
O Partido Comunista Revolucionário (PCR) celebra seus 60 anos com atos políticos e culturais em várias cidades.
Jesse Lisboa (PE) e João Gabriel Cruz (SP)
PARTIDO – Neste último mês de maio, o Partido Comunista Revolucionário (PCR) iniciou as celebrações por seus 60 anos de fundação. Os primeiros atos aconteceram em Recife, Salvador, Maceió e diversas cidades do Estado de São Paulo.
Em 1966, pouco mais de dois anos após o golpe de Estado das Forças Armadas, que impôs um regime fascista no Brasil, um grupo de comunistas – encabeçado por Manoel Lisboa de Moura e Amaro Luiz de Carvalho – fundou o PCR com o objetivo de construir um processo revolucionário para derrubar a ditadura e construir o socialismo em nosso país.
Cinema e música
Na capital pernambucana, o icônico Cinema São Luiz recebeu o “Concerto Rabecado para Manoel Lisboa”, no dia 23/05. O evento reuniu mais de 500 pessoas, entre militantes dos movimentos sociais (em especial do Movimento de Luta nos Bairros), apoiadores, delegações dos Estados da Paraíba e de Alagoas, além de companheiras de todos os estados do país, que se reuniam na Coordenação Nacional do Movimento de Mulheres Olga Benario.
A programação começou com a exibição do documentário “Manoel Lisboa – Herói da Resistência à Ditadura”, dirigido pelo cineasta Carlos Pronzato, que resgata a trajetória de lutas e o legado político do fundador do PCR assassinado em 04 de setembro de 1973 no DOI-Codi do 4º Exército, em Recife, após dias consecutivos das mais terríveis torturas, sem nada entregar aos seus algozes.
Após a exibição, muitas palavras de ordem ecoaram na sala lotada. Edival Nunes Cajá, ex-preso político e presidente do Centro Cultural Manoel Lisboa, e de Samara Martins, da Unidade Popular (UP), fizeram uso da palavra reforçaram a importância de manter viva a memória de quem lutou contra a ditadura para que os horrores do fascismo nunca mais se repitam.
“O que nós vimos neste filme, nas canções e nas poesias, é um canto épico ao homem novo. É um chamado a todos nós a continuar a luta de Manoel Lisboa, Amaro Luiz de Carvalho, Manoel Aleixo, Amaro Félix e Emmanuel Bezerra até a vitória do socialismo”, ressaltou Cajá.
“O PCR, partido irmão da Unidade Popular, é referência nas nossas lutas porque nunca se rendeu ao fascismo de ontem nem de hoje. Seguiremos honrando o exemplo de Manoel Lisboa: exemplo de humildade, de combatividade, de ser humano, protótipo da humanidade futura”, destacou Samara.
Para finalizar a tarde, a música ficou por conta de grandes artistas engajados com a cultura e as causas populares: Banda Guazapa, com um repertório de canções latino-americanas, e Publius e Gustavo (ambos do Forró Rabecado), que deram o tom com canções que marcaram a resistência à ditadura, com a roupagem da música nordestina.
Retificação das certidões de óbito
No dia anterior (22/05), foi realizada, na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), também em Recife, a sexta entrega de certidões de óbito retificadas de 52 vítimas da ditadura militar nascidos ou assassinados nos Estados de Pernambuco, Paraíba e Alagoas. Durante o ato, diversos familiares de militantes políticos assassinados pelo regime receberam os documentos corrigidos.
A iniciativa, promovida pelo Ministério dos Direitos Humanos, por meio da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, altera a causa da morte registrada nos documentos originais. Durante o regime militar, os órgãos de repressão falsificavam sistematicamente os laudos periciais e os atestados de óbito dos militantes políticos. Mortes causadas por sessões de tortura ou execuções sumárias nos porões da ditadura eram registradas oficialmente como “suicídios”, “atropelamentos” ou decorrentes de “tiroteios”.
Com a retificação, os novos atestados passam a reconhecer, de forma oficial, que as vítimas morreram em decorrência de violência praticada pelo Estado brasileiro.
A correção dos atestados é resultado direto de décadas de luta das famílias dos mortos e desaparecidos políticos em defesa da memória, da verdade e da justiça. Na ocasião, foram entregues as certidões dos dirigentes do PCR Manoel Lisboa de Moura, Amaro Luiz de Carvalho e Amaro Félix Pereira, heróis do povo brasileiro que dedicaram suas vidas à causa do socialismo.
Aniversário do PCR em SP
Em São Paulo, o aniversário do PCR foi marcado por uma nova etapa do crescimento da organização. Oito cidades sediaram eventos regionais que movimentaram caravanas por todo o estado. As atividades foram marcadas por uma energia revolucionária, pois toda a militância estava contagiada pela marcha que reuniu 50 mil estudantes e trabalhadores contra o governo fascista de Tarcísio de Freitas em direção ao Palácio dos Bandeirantes, apenas quatro dias antes.
Na capital, 250 pessoas se reuniram em frente a um bandeirão com a frase do jovem herói potiguar Emmanuel Bezerra: “Meus soldados não se rendem… O grande dia chegará!”. Enquanto A Internacional era entoada por todo o plenário, a bandeira do Partido foi hasteada solenemente. A cultura popular tomou conta das homenagens a partir da intervenção de dois metalúrgicos da região da Mooca, que expressaram a revolta e a luta da classe operária em suas poesias.
Em Ribeirão Preto, a militância reuniu cerca de 70 pessoas na Ocupação Madre Maurina, que homenageia a freira que lutou bravamente contra a ditadura militar. Durante a festa, ao redor de uma fogueira, poemas e moda de viola foram entoados como marca da cultura de resistência popular da região.
Mogi das Cruzes recebeu 100 militantes e amigos do Partido vindos de mais de nove cidades, como São José dos Campos, Suzano, Guarulhos e Caraguatatuba. Durante o ato político, Júlia Campos afirmou: “Nosso partido foi fundado como fruto de uma profunda luta ideológica na sociedade, em um período determinante para o povo. Em resposta ao revisionismo e à necessidade de unir a classe para pôr fim à ditadura e construir o socialismo, nasceu o PCR. Não vai ser diferente nas próximas etapas. Já temos nosso partido, a tarefa mais imediata é fazer nossa organização crescer com ousadia”.
Clarice, moradora de Guaratinguetá, relatou durante sua intervenção: “Tenho 77 anos, mas também tenho a energia de uma moça de 17. Entrei no Partido para fazer a revolução. Isso que fazemos não é brincadeira. Temos que ter disciplina e compromisso. Foi assim que chegamos até aqui e é assim que vamos fazer o Partido chegar a todo o nosso povo!”.
A região do ABC Paulista, berço do movimento operário no final da ditadura, festejou os 60 anos do PCR na cidade de Diadema com mais de 100 pessoas, sob cânticos revolucionários e denúncias das condições de vida da classe trabalhadora.
Na cidade de Campinas, mais uma centena de pessoas assistiram a um trecho do documentário sobre Manoel Lisboa, e várias homenagens emocionantes foram feitas ao camarada. “O Partido é o que de melhor aconteceu na minha vida. Me transformou completamente como pessoa. Hoje, tenho orgulho de lutar para que meus filhos não passem pelo que eu passei. Vamos crescer e fazer a revolução logo. É a melhor homenagem que podemos fazer a Manoel Lisboa!”, disse Ana Cristina, moradora da Ocupação Elesbão.
Matheus, de 27 anos, reafirmou a importância da tarefa fundamental: “Tive pouco estudo e trabalho em fábrica desde novo. A exploração não permite que a gente veja o que existe por trás de tudo aquilo, mas, com o Partido, eu vejo um novo sentido no trabalho que faço. Cada vez mais operários se identificam com nossa agitação na porta da fábrica e avançam as conversas lá dentro sobre a necessidade de lutar por um país melhor. Estamos avançando, mas é preciso persistência”.
Também ocorreram festas em comemoração aos 60 anos do PCR em Santos, Jundiaí e Sorocaba, que reuniram centenas de pessoas e renderam fortes homenagens aos fundadores do Partido.
Salvador e Maceió
Na capital baiana, o ato pelos 60 anos de fundação do PCR ocorreu Casa Preta Zeferina, no dia 28/05. Estiveram presentes no evento Aroldo Félix, pré-candidato ao Governo da Bahia pela UP, Eslane Paixão e Leo Péricles, respectivamente, presidente estadual e nacional da UP. Também compareceram João Carlos Salles, reitor eleito da UFBA, Dulce Aquino, da Comissão da Verdade da Bahia e Ana Luiza, coordenadora-geral da Fenet.
Em Maceió, cidade natal de Manoel Lisboa, o ato aconteceu no dia 30/05, na ocupação de famílias sem-teto organizada pela MLB que leva o nome deste herói alagoano.
Matéria publicada na edição impressa nº 335 do jornal A Verdade