
No Brasil, o lugar onde a pessoa nasce, a renda da família, o gênero e a raça continuam pesando sobre as oportunidades de melhorar de vida. É o que mostra o Atlas da Mobilidade Social, divulgado pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds) na última sexta-feira (31).
As mulheres são as que enfrentam as maiores barreiras. Entre aquelas que cresceram nas famílias mais pobres do país, duas em cada três continuam entre os brasileiros de menor renda quando adultas. Entre os homens, essa proporção cai para um em cada três. A situação é ainda mais dura entre as mulheres classificadas pelo estudo como não brancas: 69% permanecem na base da distribuição de renda.
A dificuldade de romper esse ciclo vai além das diferenças entre homens e mulheres. O Atlas mostra que a pobreza ainda passa de uma geração para outra. Entre os jovens que cresceram nas famílias situadas entre os 25% mais pobres, quase metade (48%) continua nesse mesmo grupo quando chega à vida adulta. Apenas 8,3% conseguem alcançar o grupo dos 25% mais ricos e só 1,3% chegam ao estrato dos 10% de maior renda.
O problema também aparece quando o Brasil é comparado a outros países. O estudo que deu origem ao Atlas mostra que apenas 2,5% dos filhos dos 20% mais pobres conseguem chegar ao grupo dos 20% mais ricos. Nos Estados Unidos, esse percentual chega a 7,5%. Na Itália, é de 11,2%. Na Suécia, alcança 15,7%.
Quando as desigualdades se acumulam
Nascer em uma família pobre não pesa da mesma forma para todos. Entre os homens que cresceram nas famílias de menor renda, 32,9% permanecem entre os 25% mais pobres. Entre as mulheres, esse percentual praticamente dobra e chega a 65,1%.
A desigualdade aumenta quando o recorte considera também a raça. Entre jovens brancos que nasceram nas famílias mais pobres, 36,3% continuam nesse grupo de renda. Entre os classificados pelo Atlas como não brancos, o índice sobe para 51,6%.
A diferença entre homens e mulheres não é a mesma em todas as famílias. Entre quem nasceu nas camadas mais pobres, elas ficam, em média, 17,5 posições abaixo dos homens na distribuição de renda. Entre quem cresceu nas famílias mais ricas, essa distância diminui para 10,4 posições. O estudo indica que as barreiras de gênero pesam mais justamente sobre quem já parte de uma condição de maior vulnerabilidade.
O CEP também faz diferença
A renda da família não é o único fator que influencia o futuro. O lugar onde a pessoa cresce também muda suas chances de melhorar de vida. No Norte, apenas 1,32% dos jovens de famílias com renda abaixo da mediana conseguem chegar ao grupo dos 10% mais ricos. No Nordeste, esse percentual é de 1,36%. No Centro-Oeste, a chance mais que dobra e chega a 2,86%. O Sul registra 2,71%, enquanto o Sudeste aparece com 2,26%.
As diferenças aparecem até entre municípios. Em Assis Brasil (AC), 84,4% dos jovens das famílias mais pobres permanecem nesse mesmo grupo de renda. Já em Ponte Serrada (SC), esse percentual cai para 2,13%, um dos menores registrados pelo Atlas.
Na prática, os dados mostram que as oportunidades continuam distribuídas de forma desigual pelo país. Enquanto Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste concentram mais chances de ascensão, grande parte do Norte e do Nordeste ainda enfrenta obstáculos históricos para romper o ciclo da pobreza.
Educação abre portas, mas não basta
Entre todos os fatores analisados, a educação foi o que apresentou maior relação com a mobilidade social. Segundo o Atlas, municípios com melhores indicadores educacionais também oferecem mais oportunidades para que seus moradores rompam o ciclo da pobreza.
Mas o próprio estudo faz um alerta: educação, sozinha, não rompe o ciclo da desigualdade. Segundo o presidente do Imds, Paulo Tafner, ampliar o acesso à educação precisa caminhar junto com políticas capazes de reduzir as desigualdades de origem e ampliar oportunidades ao longo da vida.
“A mobilidade social depende da capacidade de reduzir as desigualdades de origem. O Atlas mostra que políticas educacionais são fundamentais, mas precisam ser acompanhadas de estratégias econômicas capazes de ampliar oportunidades ao longo da vida.”
O Atlas reúne indicadores sobre mobilidade intergeracional e dados socioeconômicos dos municípios brasileiros. A plataforma foi construída a partir de informações da Receita Federal, dos ministérios do Trabalho e Emprego e do Desenvolvimento Social e do IBGE, com base na metodologia do estudo Intergenerational Mobility in the Land of Inequality (Britto et al., 2025).
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