadium. Mas nem todos estão satisfeitos com a chegada do megaevento à cidade.

Um panfleto do evento do People’s Football Club mostra um jogador mexicano entre dois agentes federais de imigração mascarados, com as palavras “Abolir o ICE, Abolir a Fifa”. Agências como a Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) e o Serviço de Imigração e Alfândegas (ICE), rotineiramente acionadas para grandes eventos esportivos nos Estados Unidos, alimentam o medo nas comunidades de imigrantes.

“O People’s Football tem jogadores com diferentes graus de consciência”, disse Victor Quintero, organizador do People’s Football Club. “Acho que o único fator que une todos os jogadores do futebol [recreativo] é que a Fifa é universalmente odiada. Não acho que seja necessário ter muita consciência ou politização para entender que a Fifa é realmente um câncer para o esporte.”

Embora o futebol seja frequentemente visto pelos jogadores como um elemento de união, Quintero disse que a forma como a Fifa opera é antitética. Ele apontou a dependência da entidade de empresas de tecnologia parceiras do Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) e os preços exorbitantes dos ingressos, que impedem trabalhadores de Los Angeles de assistir aos jogos realizados em sua própria cidade.

Além do impacto da Fifa sobre o futebol, também há resistência nas cidades-sede do evento esportivo, onde organizadores lutam contra a remoção de moradores, a gentrificação e a violência estatal que caminham lado a lado da Copa do Mundo.

“Você faz, você paga, nós levamos”

Diferentemente de outras edições da Copa do Mundo, o torneio deste ano é realizado em 16 cidades, com 104 partidas distribuídas por três países: Canadá, Estados Unidos e México. Los Angeles, que sediará o maior número de jogos depois de Dallas, no Texas, também receberá os Jogos Olímpicos de 2028, o que deixa organizadores locais apreensivos com o crescente potencial para violações de direitos humanos sem precedentes, além de mais remoções e gentrificação.

Em março, a Anistia Internacional divulgou um relatório alertando para as práticas repressivas e as crises de direitos humanos que devem surgir na “maior e mais lucrativa Copa do Mundo da história”. Isso inclui a remoção de pessoas em situação de rua; perfilamento étnico; batidas indiscriminadas; detenções e deportações ilegais; e repressão a mobilizações políticas, reuniões pacíficas e protestos.

Outro relatório, da organização Human Rights Research, acompanha os padrões de violações de direitos humanos associados a megaeventos esportivos como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, constatando que exploração do trabalho, remoções e despejos, além da supressão de liberdades civis, são práticas comuns nas cidades-sede.

A Fifa também tem feito da reabilitação da imagem de regimes autoritários uma prática recorrente. Mais recentemente, a entidade concedeu ao presidente Donald Trump seu primeiro “Prêmio da Paz”, uma tentativa explícita de conquistar a simpatia do presidente, segundo grupos de direitos humanos.

“Os moradores de Los Angeles amam futebol, e temos uma longa história como uma cidade apaixonada pelo futebol”, disse Eric Sheehan, organizador da NOlympics LA, uma coalizão de dezenas de organizações que lutam para impedir que autoridades locais usem os Jogos Olímpicos de 2028 como justificativa para sediar mais “megaeventos catastróficos” no futuro. “Mas não podemos confiar nos dirigentes da Fifa, porque utilizam grandes eventos para fortalecer a si mesmos e aos seus aliados, além de limpar a imagem de países como os EUA e Israel.”

Outros críticos têm denunciado as restrições intensivas e extensas que a Fifa impõe às cidades-sede. Em Los Angeles, a entidade mantém todos os direitos comerciais do evento, mas todo o ônus financeiro recai sobre a cidade anfitriã. O professor de gestão esportiva da Towson University, Robert Sroka, descreveu essa dinâmica como uma lógica de “você faz, você paga, nós levamos”, que beneficia a entidade de futebol.

Embora a Fifa tenha exigido que cada cidade-sede elaborasse “avaliações de risco de direitos humanos” para o evento esportivo, a maioria das cidades perdeu o prazo estendido de agosto de 2025. No entanto, até mesmo defensores de cidades que conseguiram elaborar “estratégias de direitos humanos” expressaram ceticismo de que esses esforços produziriam resultados substanciais.

Laura Macintyre, advogada da organização de direitos humanos Pivot Legal Society, de Vancouver (Canadá), observou que, quando a cidade publicou suas estratégias de direitos humanos em fevereiro, o documento era uma lista de burocrática de políticas e procedimentos já existentes, sendo que a maior parte carecia de financiamento ou de medidas para ampliação.

“Tentamos uma reunião com o comitê da cidade-sede durante um ano e meio, mas fomos ignorados”, explicou Macintyre à Prism. “Fizemos nosso primeiro pedido em junho de 2024 e só conseguimos uma reunião com eles em 20 de fevereiro de 2026, um dia depois de a versão preliminar do plano ter sido divulgada.”

Muitos dos planos das cidades-sede para o evento esportivo incluem projetos de embelezamento urbano, conforme exigido pela Fifa. No acordo firmado com Los Angeles, por exemplo, a cidade deve “tornar as instalações e os espaços públicos na cidade-sede o mais atraentes possível (…) e deverá, às suas próprias custas, executar as respectivas medidas de embelezamento”.

Defensores de direitos e organizadores denunciaram essas obrigações como instrumentos de deslocamento populacional.

Em Vancouver, autoridades implementaram uma zona de “embelezamento” com mais de 1,6 quilômetro de extensão ao redor do estádio BC Place, no bairro Downtown Eastside, onde há moradores em situação de rua e com problemas de dependência química. Muitos deles expressaram medo de serem removidos, de forma semelhante ao que ocorreu durante os Jogos Olímpicos de Inverno de 2010 na cidade.

As estruturas e serviços criados exclusivamente para beneficiar turistas também geram ressentimento entre os moradores locais.

Seattle está gastando US$ 32 milhões para sediar seis partidas da Copa. “Algo que toda Seattle está sentindo é que essas melhorias — como banheiros, bebedouros, coleta de lixo e transporte gratuito — aparecem magicamente para quem tem ingresso da Fifa. E quanto ao resto de nós durante o restante do ano?”, disse Em, que utiliza um pseudônimo por razões de segurança. Moradora de Seattle, ela é integrante da Chinatown International District Coalition, um grupo comunitário que luta contra a remoção de moradores.

“Os males sociais do tecido urbano”

Segundo organizadores, megaeventos esportivos têm impactos sociais significativos, mas talvez nenhum seja mais perigoso do que a capacidade que oferecem às autoridades para livrar as cidades de populações consideradas indesejáveis.

Segundo a Al Jazeera, como parte dos preparativos para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, 250 mil dos moradores mais pobres do país — principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre — sofreram os maiores impactos do evento esportivo, ao serem ameaçados de despejos ou remoções.

Tyeshia Redden, professora de Planejamento Urbano na Universidade de Toronto, estuda o impacto dos megaeventos esportivos em cidades de maioria negra. Ela disse à Prism que há muitos exemplos de copas que resultaram em remoções de bairros inteiros.

“Particularmente na África do Sul, vimos a Copa do Mundo ser utilizada como justificativa para remoções antes mesmo do torneio”, explicou. “Mas também vimos despejos e remoções continuarem por anos depois. O que realmente observamos é que esses megaeventos esportivos são instrumentos de transformação urbana em larga escala, e essa transformação normalmente não inclui os moradores negros de forma positiva. Em geral, eles são considerados parte dos males sociais do tecido urbano.”

Redden afirma que “a história não se repete, mas rima”. Ela lembra que Atlanta (EUA), cidade que sediou os Jogos Olímpicos de 1996, emitiu notificações e autuações em massa contra pessoas negras em situação de rua antes do evento. Policiais também preenchiam previamente formulários com as descrições “negro, homem, sem-teto”, antecipando operações para remover pessoas em situação de rua.

Grandes eventos esportivos também são utilizados para remover de espaços públicos membros de comunidades criminalizadas e moralmente estigmatizadas pela sociedade, incluindo usuários de drogas ou trabalhadores sexuais.

Segundo alguns ativistas locais, a disputa pela prefeitura de Los Angeles também se misturou com os esforços mais recentes da cidade para lidar com problemas sociais de longa data sob um ângulo de criminalização.

“A maior visibilidade proporcionada pela Copa acabou se traduzindo em uma guerra contra políticas de redução de danos e os serviços de distribuição de seringas, impulsionada pela atual corrida eleitoral para a prefeitura de Los Angeles”, disse Benton Oliver, pesquisador da Universidade de York, em Toronto, que se dedica ao estudo dos deslocamentos populacionais. 

“Embora alguns candidatos à prefeitura tenham aproveitado esse momento para julgar moralmente usuários de drogas e explorar um tema conveniente para impulsionar suas campanhas, os moradores mais vulneráveis da cidade arcarão com as consequências dessas decisões e continuarão sujeitos aos deslocamentos, violência e mortes, para que outras pessoas possam assistir a eventos esportivos”, critica Oliver. 

Em, a integrante da Chinatown International District Coalition, destacou os imigrantes asiáticos que trabalham em casas de massagem em Seattle e na região metropolitana da cidade, cujos estabelecimentos foram alvo de operações policiais sob o pretexto de ações de combate ao tráfico de pessoas. Para a ONG local Massage Parlor Organizing Project, os trabalhadores de baixa renda, imigrantes asiáticos e funcionários de casas de massagem são desproporcionalmente visados por essas operações.

Os impactos nocivos da Copa do Mundo podem assumir formas sutilmente diferentes em cada cidade-sede, mas as estratégias das autoridades locais para deslocar moradores e “embelezar” o espaço urbano são muito semelhantes. Em Los Angeles, as consequências tendem a ser particularmente severas devido à realização dos Jogos Olímpicos de 2028.

A cidade da Califórnia já sediou os Jogos Olímpicos de 1984, quando uma quantidade até então inédita de recursos públicos foram destinados à contratação de mais efetivo de segurança e compra de armamentos, intensificando a militarização da polícia, que realizou operações de remoção e repressão em bairros trabalhadores próximos aos estádios.

Antes e durante os Jogos de 1984, esse aumento drástico do policiamento levou à criminalização de jovens negros e latino-americanos no sul de Los Angeles. A NOlympics LA relaciona o aumento da militarização policial e da violência naquele período às condições de tensão social que eclodiram após o episódio de espancamento de Rodney King pela polícia, em 1991.

Décadas depois, com a chegada da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, Sheehan, organizador da NOlympics LA, afirmou que os moradores sentirão as consequências desses eventos por muitos anos.

“Estamos vendo os aluguéis em Inglewood dispararem desde o anúncio dos Jogos Olímpicos, que coincidiu com a construção do SoFi Stadium. As Olimpíadas certamente foram parte importante desse cálculo”, disse Sheehan à Prism.

Embora a construção do SoFi Stadium, onde estão programadas as partidas da Copa do Mundo em Los Angeles, não tenha resultado diretamente na expropriação de áreas e imóveis no entorno, ela desencadeou uma série de reações em cadeia. Moradores relatam aumentos no custo de moradia e processos de gentrificação que expulsaram negros e latinos. 

Inquilinos de casas nas imediações do estádio também relataram aumentos de aluguel, despejos, pressão por parte de proprietários, intensificação do policiamento e atuação de imobiliárias que compram imóveis de proprietários negros e latinos que não conseguiram pagar suas hipotecas, a fim de revendê-los com maior lucro.

Uma rede de cidades se levantando

Enquanto autoridades exaltam os supostos benefícios de ser uma cidade-sede, os moradores conscientes dos impactos negativos da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos sobre suas comunidades se organizam e constroem formas coletivas de resistência.

Sheehan disse à Prism que há uma coalizão crescente de organizações em Los Angeles determinada a tornar a cidade pouco receptiva a megaeventos, como parte da iniciativa NOlympics LA.  

Na Cidade do México, essas questões chegaram a um ponto crítico. Moradores enfrentam aumentos crescentes nos aluguéis à medida que imóveis são convertidos em unidades para aluguel via Airbnb. Há ainda uma recente chegada de “nômades digitais” dos EUA, que intensificam a demanda por moradia na cidade e elevam o custo de vida, provocando protestos em larga escala. 

A Copa do Mundo acelera o processo de gentrificação da Cidade do México. Apesar dos compromissos assumidos por parlamentares para ampliar a regulação dos aluguéis e implementar outras medidas, grupos de defesa da moradia, pesquisadores e ativistas afirmam que as reformas propostas são insuficientes.

Durante o Congresso da Fifa em Vancouver, em abril, centenas de pessoas participaram de protestos. Organizações comunitárias locais, incluindo a Pivot Legal Society, destacaram que três hotéis de ocupação individual de baixo custo — que abrigam quase 300 pessoas — seriam fechados por causa da Copa, deixando esses moradores na rua.

“[Nossos objetivos são] primeiro, chamar atenção para o nosso trabalho e para nossas reivindicações; mas, em segundo lugar, conectar os impactos locais em Vancouver, como a criminalização e a remoção de moradores, aos impactos globais, como a cumplicidade da Fifa com o genocídio em Gaza e o fato de que ela não tomará medidas contra Israel, apesar de os militares terem matado mais de 400 jogadores de futebol palestinos”, disse Macintyre, em referência ao fato de Israel ter sido autorizado a competir [no entanto, a seleção não se classificou nas eliminatórias para o torneio].

Quintero, organizador do People’s Football Club, demonstra confiança no futuro e na relação da Fifa com o futebol, já que vê o esporte como um espaço de disputa, separado da entidade. É por isso que as partidas beneficentes organizadas pelo clube são realizadas em parceria com organizações locais para dar visibilidade a questões de justiça social, incluindo colaborações com a Dyke Soccer, em apoio à comunidade trans local, e com o Palestinian Youth Movement, em apoio aos cidadãos de Gaza.

Enquanto o sindicato que representa mais de 2 mil trabalhadores do SoFi Stadium votou a favor de uma greve às vésperas da Copa do Mundo, Quintero afirmou que grande parte de sua aversão à Fifa está ligada aos fundamentos plutocráticos da entidade.

“A Fifa é um sintoma do capitalismo, e o capitalismo é a principal doença aqui”, disse Quintero. “Estamos pedindo a abolição da Fifa. O futebol é do povo.”